Violência por todos os lados, “Um Toque de Pecado” de Jia Zhangke

Por Catarina Leite, Docente de Mandarim e Cinema Chinês no Instituto Oriental da Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Estudos Chineses pela School of Oriental and African Studies (SOAS, Londres). Viveu vários anos na China e Taiwan onde também trabalhou como assistente de investigação na Taipei National University of the Arts.

“Um Toque de Pecado” que estreou em Dezembro em Portugal e obteve o prémio de melhor argumento no Festival de Cannes de 2013, é , não só o filme mais violento de Jia Zhangke, mas provavelmente um dos filmes mais violentos do cinema chinês continental.  “Um Toque de Pecado” integra 4 histórias interligadas que ocorrem em vários pontos do país, oferecendo uma cross-section da sociedade chinesa e da China contemporânea na qual a ficção se mistura com acontecimentos reais recentes, enquanto extractos de ópera comentam a situação sócio-cultural e a psicologia das personagens. A injustiça, a corrupção, a desigualdade, o abismo entre ricos e pobres estão omnipresentes e, de facto, estas questões são o tema principal, resultando numa violência da parte dos opressores mas também da parte das vítimas que está sempre prestes a explodir.

O filme completa um círculo, terminando onde começou, e mostrando o predominio do status quo, apesar de todos os actos de rebeldia que lhe são infligidos. Dahai matou os principais corruptos de Wujinshan que se apropriaram da mina, a antiga empresa colectiva, sem partilhar os dividendos conforme acordado. Porém, nada mudou:  a viúva de Jiao continua a dirigir a empresa denominada ‘shengli’, termo que significa vitória em chinês, e contrata Xiaoyu, a protagonista da terceira história depois de ela ter emigrado para Wujinshan. As personagens podem ser móveis, mas não conseguem escapar ao destino ou obter uma vida melhor, tal como o titulo chinês do filme que pode ser traduzido como ‘Destino’ sugere.

Na primeira história, Dahai indignado com a corrupção da mina e do governo de Wujinshan, tenta fazer chegar uma petição ao governo central, mas nos correios exigem a morada exacta e a carta não é aceite. O sistema de petição tem origens na China imperial e permite a quem sofreu injustiças queixar-se oficialmente a nível local, provincial ou nacional. Por causa dos seus protestos, Dahai é violentamente agredido e humilhado e, depois de ter esgotado todas  as tentativas de negociação, acaba por matar os principais culpados, incluindo um homem que por duas vezes é visto a mal tratar o seu cavalo.

A segunda história é a de Sanr, um migrante criminoso que, não querendo nem resignar-se nem que os seus se resignem a uma vida pobre na aldeia de Shapingba, se dedica a matar e roubar gente abastada. A vinçança dos pobres e oprimidos contra os novos ricos não parece apresentar qualquer solução, ele está condenado a vaguear, e mais cedo ou mais tarde será apanhado. O vazio moral geral e o sistema corrupto parecem ser o que corrompe Saner. No entanto, Sanr obedece aos princípios da piedade filial e, segundo critérios chineses, também pode ser considerado um pai e marido responsável. O dinheiro que rouba vai principlamente para a familia e não para o seu uso pessoal. Jia Zhangke, de facto, embeleza a personagem que é baseada no criminoso Zhou Kehua, também ele proveniente da aldeia Shapingba perto do municipio de Chongqing e, que, entre 2004 e 2008, foi assaltando e matando pela China fora, mas cujo dinheiro em parte servia para sustentar a vida luxuosa da sua amante.

Xiaoyu é a protagonista da terceira história. Recepcionista numa ‘casa de massagens’, na realidade um disfarce para o que na verdade é um um bordel, namora um homem casado há anos. Atacada pela mulher dele e por uns rufiões ao serviço dela, é mais tarde agredida por um mafioso que visita o bordel.  Numa cena longa é esbofeteada com notas de dinheiro enquanto é-lhe exigido que ofereça serviços sexuais já que o mafioso tem dinheiro. O dinheiro é todo poderoso na China actual e quem tem dinheiro tem poder. Xiaoyu mata-o em auto-defesa.

Xiaohui, o protagonista da quarta história, trabalha numa fábrica em Dongguan no sul da China, perto das zonas económicas especiais e também de Macau e Hong Kong. Dongguan é conhecida por ser a fábrica do mundo, onde muitas multinacionais se estabeleceram e de onde exportam produtos para todo o mundo. A cidade atrai milhões de emigrantes das regiões mais pobres do interior da China. Para além de ser a fábrica do mundo, Dongguan também é conhecida como sendo a capital chinesa do sexo e parte desta história passa-se num bordel de luxo. Responsável sem querer pelo acidente de trabalho dum amigo, cujo salário ele deverá repor até este se poder restabelecer, Xiaohui abandona o seu trabalho  e acaba por ir trabalhar no bordel de luxo cujos clientes são ricos empresários de Hong Kong e Taiwan. Apaixona-se por uma das prostitutas que aí trabalha para sustentar a filha e que lhe diz que na indústria do sexo não existe amor. Revoltado, prefere mudar novamente de emprego e é contratado por uma fábrica taiwanesa onde, em virtude de várias pressões sociais e pessoais, incluindo da mãe que o recrimina por ele não lhe enviar mais dinheiro, suicida-se.

Nos filmes anteriores de Jia os protagonistas também são personagens marginais que sofrem dificuldades. No entanto, são muito mais contidos, sofrendo em silêncio ou levando a cabo pequenos actos de rebeldia inofensivos, como o ladrão furtivo em “Xiao Wu”, em contraste com “Um Toque de Pecado”, no qual a certa altura a raiva contida explode e é levada ao extremo.

Jia Zhangke, tal como outros realizadores da chamada 6ª Geração de cineastas (à qual ele é considerado pertencer), tem produzido através deste e de outros filmes um cinema engagé que aborda os problemas sociais actuais e retrata também as grandes transformações sócio-culturais e económicas que a China atravessa. A 6ª Geração tem um estilo próximo do documentário, favorecendo uma representação natural e não dramática ou teatral, dialecto locais (a maior parte do filme não é falado em mandarim mas sim nos dialectos das regiões de onde são originárias as personagens), o que acentua o realismo, mas também constitui uma rebeldia contra o mandarim, língua oficial que monopoliza os meios de comunicação social.

Sobre Luis Mah

Investigador no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Lisboa. Sou também professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
Esta entrada foi publicada em Arte e Cultura, China. ligação permanente.

6 respostas a Violência por todos os lados, “Um Toque de Pecado” de Jia Zhangke

  1. Rui diz:

    “estreou em Dezembro em Portugal”. Onde? Nos cinemas?

  2. Cristina Água-Mel diz:

    “SPOILER”
    Não compreendo qual o objetivo deste texto. Se o que se pretende é comunicar o prémio que recebeu em Cannes, seria talvez mais pertinente / atual falar do Urso de Prata para o Melhor Ator atribuido a Liao Fan pelo seu papel em “Carvão Negro, Gelo Fino” e o Urso de Ouro para o Melhor Filme atribuído à mesma produção chinesa na Berlinade. Não é uma recensão do filme, pois em nenhum momento se fala da sua qualidade ou falta dela… E também não explora a realidade socio-cultural que está por detrás do filme. Aliás a única referência que faz a este facto é: “oferecendo uma cross-section da sociedade chinesa e da China contemporânea na qual a ficção se mistura com acontecimentos reais recentes,” — uma frase, na minha opinião, infeliz pois insinua a fabulação (leia-se: adulteração exagerada) de acontecimentos reais. O que não é verdadeiro, pois os factos sobre os quais Jia Zhangke se baseou são bem reais e violentos por si só. (Poder-se-á, inclusivamente, argumentar que esses factos reais, mais do que o argumento do filme, mereciam ser descritos para um público menos atento ao que se passa na China.)
    O relato detalhado e factual do argumento desprovido de explicações ou comentários adicionais atingue um único objetivo: o de estragar* o filme para quem ainda não o foi ver. O que é lamentável, pois parece-me que este portal pretende precisamente aproximar duas realidades distantes.

    * Tradução livre do inglês “spoil” que está na origem do aviso que alguns jornais anglofonos apresentam na recensões de filmes que descrevem o argumento ou o desenlace da história.

    • Luis Mah diz:

      Cara Cristina, obrigado pelo seu comentário. Opiniões diferentes são sempre bem vindas. O post que se colocou no blogue é uma versão muito mais reduzida do texto originalmente enviado pela Catarina. O post vale por si.

  3. Pingback: Violência por todos os lados II | O Retorno da Ásia

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