O milagre económico filipino, estreito e superficial

O Fórum Económico Mundial (World Economic Forum em terminologia inglesa – WEF) reúne anualmente em Davos, como todos sabemos.

Forum economico mundial em Davos

Mas talvez sejam menos conhecidas as reuniões de âmbito regional que  ocorrem no seguimento da reunião na Suíça.

A do leste asiático vai ter lugar de 21 a 23 de maio, e por primeira vez nas Filipinas, em Manila.

E a história de sucesso a ser mostrada é a do crescimento das Filipinas.

Skyline de Manila

Muitas vezes referidas como um caso de insucesso no desenvolvimento asiático e com a alcunha de “sick man”, as Filipinas são agora a economia com maiores taxas de crescimento da região (7,2% em 2013), apenas superada pela China e, em 2013 pela primeira vez, o país recebeu o investment grade das maiores agências de rating internacionais.

A atração de investidores internacionais não se tem ficado por ai. O país tem escalado rapidamente nas classificações de competitividade global (de 85º lugar em 2010 a 65º lugar em 2012 na classificação do próprio WEF). “O timing de este evento ocorrer nas Filipinas é perfeito, dado o desempenho económico tão impressionante do país (…) É a hora das Filipinas.”, refere SuhantPalakurthi Rao, director sénior do WEF e responsável pela Ásia. O próprio Rao refere as Filipinas como um exemplo a seguir na região no que toca à luta contra a corrupção e de boa governação.

Crescimento económico das Filipinas

Mas nem tudo é cor-de-rosa.

Um economista do Banco Asiático de Desenvolvimento, Jesús Felipe, relembra que nenhum país na história conseguiu alcançar um rendimento per capita de país desenvolvido sem um setor secundário que tenha representado pelo menos 18% do emprego na economia. As Filipinas, com 15%, ainda estão longe desse patamar.

O crescimento, apesar de robusto, não consegue gerar emprego de forma significativa e os níveis de pobreza estão a aumentar.  12 milhões de filipinos estão desempregados, segundo um inquérito da Social Weather Stations encomendado pelo jornal económico local BusinessWorld. Segundo os mesmos inquéritos, a taxa real de desemprego aumentou de 21,7% no terceiro trimestre até 27,5% no quarto trimestre do ano (os dados oficiais da Organização Mundial do Trabalho apuntam para uma taxa oficial de 7,3%, mesmo assim a maior de todo o Sudeste asiático: seguida pelos 6% da Indonésia, 4,6% da China, 3,7% da Índia e 3,5% do Mianmar). Mais importante ainda, o mesmo inquérito, conduzido de 11 a 16 de dezembro, mostrava como 18,1% dos entrevistados, equivalente a cerca de 4 milhões de famílias, tinham passado fome pelo menos uma vez nos três meses anteriores, ou que 55% dos entrevistados se auto-identificaram como pobres, cinco pontos percentuais acima quando comparado com o trimestre anterior. Outro inquérito, conduzido pela Pulse Asia concluia que 55% dos filipinos consideram que a sua qualidade de vida piorou nos últimos doze meses.

Pobreza nas Filipinas

Benjamin Diokno, antigo ministro do orçamento e professor de economia na Universidade das Filipinas conclui num dos seus estudos que 90% dos 100 milhões de Filipinos não estão a beneficiar do milagre económico filipino, que parece ser bastante estreito e superficial.

De facto, os níveis de pobreza no país têm vindo a aumentar progressivamente. Apesar de se encontrarem num patamar à partida já relativamente elevado de pobreza. E contrariamente ao que seria de esperar após a constituição em 2009 de um amplo programa de transferências condicionais de rendimento (análogo ao programa Bolsa Família no Brasil) e que viu o seu orçamento aumentar de mil milhões para 1,4 mil milhões de dólares entre 2013 e 2014, beneficiando cerca de 4,5 milhões de famílias e 4,2 milhões de crianças em idade escolar.

Milagre económico sim, mas apenas para alguns.

Pobreza nas Filipinas

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