A loucura de Iron Man 3 e como a China pode vir a mudar a indústria mundial do cinema

Há bem pouco tempo, os atores e atrizes chineses em filmes de Hollywood eram quanto muito secundários, na sua maioria vilões, com a excepção de Jackie Chan.

Jackie Chan

Com a maior peso económico da Ásia no mundo, algo está a mudar também no cinema.

A razão é dupla.

Vejamos o caso de Iron Man 3, o mais recente sucesso da divisão Marvel da Walt Disney.

 

Em primeiro lugar, a estréia do filme ocorreu em 42 países antes de ser lançado, de forma simultânea, nos seus principais mercados, os EUA e a China. Recordes absolutos de bilheteira no primeiro fim-de-semana foram alcançados em Hong Kong, Indonésia, Vietname, Taiwan, Malásia, Singapura e nas Filipinas. Aqui em Manila há cinemas com mais de dez salas que só exibem Iron Man 3. As receitas da estréia, 200 milhões de dólares, ultrapassam já os 100 milhões da estréia de Iron Man 2 e, sobretudo, o recorde de 185 milhões da estréia do filme Os Vingadores em 2012.

Blockbusters

Em segundo lugar, e talvez mais importante, a presença de personagens principais chinesas e da própria China em filmes de Hollywood está a aumentar rapidamente.

O filme, que vai ser lançado  a 3 de maio em simultâneo nos EUA e na China, conta como personagens principais com o Robert Downey Jr, Gwyneth Paltrow e …… com Wang Xueqi. E foi filmado parcialmente na China.

Iron Man 3, Wang Xueqi e a China

A razão parece ser simples (o leitor mais curioso e menos paciente pode avançar até ao antepenúltimo parágrafo deste post para a descobrir).

Enquanto o número de salas de cinema tem estagnado nos EUA e caído na Europa (ver também a diminuição drástica em Portugal no artigo do Alexandre Costa no Semanário Expresso de 30 de janeiro), estas têm vindo a proliferar como cogumelos na China.

As receitas das bilheteiras asiáticas cresceram em 21% em 2010, 24% em 2011 e 15% em 2012, até alcançar os 10,4 mil milhões de dólares nesse último ano. E estes dados excluem o fenómeno da pirataria, muito alastrado no continente.

A China foi responsável por 40% desse crescimento, tendo ultrapassado o Japão em 2012 como segundo país com mais salas de cinema do mundo. Dez novas salas de cinemas são acrescentadas na China, cada dia (!), às 12.000 salas já existentes. Estima-se que a China ultrapasse os EUA em 2018 como maior consumidor de cinema do mundo.

Chineses no cinema

A questão que permanece por responder é a capacidade da indústria de cinema dos EUA em conquistar espaço num mercado de consumo chinês que em 2012 cresceu a um ritmo anual de 36%, para um total de 2,7 mil milhões de dólares (o segundo ano consecutivo que o consumo chinês por cinema cresce acima dos 30%, segundo a Motion Picture Association of America). Se o ritmo de consumo do primeiro trimestre de 2013 se mantiver, o montante de 2013 poderá superar os 3,5 mil milhões de dólares, mais do dobro do valor observado três anos antes.

Sucessos de Hollywood como Os Vingadores ou Missão impossível: operação fantasma enfrentam forte concorrência de filmes chineses como a comédia romántica Encontrar o Sr. Perfeito, que estoirou as bilheteiras chinesas na sua estreia em março ou o filme mais visto no  primeiro trimestre de 2013, a comédia Perdidos na Tailândia.

No primeiro trimestre de 2013, os filmes chineses dominaram o mercado de cinema local com cerca de 70%.

As dificuldades que os filmes de Hollywood sentem em conquistar as bilheteiras chinesas são claras.

Para fazer parte deste clube de privilegiados, muitos filmes de Hollywood têm optado por mudar o guião das suas histórias e escapar aos censores chineses. O Financial Times referia recentemente (i) como em Red Dwana nacionalidade do exército invasor foi alterada da China para a Coreia do Norte, (ii) como no novo filme de Brad Pitt em 2013, World War Z, era eliminada uma cena que referia que a praga de zombies tinha tido origem na China, ou (iii) como o recente filme de Quantin Tarantino, Django Libertado, foi retirado este mês dos cinemas chineses, segundo fontes oficiais, por “razões técnicas”.

Quentin Tarantino chateado

Claro que um factor crucial na manutenção desta presença menos importante dos filmes de Hollywood nos cinemas chinesas tem a ver com a limitação da exibição de filmes estrangeiros, mesmo que esta contrarie as regras da Organização Mundial do Comércio.

O então Vice-Presidente chinês, Xi Jinping, (e atual Presidente) comprometeu-se numa visita oficial aos EUA em fevereiro de 2012 a aumentar em mais de metade o número de filmes estrangeiros que podem ser distribuídos nas salas de cinema chinesas, de 20 para 34. Xi Jinping comprometeu-se também em fevereiro de 2012 a autorizar o aumento da percentagem de lucro dos estúdios de cinema estrangeiros nas receitas de bilheteira, dos então 13% aos atuais 25%.

Presidentes da China e dos EUA

A questão chave aqui é a de que os filmes estrangeiros não são contabilizados para efeitos desta quota se são co-produções chinesas ou, atenção, se uma parte da filmagem ocorre na China (!). Mais ainda, nestes casos, a percentagem de lucro dos estúdios de cinema estrangeiros nas receitas de bilheteira aumenta até aos 50% (!).

Ar de surpreendido

Para já, Kung Fu Panda 3, com estréia marcada para 2015, deverá constituir-se como a primeira co-produção de Hollywood na China, através da Oriental DreamWorks, uma joint venture da Dream Works, China Media Capital, Shanghai Media Group e Shanghai Alliance Investment. Para o efeito, a DreamWorks está a construir um centro de investigação e desenvolvimento e estúdios por um total de 350 milhões de dólares em Shanghai.

De DreamWorks a Oriental DreamWorks

Entretanto, quantos outros filmes passarão a ser filmados na China a partir de agora?

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4 respostas a A loucura de Iron Man 3 e como a China pode vir a mudar a indústria mundial do cinema

  1. Pingback: Iron Man 3 e a China | Step by step

  2. Enrique Galán diz:

    Já a 13 de maio, e após um mês retirado, o filme Django de Quentin Tarantino, regresso aos cinemas chinesas com menos três minutos, após terem sido retiradas as cenas mais violentas e eróticas do filme. Curiosamente, a venda do filme nos mercados ilegais tinha disparado.

  3. Andi diz:

    Thakns for taking the time to post. It’s lifted the level of debate

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