A China já emprestou o dobro à América Latina do que todo o resgate da troika a Portugal

Este montate é especialmente relevante se considerarmos que Portugal era até há bem pouco o maior devedor do FMI

Sem Título

Vejamos como.

Sai Cristina Kirchner da Casa Rosada. Acabam 12 anos e meio de Governo do casal Kirchner. Mauricio Macri, antigo Presidente do Boca Juniors e com um partido fundado em 2005, consegue algo que parecia impossível um ano antes nas sondagens e torna-se Presidente da República Argentina a 10 de dezembro passado. Seis dias depois, o Ministro das Finanças, Alfonso Prat-Gay, cumpre o seu programa eleitoral e anuncia o final das limitações à compra de dólares americanos no país estabelecido em 2011 pela anterior Presidente. O peso argentino depreciou até 40% nos dias seguintes. Macri fala de uma “depreciação controlada”, mas para controlar o ritmo da depreciação precisa de divisas.

1450967934_114319_1450968219_noticia_normal

Surge mais uma vez a necessidade da Argentina recorrer a fontes adicionais de divisas externas para fazer face à queda do peso, em particular de dólares americanos.

Quais seriam as fontes tradicionais? O FMI não, claro. Por razões ideológicas, pelos recentes incumprimentos do lado argentino e pela reputação, péssima, daquela instituição junto dos argentinos pelas suas políticas no passado recente. Os EUA, como fonte primária de dólares americanos, também não. O pedido de assistência argentino e as negociações bilaterais a decorrer atualmente entre ambos os países não deverão produzir acordos significativos, dado o atual timing político americano. A Europa? O défice de financiamento de muitas das suas economias impedem-na de se aventurar em apoios externos. Os seus vizinhos latino-americanos? Por dimensão, o México e o Brasil poderiam ser uma opção, mas, para além da forte rivalidade entre ambos os países, este encontra-se em recessão profunda.

Quem resta para ajudar o Banco Central da Argentina a controlar o ritmo da depreciação da sua moeda?

th

Mais uma vez, a China salva a Argentina. Já em 2014, no seguimento do acórdão do tribunal norte-americano contra o Governo argentino e em favor dos fundos abutres, o Banco Popular da China tinha acordado com o seu análogo argentino uma troca de yuans y pesos no montante de USD 11 mil milhões (cerca de 5% do PIB português). As condições? Essas divisas apenas poderiam ser usadas para importar produtos chineses (segundo parceiro comercial argentino) e pagariam juros anuais de 4% na divisa norte-americana. Na passada terça-feira, a China concordo em trocar USD 3,1 mil milhões de yuans que a Argentina possui para dólares norte-americanos como primeira tranche da ajuda.

Resultado, a comunicação social, apesar do normal impacto deste tipo de depreciações na inflação, fala numa das “mais tranquilas depreciações de que há sinal”.

depreciacion peso 2014

Mais um passo na hegemonia económica da China na região da América Latina. O gigante asiático, com acordos de livre comércio em vigor com Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador, Perú, e Venezuela, entre outros, é já o maior financiador da região, superior à soma do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. USD 75 mil milhões (equivalente ao resgate da troika a Portugal em 2011) apenas entre 2005 e 2011, com condicionalismos facilmente aceitáveis por contrapartida a matérias-primas e petróleo e com condições financeiras mais favoráveis do que estes últimos.

Mas também mais um passo na cada vez maior preeminência da China nas finanças internacionais que terá como corolário a inevitável internacionalização do renminbi. Desde o início da crise financeira global em 2008, a China assinou mais de 40 acordos bilaterais de troca de moeda, com a União Europeia, Rússia, Canadá, Brasil, Argentina, Japão ou Paquistão, entre outros. Agora que a moeda chinesa faz parte do cabaz de moedas de reserva do FMI, a China abre centros financeiros por todo o mundo para promover o comércio e a emissão de dívida pública e privada em yuans. Uma primeira colocação ocorreu na city londrina em outubro passado. Várias praças financeiras rivalizam por ser o segundo local europeu de emissão de dívida em yuans, entre eles Lisboa.

china-bond

Interesting times to come.

Esta entrada foi publicada em Brasil, Chile, China, Costa Rica, Equador, EUA, Grécia, Irlanda, Japão, México, Paquistão, Perú, Portugal, Rússia, Tunísia, Ucrânia, União Europeia, Venezuela com as etiquetas , , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s