O português sobrevivirá no Sudeste asiático? Não sem o Brasil

Partilhou hoje connosco o Jorge Nascimento Rodrigues um artigo de opinião muito interessante sobre os desafios que a lingua portuguesa enfrenta em Timor-Leste, publicado ontem por Olivier Stuenkel. A reflexão do professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo serve como exemplo de como o Brasil (não) olha para a lingua portuguesa em Timor.

Trascrevemos aqui excertos do artigo, que pode ser consultado aqui na sua totalidade.

Timor Leste é um país de língua portuguesa? (…) Os policy makers timorenses viram o idioma português como mais do que apenas uma ferramenta para fortalecer laços com Brasil, Portugal, Angola e Moçambique. Sua adoção também serviu como um símbolo poderoso de que o Timor era diferente da Indonésia, que era uma colônia holandesa.

No momento da independência timorense, o português, que foi proibido durante a ocupação indonésia, era falado por apenas 5% da população. O censo de 2010 revelou que as línguas maternas mais faladas eram tétum prasa (língua materna para 36,6% da população), mambai (12,5%), makasai (9,7%), tétum terik (6,0%), baikenu (5,9%), kemak (5,9%), bunak (5,3%), tokodede (3,7%), e fataluku (3,6%). Outra pesquisa revelou que 90% da população utiliza o tétum diariamente, além de outras linguagens. 35% da população fala indonésio (principalmente nas cidades), e uma parte crescente fala inglês, um requisito para obter os empregos mais bem remunerados, oferecidos pela considerável indústria de desenvolvimento no país.

Línguas faladas em Timor-Leste

Os esforços para popularizar o português têm sido lentos. De acordo com um relatório do Banco Mundial, até 2009, mais de 70% dos alunos submetidos a um teste no final do primeiro grau “não puderam ler uma única palavra” de um texto simples em português, “um péssimo desempenho após 10 anos de esforços.” Ao mesmo tempo, deve-se levar em conta que, até recentemente, uma parte da população era analfabeta, embora a maioria das crianças vá para a escola atualmente.

As leis e as estruturas administrativas são baseadas no modelo português e permanecem na língua portuguesa, mas a maioria dos debates parlamentares e conversas no gabinete são realizadas em tétum, que pertence à família austronésia de línguas faladas em todo o sudeste asiático.

(…) Alguns (policy makers) dizem que eles esperavam uma presença brasileira mais forte no país. Há mais professores de língua portuguesa de Portugal no país do que do Brasil, e a ajuda financeira brasileira é muito menor do que de países que não têm laços culturais com o Timor Leste. Mesmo assim, a influência cultural brasileira é visível no país. “A pessoa que mais contribuiu para a expansão da língua portuguesa no Timor Leste foi, sem dúvidas, Michel Teló”, comenta um integrante do governo timorense.

E ainda assim, quando um comentarista de Singapura recomendou recentemente que o Timor Leste adotasse o inglês como língua oficial para abraçar a globalização, Ramos-Horta defendeu sua escolha de manter o português: “Talvez nós não sejamos tão práticos como nossos irmãos de Singapura. Confesso que nós somos um pouco românticos, temos uma perspectiva histórica porque temos uma longa história e não nos temos uma mentalidade de Singapura de estilo comercial. Isso significa que estamos condenados a desacelerar o crescimento, por ter uma sociedade multilíngue e uma sociedade rica, vibrante e colorida, que nos faz apreciar as belezas da vida com mais frequência? Tenho certeza que a resposta é não.” O português pode nunca ultrapassar o tétum como língua franca de Timor-Leste, mas parece estar determinado a permanecer como uma das línguas oficiais do país.

O português está para ficar

Mesmo assim, muito caminho resta pela frente para fazer com que o português em Timor seja mais do que um assento à mesa da CPLP e um ou dois tradutores em cada Ministério para traduzir as leis, que têm de chegar ao Parlamento em português por obrigação legal. Um papel muito mais ativo do Brasil na promoção da lingua portuguesa em Timor é sem dúvida indispensável à concretização do objetivo político de tornar o português mais do que uma lingua oficial daquele país.

Esta entrada foi publicada em Angola, Brasil, Indonésia, Moçambique, Países Baixos, Portugal, Singapura, Timor-Leste. ligação permanente.

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