O maior acordo de integração regional de facto da Ásia foi assinado há dois meses e ninguém deu por isso

A sexta cimeira dos BRICS ocorreu esta semana em Fortaleza, mas o acordo bilateral mais importante entre dois dos seus membros ocorreu dois meses antes.

Estamos a falar do acordo alcançado em finais de maio entre a Rússia e a China pelo qual a Gazprom irá construir vários gasodutos para fornecer pela primeira vez o gigante asiático, que até à data apenas consome gás natural liquefeito (GNL) transportado por via marítima. O montante do acordo alcança os 400 mil milhões de dólares, cerca de duas vezes o PIB de Portugal, tem início em 2018 e uma duração de 30 anos.

Pipelines de gás entre a Rúsia e a China

Com estes gasodutos, o gás russo torna-se extremadamente competitivo não apenas na China, mas para toda a Ásia no seu conjunto, por oposição ao GNL, cujo preço tem vindo a aumentar devido ao aumento mundial do custo do transporte marítimo.

Não é por acaso que o Japão pôs de lado o seu diferendo territorial com a China e a Rússia com o intuito de obter uma extensão do referido gasoduto até ao seu território. Desde o acidente nuclear de Fukushima e o congelamento dos reatores nucleares nipónicos que a balança comercial daquele país tem passado a negativa. Gás mais barato será obviamente bem-vindo. Veja-se infra o diferencial entre o preço do gás no Mercado japonês e dos EUA.

Diferença de preços entre os mercados de gás do Japão e os EUA.

De uma forma geral, o novo gasoduto russo-chinês permite uma maior concorrência no mercado asiático, logo uma tendência de descida dos preços praticados por outros fornecedores como o Canadá e o Catar. Importa referir que os preços praticados pelos países exportadores de gás a economias desenvolvidas são muito inferiores aos cobrados a economias de desenvolvimento. Por exemplo, o Catar vende GNL aos EUA a três dólares, mas fá-lo à Índia a doze dólares.

Mais barato

 

Não é por acaso que o Canadá tem acelerado a construção de dez novos terminais de GNL, perspetivando-se a conclusão das negociações de uma zona de comércio livre com o Japão, iniciadas em março de 2012, à semelhança do acordo recentemente assinado com a Coreia do Sul. Em qualquer dos casos, parece que a companhia melhor situada para fornecer o Japão, antes do que o Canadá, a malaia Petronás, apenas o conseguirá fazer em 2019, um ano depois da conclusão do gasoduto russo.

Assim pois, juntando potencialmente os big players da Rússia, China, Japão e Coreia do Sul, vários analistas consideram este acordo o primeiro acordo de integração regional de facto da Ásia. Já referiamos há vários meses no Semanário Expresso que a União Asiática deveria começar pela integração dos mercados asiáticos de energia, como foi o caso da União Europeia com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) em 1951.

European Union flags outside the European Commission headquarters in Brussels

A este grupo de big players não demorará muito a juntar-se a Índia. Este segundo gigante asiático é o terceiro maior importador de petróleo do mundo, apenas superado pelos EUA e a China, e as suas necessidades energéticas são enormes. Apesar do programa político de Modi apostar na independência e auto-suficiência energética da Índia, baseada em investimento maciços em energia solar, esta visão não parece mais do que uma declaração de intenções, e o gás russo interessa, e muito. Não é por acaso que a Rússia está atualmente a negociar um acordo paralelo para fornecer diretamente gás à Índia. A esta movimentação não é alheio a inspiração nacionalista, anti-ocidental e pró-Asiática do Governo de Modi. A visão da política externa de Modi aponta a colocar a Índia como uma potência regional em igualdade de condições com a China, a Rússia e os EUA. A detenção de um diplomata indiano em Washington pelas autoridades americanas foi de facto um momento de viragem na emancipação indiana da tutela dos EUA e do Reino Unido.

Esta entrada foi publicada em Índia, Canadá, Catar, China, Coreia do Sul, Energia, EUA, Japão, Malásia, Rússia, Reino Unido, União Europeia. ligação permanente.

2 respostas a O maior acordo de integração regional de facto da Ásia foi assinado há dois meses e ninguém deu por isso

  1. Rui diz:

    Porque é q o Catar vende GNL aos EUA a 3 dólares e à Índia a 12 dólares?
    No caso do petróleo os preços estão cotados e são iguais para todos, não é?

    • Enrique Galán diz:

      Caro Rui, muito obrigado pelo comentário. O mercado mundial do petróleo está fortemente cartelizado (OPEP como centro nevrálgico), algo que não ocorre no caso do gás. Neste ultimo, o preço é determinado pelo encontro da oferta e da procura em cada país. Por essa razão, o preço ao que o Catar vende na Índia é amplamente superior hoje em dia ao praticado nos EUA. No mercado indiano, com um défice energético enorme, o gás do Catar não sofre muita concorrência de outros fornecedores de gás (dada a proximidade) nem de outras fonts energéticas, enquanto nos EUA, um mercado muito mais competitivo, os concorrentes são quase infinitos (veja-se por exemplo o caso do shale gas). Por último, é de referir que o preço do gás, como produto substituto do petróleo em determinadas aplicações, acompanha o preço do petróleo de perto (aquando do aumento do preço do petróleo em 2008-2009, o preço do gás nos EUA era de 16 dólares. Abraço

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