A história mais fantástica jamais contada sobre pensos higiénicos

É possível perder tudo o que temos por causa de pensos higiénicos?

Aparentemente, é.

Pelo menos é o que aconteceu a Aruchanalam Muruganantham. Por causa de pensos higiénicos, perdeu a sua esposa, a sua familía e o seu lugar no grupo social ao que pertencia.

Só após ter perdido tudo és livre para fazer tudo

Tudo começou quando em 1998, pouco tempo após ter casado com a sua esposa, Shanthi, o nosso protagonista reparou que esta estava a ocultar algo. Ficou muito espantado quando descobriu que a sua esposa usava  “panos nojentos” quando estava menstruada, panos com os quais “ele não poderia nem limpar a sua mota”. Curioso com a descoberta, foi à cidade comprar um penso higiénico, e a sua curiosidade cresceu ainda mais quando teve de pagar cinco céntimos por algo que parecia ser apenas dez gramas de algodão, que custam no mercado cerca de 40 vezes menos. Um lucro impressionante.

A primeira coisa que fez foi uma prospeção do mercado. Apesar da reticência em responder a tal pergunta, Aruchanalam conseguiu apurar junto das mulheres de aldeia uma estimativa de que apenas uma em cada dez mulheres usavam pensos higiénicos. E não ficou longe da realidade, um estudo encomendado pelo Governo indiano em 2011 concluiu que na Índia, onde habitam 40% dos pobres do mundo, apenas uma de cada dez mulheres usam pensos higiénicos, devido ao custo elevado e ao impacto nosseus orçamentos familiares. As restantes mulheres usam  não apenas panos, mas também  areia, folhas, e até cinzas.

Homem menstruação

O caso é muito mais sério do que poderia parecer numa primeira observação. Os pensos higiénicos desempenham um papel muito importante na saúde das mulheres, na mortalidade no parto e na educação da Índia. Se não, vejamos. Naquele país, 70% das doenças reprodutivas têm origem em falta de higiene menstrual, com um forte impacto na mortalidade infantil. Mais ainda, 23% das raparigas deixam de frequentar o seu estabelecimento de ensino após o dia em que têm a primeira menstruação. E não só. Nas zonas rurais da Índia, acredita-se, por exemplo, que as mulheres menstruadas não podem visitar templos ou áreas públicas, não podem cozinhar ou tocar a água dos poços comuns. Em consequência, nos dias em que a mulher, tradicionalmente encarregue de percorrer quilómetros para obter água,  simplesmente não há água.

Poucos dias depois, pensando em fazer negócio, Aruchanalam pediu à sua esposa que experimentasse um penso higiénico de algodão que ele tinha criado e ficou ainda mais espantado quando descobriu que teria de esperar cerca de um mês para testar o produto. Ia ser dificil testar um novo produto com testes tão espaçados. As suas irmãs negaram essa colaboração. As suas vizinhas também. Após muitas tentativas, e de começar a ser visto como um bicho estranho pela comunidade, decidiu que teria de criar uma espécie de laboratório de testes. Caminhou, andou de bicicleta e correu com uma bexiga artificial feita com o interior de uma bola de futebol, acrescida de uns buracos, e preenchida com sangue de cabra que ia adquirindo de um talhante amigo. Claro que as roupas ficavam manchadas, pelo que, quando lavou essas roupas no poço comunitário, os boatos começaram a crescer na aldeia de que teria uma doença sexualmente transmissível, era um pervertido ou tinha vários casos amorosos. Shanthi não aguentou a pressão e abandonou o lar familiar.

Ela abandonou-me

Mais tarde, conseguiu a colaboração de umas estudantes de medicina, e prosseguiu com os seus testes, estendendo as amostras recolhidas no pátio da sua casa. Essa foi a última gota de água que transbordou o copo e a mãe também abandonou o lar. Algo que foi muito duro para Aruchanalam, pois “até teve de começar a cozinhar”. Os boatos escalaram para magia negra, pelo que foi obrigado a abandonar a aldeia.

Mas não desistiu. Decidiu que o melhor seria perguntar aos fabricantes qual o material dos pensos higiénicos. Escreveu dezenas de cartas com ajuda de um professor de inglês, gastou cerca de 100 euros em chamadas telefónicas. A primeira vez que alguém aceitou conversar com ele, perguntaram-lhe qual a capacidade de produção da sua planta fabril, um conceito que nem sequer conhecia. Mais tarde, fez-se passar por um dono de uma pequena fábrica têxtil que pretendia entrar nesse mercado e conseguiu que lhe enviassem algumas amostras. Demorou dois anos e três meses em perceber que os pensos higiénicos estão feitos de celulose, que pode ser obtida a partir de determinadas árvores. Mas as máquinas necessárias para transformar o material eram muito caras. Teria de criar as suas próprias máquinas.

Aruchanalam Muruganantham e a sua maquina

Quatro anos e meio depois, conseguiu desenvolver um novo método de baixo custo para produzir pensos higiénicos. A inovação mereceu o primeiro prémio de um concurso convocado pelo Presidente Indiano, à frente de outras 943 propostas. Ai chegou a fama. Foi até objeto de um documentário a não perder.

Dedicou-se de seguida a divulgar a sua tecnologia pelos Estados mais pobres da Índia, o denominado BIMARU (Bihar, Madhya Pradesh, Rajasttan and Uttar Pradesh). Divulgava não apenas as máquinas, mas o conhecimento necessário para criar e gerir o respetivo negócio, empregando na sua quase totalidade mulheres. Para falar com as mulheres locais, Aruchanalam precisou muitas vezes de autorização de maridos e pais, e tinha que falar com a sua  interlocutora através de um lençol branco.

As mulheres e a maquina

Publicamente, o nosso protagonista, agora um empresário de sucesso reconciliado com a sua esposa e mãe, marcou-se em determinado momento o objetivo de criar 10 milhões de empregos na Índia (cada máquina, gera dez postos de trabalho). Hoje, as suas máquinas e a sua filosofia de criar o respetivo negócio foi exportada a 106 países, com muito sucesso.

Pouco tempo antes tinha chegado a uma aldeia remota dos Himalaias indianos, onde nunca nenhuma família tinha conseguido ter um rendimento fixo suficiente para permitir enviar os filhos à escola. Um ano depois dessa visita, recebeu uma carta de uma mulher dessa aldeia onde referia que, graças à sua máquina, a sua filha tinha sido a primeira da aldeia a ir à escola e que “uma máquina tinha conseguido finalmente ter sucesso onde Nehru tinha fracassado”.

Jawaharlal Nehru com JFK

A história completa sobre este herói moderno dos nossos tempos pode ser encontrada no site da BBC, da autoria de Vibeke Venema.

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