O futuro no comércio com a Ásia

(artigo do James Emmett, diretor financeiro global
de comércio e recebíveis do HSBC, na revista Valor desta semana, sobre como o Brasil deve olhar para oriente)

James Emmett

No final da década de 1970, viajei para a fronteira ao norte de Hong Kong com a China continental e observei um local chamado Bao’an County. Era uma pequena aldeia cercada de arrozais até onde a vista alcançava. Embora não houvesse então quaisquer sinais, Bao’an County iria logo transformar o mundo – porque em 1980 foi designado como a Primeira Zona Econômica da China.

Vista panoramica de Shenzen

Avançando três décadas, Bao’an County hoje é conhecida como Shenzhen – ela se tornou uma próspera cidade de mais de 10 milhões de pessoas, um centro econômico e um símbolo do sucesso da China. A velocidade da mudança é impressionante. Se isso parece uma história sobre urbanização, não é – é uma história sobre comércio. A velocidade fenomenal da mudança nestas últimas décadas em Shenzhen e em toda a China foi movida pelo comércio, e o seu sucesso está causando um impacto profundo nas formas de comércio ao redor do mundo.

Em 2006, os Estados Unidos eram o maior parceiro comercial de 127 países e a China era o maior parceiro comercial de 70 países. Apenas cinco anos mais tarde, a posição se inverteu. A China era o maior parceiro de 127 países, e os Estados Unidos de 76. Os crescentes volumes e as modalidades dinâmicas do comércio da Ásia terão um impacto fundamental sobre a economia global ao longo deste século.

Asia emergente

Eu acredito que haverá três pontos indicativos que serão a essência das mudanças que provavelmente veremos no comércio da Ásia nos próximos anos, e que devemos observar com uma atenção especial.

O primeiro é a orientação do Ocidente. Muitos dos países que aumentaram a sua abertura comercial com a China usufruíram de rápidos ganhos na atividade econômica ao longo da última década. À medida que a China e outras economias asiáticas cada vez mais se diversificam, diminuindo as suas exportações e aumentando as suas importações, a escala dessa oportunidade só deverá aumentar. Em junho, o vice primeiro ministro Zhang Gaoli disse que nos próximos cinco anos ele espera que a China importe US$ 10 trilhões de bens e serviços.

Importações da China

O desafio para as economias do Ocidente é claro: elas precisam fazer jus à sua parte nesse crescimento, desenvolvendo associações com os mercados que estão agora conduzindo a economia mundial. A velocidade com que puderem realizar esse giro na direção do Oriente será o fator decisivo do seu sucesso.

O segundo ponto indicativo é a rápida expansão da classe média da Ásia, o que é um fator chave no aumento da demanda por importações. Três bilhões de pessoas serão acrescentadas à classe média mundial em 2050. Pela definição mais ampla, a classe média da Ásia já é de 740 milhões – e continua crescendo depressa. Para muitas multinacionais, os consumidores da Ásia já são essenciais. Num trimestre do ano passado, a China continental, Hong Kong e Taiwan representaram aproximadamente 20% da receita bruta global da Apple. Conforme um relatório da McKinsey, com as medidas políticas apropriadas, a renda doméstica urbana na China deverá pelo menos dobrar até 2022. Uma nova geração de consumidores chineses, mais sofisticados e com visão internacional deverá surgir, mudando o foco do mercado mundial para o Leste. [Dai a relevância do post que o Luis publicou hoje sobre quem são e onde estão os consumidores chineses].

A maior loja da Apple na Asia encontra-se em Manila

As companhias ocidentais estão cada vez mais mirando essa nova fonte de demanda de consumo, e ao fazer isso, estão seguindo o exemplo dado pelas companhias da Ásia nos últimos anos: em vez de apenas usar o dólar americano, estão também fazendo negócios diretamente na moeda chinesa, o renminbi.

Este é o terceiro ponto indicativo – a ascensão do renminbi como moeda global. As contas comerciais da China são agora totalmente abertas, e, cada vez mais, as transações estão sendo pagas em renminbi – especialmente nos mercados asiáticos, tais como a Malásia e Indonésia. Atualmente, não existe nenhuma relação direta entre o ringgit da Malásia e a rúpia da Indonésia – as conversões são feitas por meio do dólar americano. O ponto indicativo ocorrerá quando essas conversões migrarem, deixando de ser feitas em dólares e passando a ser feitas em renminbi.

Renminbi

Cada um desses pontos indicativos poderá apontar uma oportunidade para o Brasil, que tem tudo para ter sucesso. O renminbi traz oportunidades para as empresas brasileiras e chinesas que podem usar a moeda, principalmente, para gestão de risco cambial, agilidade de pagamento ao exportador chinês, economia em custos de processos cambiais, simplificação no pedido de rebate ao imposto de exportação.

Aproveitar essa oportunidade significará adaptar-se a cada uma das tendências que expus aqui: dando um foco maior aos mercados asiáticos e à sua classe emergente de consumidores, e tomando medidas para ganhar vantagem competitiva, por exemplo, fazendo negócios em renminbi. Mas, acima de tudo, significa direcionar todo o esforço e recursos que podemos para criar um ambiente ótimo para as exportações brasileiras.

Brasil

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