China: Shadow Banking 2.0

Do sistema financeiro totalmente sob controle ao shadow banking e, na atualidade, ao que eu denomino shadow banking 2.0.

Podem consultar infra o texto preparado a pedido do Jorge Nascimento Rodrigues para comentar a entrevista exclusiva que o jornalista do Expresso realizou a Michael Pettis, professor de Finanças da Universidade de Pequim e um dos bloguistas mais influentes sobre a situação na China.

A entrevista foi publicada na edição digital de hoje do Expresso, que pode ser consultada aqui (necessita de código de acesso).

Quer eu, quer Michael Pettis, desdramatizamos a problemática.

O Expresso, hoje

“O sistema financeiro chinês tem passado e está ainda a passar por mudanças radicais. Até 2008, a grande maioria dos empréstimos ocorriam no sistema bancário tradicional. Acontece que os quatro maiores bancos da China estão controlados pelo Governo, que como todos nós sabemos é fortemente interventivo na economia. Desta forma, a política de concessão de empréstimos aos particulares, quanto, a quem e quando, ficava nas mãos dos líderes chineses.

Este controlo estatal foi desafiado pela crise financeira e global de 2008-2009 em dois momentos.

Numa primeira fase, a injeção de massa monetária pela banca central mundial, ao qual não foi alheio o Banco Popular chinês. Lar de um terço das reservas cambiais mundiais, o crescimento exponencial do sistema financeiro e creditício chinês gerou receios de um crescimento desequilibrado e insustentável da economia chinesa, com várias bolhas especulativas, em particular no mercado imobiliário.

Distrito financeiro de Beijing

Numa segunda fase, em 2010, o Governo chinês começou a implementar políticas de controlo creditício, em resposta aos desafios acima referidos. Estes controlos creditícios foram facilmente implementados no sistema financeiro formal, amplamente controlado pelo Estado, e ocorreram sobretudo ao nível da quantidade dos empréstimos concedidos e não, como seria próprio de uma economia de mercado, através do preço desses empréstimos. Mas a alavancagem financeira e o recurso ao crédito era algo ao que os chineses se habituaram rapidamente. E a sede de crédito estava para ficar, pelo que surgiram rapidamente mercados creditícios paralelos, fora do controlo governamental. Empresas com ampla liquidez, normalmente industriais, começam a redirecionar esses fundos para a concessão de empréstimos.

O mercado credítico paralelo cresceu rapidamente e alcançou um peso significativo na economia chinesa. Até ao ponto de que o refinanciamento dos empréstimos que tinham sido concedidos no mercado tradicional começou a ficar altamente dependente da concessão de novos empréstimos no mercado paralelo. Desta forma, um novo mercado privado que tinha nascido em resposta aos controlos credíticios governamentais, e que o próprio Governo chinês teria interesse em afogar, passou a alicerçar o próprio mercado tradicional de crédito. O Governo chinês ficou assim limitado na sua ação. Se afogasse o mercado paralelo, estaria a afogar também o mercado tradicional muito além do inicialmente pretendido para balançar a economia.

E as dúvidas sobre o desequilíbrio do crescimento da economia chinesa e sobre a incapacidade do governo chinês para a re-equilibrar aumentaram. É nesse contexto que o Governo chinês avança a partir de 2012 com a regulamentação do setor credítico paralelo, o denominado shadow banking.

shadow-banking

A maior parte das empresas que concedem empréstimos no mercado de shadow banking são, apesar da má reputação do mercado em si, empresas respetáveis com indicadores financeiros sólidos e sãos. A regulamentação introduzida em 2012 fez com que as taxas de crescimento desse mercado estabilizassem. De representar cerca de 50% da concessão de crédito em 2011 passam a cerca de 30% em 2013. Algo tido como saudável.

Sombra do porquinho mealheiro

Acontece no entanto que uma minoria dos agentes de shadow banking atua à volta das regras do jogo, com cláusulas abussivas e de forma dificilmente insustentável, e esta tem vindo a crescer de forma perigosa. De forma muito simples, pode-se afirmar que o Governo chinês tem conseguido controlar (leia-se, limitar) a política credítica da economia também nesta segunda fase. Em resposta, mais uma vez, os agentes ávidos por crédito, têm recorrido a estes agentes que evitam esta primeira vaga de regulamentação, o que eu denominaria shadow banking 2.0. Um jogo de gato e do rato clássico.

Estes agentes são conhecidos localmente por trusts, e captam poupança ao oferecem, por via de subterfúgios legais, e por vezes menos legais, remunerações de dois dígitos a aforradores frustrados com a limitação governamental à remuneração dos depósitos bancários. Essa remuneração é passada aos agentes sedentos por crédito (mais uma vez, importa referir que a limitação do crédito na China é um problema de quantidade, e não de preço, numa economia que continua a crescer a mais de 7,5% ao ano).

Mercados financeiros chineses

O que podemos esperar?

Com certeza, nova regulamentação por parte do Governo, mas apenas quando este shadow banking 2.0 passar a ter um peso significativo na economia. A meu ver, até lá, o próprio Governo chinês terá interesse em aceitar a existência deste novo mercado e deixá-lo crescer, sempre com forte monitorização, como forma de diminuir a pressão das bolhas especulativas existentes no mercado imobiliário, evitar defaults e promover o soft-landing e o re-equilíbrio sem sobressaltos da sua economia.”

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Uma resposta a China: Shadow Banking 2.0

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