Abrandamento na China: más ou boas notícias?

O crescimento anual do PIB chinês no primeiro trimestre de 2013 foi inferior ao esperado, com 7,7%, inferior a uma expectativa mais ou menos consensual entre os analistas de 8,2%.

Abrandamento na China

Os dados de crescimento do segundo semestre vão testar a capacidade de resposta da nova liderança chinesa em implementar as reformas necessárias. A habitual sondagem da Reuters entre 21 analistas especializados na China aponta para um crescimento de 7,5% no segundo semestre. Se se confirmar este dado a 15 de julho, já na próxima segunda-feira, estaremos a olhar para a menor taxa de crescimento interanual da China nos últimos 23 anos.

E as perspectivas não são muito melhores.

Perspectivas da economia chinesa

O colapso da liquidez do mercado interbancário chinês observado em junho, com as taxas de juro de curto prazo a alcançarem máximos históricos, terá sem dúvida o seu reflexo na economia real. O Governo chinês lutou contra a crise financeira global de 2008/2009 com um pacote de investimento público de 650 mil milhões de dólares. No entanto, e apesar do sucesso da medida na manutenção dos níveis de crescimento, um outro efeito foi a construção de uma dívida descomunal em yuans nos balanços dos bancos.

A história é de certa forma semelhante ao fenómeno observado nos EUA e nos países do sul da Europa.

Crise dos paises do Sul da Europa

No caso da Europa, deveu-se a um crescimento baseado em grande medida em obras públicas e no sector imobiliário, alimentado por um mercado creditício altamente alavancado devido à rápida descida das taxas de juro aquando da adoção do euro e à excessiva permissividade creditícia dos Bancos do Norte da Europa. A distorção foi criada por uma falha basilar na arquitetura da atual união económica e monetária europeia, sem mecanismos para controlar a gestação de desequilíbrios e círculos vicíosos (eu diria mais que os promove).

No caso chinês, a distorção foi criada pela provisão de crédito subsidiado a empresas normalmente ineficientes através de uma repressão dos mercados financeiros, de uma moeda subapreciada que coloca todo o excedente social nas indústrias manufactureiras exportadoras, e de um crescimento constante dos salários significativamente abaixo do crescimento da produtividade.

Em ambos os casos, os efeitos finais são no entanto semelhantes: o sistema fornece os incentivos errados aos agentes económicos.

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O reequilíbrio da economia chinesa passa agora por quatro pilares: (i) diminuir os níveis de investimento, (ii) aumentar os níveis de consumo das famílias, (iii) reduzir o papel do setor público, e (iv) alterar de forma significativa a forma como o crédito é alocado na economia.

O Presidente Xi Jinping e o Primeiro-Ministro Li Keqiang têm dado sinais de normalidade neste abrandamento, normal numa transição para um crescimento liderado pelo consumo interno, e não por investimento. Algo està a mudar na China com a nova liderança. Todos estavamos habituados à sensibilidade dos líderes chineses com os aumentos na taxa de desemprego (possível fonte de revolta social que ponha em causa a liderança do partido comunista chinês).

Como refere hoje o Financial Times num artigo de opinião: “Is this the end of the ‘Beijing put’? Over the past five years whenever China’s growth slipped below 8 per cent, global investors could count on the government to unleash stimulus and re-energise the world’s second-largest economy, boosting demand for everything from Audis to iron ore.

Desta vez, parece não ser o caso.

Mudança

A política monetária tem margem de manobra. A inflação no consumidor deverá repontar em junho para 2,5%, mas ainda muito aquém do objetivo do Governo central para 2013 de 3,5%. Os preços na produção estão a cair há 16 meses seguidos. Com a quebra da procura mundial. as fábricas chinesas têm em geral um excesso de capacidade, especialmente nos mercados solar, do aço e estaleiros navais. A China Rongsheng Hevay Industries Group Holdings, o maior construtor naval chinês, anunciou o despedimento de oito mil trabalhadores este mês.

No entanto, a massa monetária está a contrair, por decisão do Banco Central do Povo. A oferta de moeda M2 caiu de 15,8% em maio para 15,2% em junho.

Pode não parecer, mas são boas notícias.

como?

Ao menos se for o reflexo do ajustamento estrutural e re-equilíbrio da economia chinesa. Por ajustamento refiro-me a um crescimento baseado no consumo privado doméstico e não no consumo público e no investimento produtivo orientado para exportação.

Há uma estimativa que assume especial relevância neste cenário: o setor dos serviços na China necessita de 35% mais mão-de-obra por unidade de PIB que os sectores da construção e das manufacturas. Isto porque a indústria chinesa há muito que está a modernizar-se e a tornar-se menos intensiva em mão-de-obra.

Serviços

Assim é possível que o aumento do consumo privado tenha como resultado um crescimento no emprego. A China poderá assim continuar a crescer a taxas de 7-8% e, simultaneamente, alcançar os seus objetivos de emprego e de redução da pobreza (até à data, a China necessitava de taxas de crescimento da ordem dos 10%).

O sector dos serviços é assim o antidoto para o anterior modelo de crescimento, que funcionou ao longo de duas décadas, mas que é hoje em dia inestável, desequilibrado, descoordenado e, em última instância, insustentável.

Mais ainda. Um crescimento baseado nos serviços é mais amigo do ambiente e menos intenstivo no consumo de recursos naturais. Algo que pode não ser tão positivo para as economias que alimentaram uma excessiva dependência da procura chinesa pelos seus recursos naturais nos últimos anos (Austrália, Brasil, Canadá, Rússia, … ). E as notícias também não são boas para os EUA, habituados a receber as benesses da compra de ativos norte-americanos com os excedentes chineses, em particular de treasuries. Mas são boas notícias para a economia mundial no longo prazo.

Obrigações norte-americanas

Os dados apontam no bom caminho. O sector dos serviços crescia a 8,3% no primeiro trimestre do ano, sendo este o terceiro trimestre consecutivo de aceleração do seu crescimento e meio ponto percentual acima do crescimento da economia.

Sem dúvida, o reequilbrar da economia chinesa e o seu impacto na economia mundial pode constituir-se como uma das maiores alterações do início do século XXI.

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