O herói de Tacloban, um ano depois

Tive a oportunidade de conhecer o Reynaldo poucos minutos depois de o avião nos pousar na estrutura vazia do que dois meses antes era o terminal do aeroporto de Tacloban.

Aeroporto de Tacloban dois meses depois

O único sobrevivente ao tufão Yolanda na zona do aeroporto, que, entre outros, contava com uma esquadra de polícia onde trabalhavam uma dúzia de agentes nesse dia. A água subiu dez metros e absorveu o aeroporto e todos os seres vivos que o ocupavam. Todos, à exceção do Reynaldo.

Situado numa zona privilegiada para um aeroporto, o nível da água subiu de ambos os lados do pontão, a poucos quilómetros de onde o General MacArthur desembarcou nas Filipinas para lutar os japoneses na segunda guerra mundial.

Baia de Tacloban

O cenário não melhorou à medida que atravessávamos a cidade. A estrada que percorre a costa tinha-se transformado num local emblemático da catástrofe. Meia dúzia de barcos de transporte de contentores, de mais de 50 metros (afinal, Leyte era um dos maiores produtores de minério de ferro e de bananas do país), estavam estacionados a cem metros da linha do mar, arrastados pela subida do mar e abandonados em terra firme quando as águas recuaram. Transformados em hotéis improvisados de muitas das pessoas que perderam o seu abrigo.

Barcos fantasmas

Muitas foram as histórias contadas sobre Tacloban, como a do publicitário do filme sobre a fabulosa vida do Walter Mitty.

Eu também tenho a minha história. Em muito me marcou essa experiência, visitar Tacloban, o ground zero de uma grande catástrofe natural. E muitos testemunhos pessoais poderiam ser relatados. Em homenagem a este primeiro aniversário da catástrofe, eu fico com este.

Conheci Leonardo Javier, presidente da Câmara de Javier, no centro da ilha da Leyte, a cerca de 80 quilómetros de Tacloban. As histórias que partilhou comigo davam para escrever mais do que um livro. Os vídeos são dantescos.

Produtor avícola com uma cadeia muito famosa de comida rápida no país, o Leonardo decidiu começar por transportar todos os ovos do seu aviário, centenas de milhares, para o pavilhão da cidade, cozinhá-los na forma de sopa e distribuí-los pela população. Logo de seguida, decidiu pegar nos seus 40 homens e no seu único caterpillar e ir até Tacloban. Uma viagem que demora normalmente uma hora ….. demorou naquele dia 40 horas!!!

Abrindo caminho

A partir de Tanauan, várias horas depois de estar a cortar cabos, retirar árvores e cobrir corpos na berma da estrada, olhou para trás e viu uma procissão silenciosa de centenas de pessoas que se iam juntando aos seus trabalhos para chegar a Tacloban e ver se os seus familiares e amigos estavam ou não vivos.

Procissão

A apresentação em anexo é a fotohistória dessa viagem (algumas imagens podem ser não aptas para leitores mais sensíveis), complementada com vídeos dos momentos em que o Yolanda açoitava Javier.

Por mais incrível que pareça, as pessoas, no meio de toda essa destruição, sorriam e saudavam as câmaras. O espírito mais filipino, e católico, da resignação. Mostravam estátuas religiosas à medida que os carros passavam, habituados a catástrofes sazonais. mas nenhuma como o Yolanda.

Faz amanhã um ano que o tufão mais potente a tocar terra firme desde que há registo destruía as ilhas de Leyte e Samar, no oeste do arquipélago das Filipinas.

Ilha de Leyte

Mais de 8 mil mortos contabilizados. Ventos máximos de 350 quilómetros por hora, a açotar sobretudo a capital da ilha de Leyte, Tacloban.

Não era bem um tsunami. O tsunami é provocado pelo movimento repentino do fundo do mar, que por alastramento provoca ondas na superfície. O sea surge, como é conhecido este fenómeno, é resultado de fortes ventos que arrastam a superfície do mar.

Sea surge

Um ano depois, infelizmente, os problemas estruturais continuam lá. O Governo proibiu a construção de habitação até 30 metros da costa, mas a norma não é cumprida. Hoje, o único rendimento das populações é a pesca, e estar mais perto da costa significa maior rendimento. Os preços dos materiais de construção triplicaram face à média nacional, e hoje ainda continuam 50% mais caros e escassos. 90% da destruição material ocorreu em bens e alojamento  pessoal.

Muito para fazer um ano depois.

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