Uma embaixada com posto consular e delegado comercial em Manila já

O programa de trabalhos do Ministério dos Negócios Estrangeiros previa para 2014, em resultado do encerramento de sete embaixadas em anos anteriores e tendo como prioridade a captação de novos investimentos, a abertura de quatro embaixadas, sujeita à sempre omnipresente disponibilidade orçamental.

Destas quatro embaixadas, três seriam na Ásia, como referimos em julho do ano passado: Baku, Astana e Manila (mais uma no Panamá).

Parece que a disponibilidade orçamental permitiu abrir Panamá e Astana, muito embora na forma da denominada antena diplomática (colocação de um diplomata numa embaixada “amiga” presente no país).

Mais uma vez, a Ásia foi sacrificada.

Oh, não!

A não escolha de Manila parece incompreensível, por várias razões.

Economicamente, estamos a falar de um país de 100 milhões de habitantes, o segundo com maior crescimento do PIB em 2013 na Ásia oriental (7,2%), apenas superado pela China. A indústria local de Business Process Outsourcing (back office e call centers das maiores multinacionais mundiais) é já a maior do mundo. O número de Ferraris nas ruas de Manila ultrapassa em quatro vezes os observados em Nova Deli.

Skyline de Manila

Mais importante ainda, os filipinos, fortemente católicos, têm uma forte afinidade com Portugal. Cerca de 2.650 residem em Portugal, mas mais de 5.000 visitam cada ano Portugal. Uma elevadíssima percentagem dirige-se quase em exclusividade a Fátima (sem passar por mais tempo do que estritamente necessário na necessária escala logística em Lisboa). Pior ainda, não havendo um consulado em Manila, visitam Portugal no seio de um pacote turístico pela Europa, nunca tendo Portugal como porta de entrada do espaço Schengen, pelo que as receitas consulares não viajam para Portugal.

Errado

Este facto é particularmente importante se tivermos em conta o exemplo do Consulado de Portugal em Xangai. Antes da chegada do então cônsul Joaquim Moreira de Lemos (agora Embaixador de Portugal em Jakarta), o número de vistos passados pelo consulado era de … zero (!). Alguma pro-atividade junto de agências de viagens locais, oferecendo-lhes respostas a pedidos de visto em 24 horas (muito aquém dos prazos dos nossos principais concorrentes europeus), fez com que, pouco tempo depois, o consulado estivesse a passar cerca de 5.000 vistos por ano. A cem euros cada, representam receitas próprias próximas dos 500 mil de euros/ano. Este valor seria a meu ver facilmente angariável pelo consulado de Portugal em Manila, tornando a Embaixada próxima de auto-sustentável do posto de vista financeiro.

Politicamente, importa referir que as Filipinas abriram embaixada em Lisboa em 2011, quatro anos depois de Portugal ter encerrado a sua embaixada em Manila, e com o compromisso do Palácio das Necessidades de reabrir a missão na terra alcançada por Magalhães o mais rapidamente possível. A questão poderá parecer menor, mas é muito importante para Malacañang (o palácio do Presidente Filipino). Em reforço desta ideia, vejamos a entrevista recentemente concedida à comunicação social filipina pelo embaixador das Filipinas em Lisboa, Philippe Lhuillier.

Institucionalmente, não estão apenas em causa as relações bilaterais com as Filipinas, mas também a nossa presença no Banco Asiático de Desenvolvimento, instituição à qual aderimos em 2002 e da qual ainda não retiramos todo o seu potencial. Do ponto de vista de desenvolvimento, a Ásia poderá ser a região mais dinâmica do mundo, mas também acolhe o maior número de pobres e qualquer estratégia de luta contra a pobreza no mundo deverá focar-se nesta região (com especial relevo para a Índia, Paquistão e Bangladesh). Do ponto de vista económico, o Banco é o maio Banco Regional de Desenvolvimento em termos de oportunidades de negócio para as empresas e consultores portugueses, com 22 mil milhões de dólares aprovados em 2013. Algumas empresas nacionais têm marcado presença ligeira, com projetos em Timor-Leste e no Azerbaijão, mas muito aquém do potencial.

Mais ainda, a comunidade portuguesa em Manila tem crescido exponencialmente e tem passado de menos de uma dúzia há pouco mais de dois anos a mais de cinquenta hoje em dia. Pilotos, gestores de consultoras mundiais, professores de português, e economistas do Banco Asiático de Desenvolvimento, entre outros, rumaram a Manila nos últimos dois anos. O número poderá não ser muito grande, mas ultrapassa o observado em outras cidades e países onde Portugal, ai sim, tem embaixada (e respetivo consulado).

Como nota de um pouco de humor: até já abriu em 2014 o primeiro restaurante português nas Filipinas.

Gostoso, o primeiro restaurante português em Manila

Por todas estas razões, o apelo não poderia ser outro. Embaixada (com posto consular e delegado comercial) em Manila já.

Ou, pelo menos, uma antena diplomática com muito forte componente económica. Esta solução intermédia, num contexto como o atual de fortes constrangimentos orçamentais, deve ser amplamente considerada, não apenas em relação às Filipinas, como também em relação a outros países (entendidos como mercados) com os quais estamos a cortar laços (também económicos). À decisão do Equador de encerrar a embaixada em Lisboa, fartos de esperar por mais três anos a que Lisboa inaugurasse pelo menos uma antena em Quito, poder-se-á seguir Manila (também há três anos à espera) e várias outras.

Mapa das Filipinas

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12 respostas a Uma embaixada com posto consular e delegado comercial em Manila já

  1. Não tenho embaixada, mas…antena diplomática, com este sol, é todos os dias.
    Forte componente económica…tenho programação em dossier*. Para onde envio?
    bartolomeulanca@gmail.com

    * tb há em caixas de 6, por encomenda

  2. ntp diz:

    Excelente análise. Sabe que outras embaixadas em Lisboa poderão encerrar?

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado pelo comentário e pelo interesse no blogue. O encerramento de embaixadas em Lisboa ocorre dentro dos trabalhos de planeamento e organização da rede de embaixadas de cada país, mas um dos princípios basilares dessa organização tem a ver com a reciprocidade, pelo que será de esperar o encerramento de embaixadas de países onde Portugal não respeite esse princípio. Cumprimentos, Enrique

      • ntp diz:

        O blogue é muito bom. Parabéns.
        Eu conheço a “regra” da reciprocidade. Posso ir ver uma a uma quais as embaixadas que poderão deixar Portugal, mas pensei que tivesse conhecimento directo de alguns casos – como dava a entender no texto.
        Cumprimentos e bom trabalho

  3. João Merêncio diz:

    Excelente post. A criação de uma “Associação Lusófona” não seria uma má ideia.
    Já agora qual o nome e a localização do restaurate?

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado, João, pelo comentário e encorajamento. O restaurante chama-se “Gostoso”, e está situado na zona do Kapitolyo: 51-B East Capitol Drive, Kapitolyo, Pasig City. Cumprimentos.

  4. Miguel Angelo Ventura Pinho diz:

    Uma embaixada com posto consular e delegado comercial em Manila já

  5. Miguel Bailote diz:

    Excelente análise e excelente blog. Sempre defendi o potencial asiático e as Filipinas, em particular, para uma forte aposta de Portugal. Infelizmente o projecto de reabertura da nossa Embaixada em Manila ficou na gaveta. Da minha parte, vou tentando marcar presença nesse mercado. Estarei presente numa feira alimentar em Manila que se realiza de 4 a 7 de Setembro. Se tiver oportunidade visite-nos. Será um enorme gosto!

    • Enrique Galán diz:

      Caro Miguel, Muito obrigado pelo seu comentário. Infelizmente, não vi o seu comentário a tempo. O site esteve em ligeira manutenção. Espero que a feira tenha sido muito produtiva. Para a próxima, poderemos sugerir uns encontros muito úteis com a comunidade empresarial local relevante e com a comunidade portuguesa. Um dos elementos dessas comunidade importa produtos alimentares e vinho às Filipinas e conta com alguns restaurantes portugueses em Manila. Cumprimentos

  6. Óscar Miguel Coelho Peixoto diz:

    Boa tarde, excelente artigo. Eu sou português e vivo/trabalho em Manila, e existe uma grande afinidade entre os dois países. É um erro crasso não haver embaixada cá. Um forte abraço.

  7. David Alves diz:

    Vou trabalhar no ADB durante os próximos 6 meses, pelo menos. Ainda não sei como vou fazer relativamente a alojamento. Conhecem algum apartamento para alugar? Algum conselho que possam dar?

    Muito obrigado!

  8. Carlos Vilhena diz:

    Pois é verdade ! Estamos sujeitos à vontade de uma senhora embaixadora grega que define os critérios da concessão de vistos para Portugal ! Mandei o termo de responsabilidade total, o extracto bancário, a certidão predial e outros mais do que os legalmente necessários e o visto não foi concedido ! Os documentos nem sequer foram aceites … primeiro, argumentou que a cidadã não tinha saldo suficiente no banco (!!! ), depois, que não tinha havido um prévio contacto pessoal !!!

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