A falta de profissionalismo na leitura do aumento nas exportações portuguesas para a China

O semanário Expresso noticiava nesta segunda-feira que as exportações portuguesas para a China tinham aumentado em 96,3% entre 2011 e 2012.

Uma surpreendente análise da Rosália Amorim, coordenadora da Exame e Expresso na SIC Notícias, justificava esse aumento da seguinte forma:

Rosalia Amorim na SiC Noticias

Os chineses gostam daquilo que nos temos de melhor, que são os nosso produtos tradicionais, o vinho, o azeite, e também em breve o leite (…) de acordo com o protocolo assinado recentemente entre os dois paises, o leite será um dos produtos que nós vamos exportar para o país que é a China, uma vez que 70% do leite consumido naquele país é importado.

Não podiamos ter ficado mais chocados com a leitura realizada pela Rosália. A análise não revela se não um desleixo chocante em dar uma olhadela rápida nos dados antes de “educar” o público português. Não fazia mal um pouco de profissionalismo.

Eis os dados comparados das exportações portuguesas para a China em 2011 e 2012, por categoria de produtos (também 2008 para referência).

Dados das exportações portuguesas para a China

As exportações cresceram de facto em 96,3%. Mas não devido ao azeite, vinho ou leite!

O aumento de 541,3% nos veículos e outro material de transporte deveu-se a uma mera decisão de gestão de produção da Autoeuropa, como tinhamos referido há seis meses (aqui). A Volkswagen tomou a decisão em finais de 2011 de exportar directamente para a China, através do porto de Setúbal, os Sciroccos e Sharans produzidos na sua fábrica de Palmela (antes eram enviados para a Alemanha antes de seguirem para o mercado chinês). Passaram assim de contar como exportação portuguesa para a Alemanha a exportação portuguesa para a China.

AutoEuropa - Scirocco, Sharan, Alhambra

Felizmente, outros meios de comunicação social, como o Oje, mostraram uma leitura mais fidedigna dos números (aqui e aqui). Obrigado, Rui Igreja, por partilhar.

É de louvar também o desempenho das exportações portuguesas para a China em minerais e minério (aumento de 36,6%, e representando já cerca de 123 milhões de euros), algo que também já tinhamos divulgado atempadamente no nosso blogue (aqui).

Pedras portuguesas exportadas para a China

Em montantes absolutos, automóveis e minério foram responsáveis por 99,8% do aumento das exportações portuguesas para a China em 2012 (!). O aumento das exportações dos produtos alimentares apenas representaram 0,6%. (!) *

* (os números somam mais de 100% pelo impacte do sectores que viaram as suas exportações diminuir).

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4 respostas a A falta de profissionalismo na leitura do aumento nas exportações portuguesas para a China

  1. margaridapedrosoferreira diz:

    Esta como a dos porcos. A China com 1bl habitantes tendencialmente o maior mercado de tudo. E os empresrios portugueses antes de se esfalfarem p tentar abocanhar uma coisa destas ou conseguem voltar ao modelo do corporativismo ou mais vale seguir o conselho da nica pessoa que me parece ter alguma sensatez em relao aos negcios com a China – o Futre: importar chineses. Para virem c consumir…

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado pelo comentário e pelo interesse no blogue, Margarida. Estamos plenamente de acordo. Essa é uma das razões que nos motivou a criar este blogue um ano atrás. Os números, a dimensão são impressionantes. Não são só os 1,4 mil milhões da China ou os 1,2 mil milhões da Índia. São também os 700 milhões da ASEAN e o vasto potencial dos países da Ásia Central e do Cáucaso. Acreditamos que o mundo vai ser muito diferente daqui a 30 anos do que é agora. O impacto da Ásia na economia, na política, na cultura, no turismo, e no desporto mundiais vai ser revolucionário. Pretendemos contribuir com o nosso grão de areia para que Portugal aprenda a encontrar o seu lugar nessa nova realidade e que não fique de fora desta viragem.

  2. Luis Moreira diz:

    Se não exportamos leite é porque exportamos carros. É preciso é mostrar que não exportamos.Mas como se vêm exportamos muito mais do que antes…

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado pelo comentário e pelo interesse no blogue, Luis. É indiscutível que exportamos mais para a China. Basta com comparar os dados de 2008 com os de 2012. As exportações totais multiplicaram vezes quatro. Contudo, acreditamos que toda análise deve ser cuidadosa e procurar entender onde se verificou o aumento e quais foram as causas. Precisamente para perceber onde somos bons e criar condições para continuar a exportar, e mais, nos sectores onde somos competitivos.

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