O sonho chinês

Jack Ma, de 49 anos, é o chinês do momento. Alibaba, a companhia chinesa de comércio eletrónico que criou em 1999, irá registar um novo recorde na sua estreia na Bolsa de Nova Iorque. Um antigo professor de inglês da Universidade de Hangzhou, que cresceu no delta do río Yang Tse, passará em breve a fazer parte dos homens mais ricos do mundo. Os 8,5% que irá manter na companhia terão um valor de cerca de 14 mil milhões de dólares.

Logo da Alibaba

Para um cidadão médio europeu que compra em Carrefour, Mercadona, Tesco ou Aldi, Ali Babá, acompanhado de quarenta ladrões, não é mais do que uma personagem fictícia de um dos contos do livro das mil e uma noites.

Ali Babá e os 40 ladrões

Esse cidadão demorará a aceitar que, daqui a não muitos anos, uma grande parte do planeta passará pela caixa registadora de Alibaba. Os colossos do capitalismo mundial foram mais visionários. Em poucas horas, vão comprar 23 mil milhões da empresa, aquando do seu lançamento na Bolsa de Nova Iorque. Algo nunca visto. Facebook gerou 16 mil milhões de dólares no seu lançamento.

OPV da Facebook

“Quem necessita de supermercados?”, diz a companhia em um dos seus últimos comunicados.

Taobao, o seu portal de venda a grosso, promete que, a partir de 22 de setembro, os chineses poderão ter em sua casa o arroz das primeiras colheitas sem sair de casa, mais barato, mais rápido, mais fresco. Em simultâneo, oferece aos chineses urbanos a possibilidade de arrendar os seus campos a camponeses do norte do país. Tmall, o seu portal de venda a retalho, oferece desde produtos frescos como morangos dos EUA, ostras da Nova Zelândia, mirtilos-vermelhos do Chile, ou marisco do Alasca, a produtos da Adidas, Mango, Lenovo, Uniqlo ou Procter & Gamble… Como não podia deixar de ser no caso da China, também podem ser encontradas as suas respetivas falsificações. É sem dúvida uma oportunidade dourada para os produtores portugueses colocarem os seus produtos. Podemos encontrar já milhares de fornecedores espanhóis. Segundo o delegado comercial da Espanha em Beijing, “Alibaba aproxima o fornecedor do luxo, célere, da classe média chinesa”. O público alvo, 600 milhões de chineses com acesso à Internet, apenas na China.

Mercado de consumidores online chineses

Do outro lado da moeda, o das compras, muitas são também as oportunidades. José Maria Fronteira, com experiência em departamentos de compras em várias empresas de grande dimensão multinacionais, como o Grupo Portucel Soporcel, Innovation Capital e mais recentemente Amorim Turismo, decidiu dar o salto e passar a operar de forma independente no sector das compras na China. Conta já com clientes em Angola, Alemanha, Itália, França, Espanha, Reino Unido e Portugal e confessa que “cerca de 80% dos meus fornecedores são chineses. Ao longos destes últimos anos têm vindo a ganhar peso. Há cerca de 10 anos atrás, o peso dos fornecedores chineses não passava os 15%. Nos últimos anos, esse valor quadruplicou e penso que continuará a subir. Cada vez é mais fácil fazer negócios com a China. Estão muito mais recetivos do que estavam a 10 ou mesmo 5 anos atrás”. Sobre a Alibaba refere que “a porta de entrada foi e continua a ser o site Alibaba. Penso que esta é a principal porta de entrada para quem quer fazer negócios com a China. Obviamente que a visita que fiz a Pequim, Shanghai e Shenzhen também contribuíram para fortalecer os laços e criar novas parcerias”.

José Maria Fronteira

A experiência de trabalhar com os chineses apresenta na opinião de Fronteira um balanço muito positivo, embora encontre duas grandes diferenças face à Europa: “A primeira é a agressividade comercial, não conheço ninguém como os chineses em termos de agressividade, se pedimos um orçamento em menos de 30 minutos temos. Em Portugal e na Europa não existe esta agressividade comercial. Sempre que peço um orçamento a uma empresa portuguesa tenho que ligar duas a três vezes até fazerem o favor de o enviarem. A segunda diferença é a proatividade. Se precisamos de um produto que o fornecedor, por acaso, não tem, em menos de 24 horas encontra o produto ou arranja uma solução. Se preciso de um protótipo ou amostras, tenho-o no meu escritório em 2 ou 3 dias. Estas situações não existem nem em Portugal nem na Europa.

Apesar de o conceito de império se ajustar como uma luva a Alibaba. A companhia tem apenas 15 anos de vida. O seu criador, Jack Ma (nome original chinês Ma Yun), que assegura que nunca deixará de ser sócio da empresa, centraliza os olhares da mitologia empresarial e dos admiradores dos selfmade men. Este visionário professor de inglês, criou a empresa com apenas oito mil dólares. “Se eu tive sucesso, todos podem tê-lo”. Uma citação típica do grande sonho americano, neste caso, o grande sonho chinês. “Eu não tenho um tio rico e não precisei dele. Guanxi (contactos) não são importantes no mundo da tecnologia, do trabalho árduo e do empenho em alcançar os teus objetivos”.

Jack Ma

Masayoshi Son, máximo acionista de Softbank, o banco japonês, possui 34,4% das ações de Alibaba, e declarou esta semana que nem pensa em vender “num uma ação” do seu tesouro chinês, que passa a valer cerca de 50 mil milhões de dólares. Yahoo, que possui 22,6% da Alibaba, aumentará o valor da sua posição em 8 mil milhões de dólares. Espantoso se tivermos em conta que comprou 40% do capital da empresa por mil milhões de dólares e há dois anos embolsou 4,3 mil milhões de dólares com a venda de 17,3% do capital.

A parte mais interessante da história quiçá é a dos sócios iniciais de Jack Ma, que também viraram multimilionários nos quinze anos de vida da companhia e que tornam a história própria de um conto de fadas e o sonho chinês. Para além de Joseph Tsi, vice-presidente e titular de 3,9% das ações da companhia, que receberá 250 milhões de dólares nesta OPV, mas conservará 3,2%, valorados em 5,2 mil milhões, outros 25 diretivos da Alibaba possuem 1,7% da companhia. Entre eles, uma CEO que antes de Alibaba tinha trabalhava num Hotel Holyday Inn no sul da China, uma responsável de Alipay, sistema de pagamento semelhante ao PayPal patenteado por Alibaba, que era professora na universidade de Zheijang, um ex-polícia responsável pela divisão de criminologia na cidade de Hangzhou, dois jornalistas, um antigo aluno de Jack Ma, um antigo dirigente da Coca-Cola, uma professora de línguas e a primeira rececionista da Alibaba.

Jack Ma na Forbes

Um verdadeiro sonho chinês.

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