O insustentável ritmo de consumo de matérias-primas na Ásia

Um dos maiores desafios que enfrenta a realização do século asiático é a sustentabilidade do modelo de crescimento, bem como as externalidades negativas dele resultantes.

Crescimento nao sustentavel

A região da Ásia e do Pacífico há muito que ultrapassou o resto do mundo no consumo de matérias-primas, em consequência não só da sua produção industrial (factory Asia), como também do poder de compra dos seus cidadãos.

Um relatório publicado na semana passada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP em terminologia inglesa), com o título “Recent Trends in Material Flows and Resource Productivity in Asia and the Pacific”, aponta para a necessidade da região aumentar rapidamente a eficiência na sua utilização dos recursos. Caso contrário, a realização do século asiático não será possível e as perdas em estilo de vida, crescimento económico e sustentabilidade ambiental serão enormes.

Construção

Entre 1978 e 2008, o consumo de minerais de construção na região aumentou em 13,4 vezes, de metais em 8,6 vezes, de combustíveis fósseis em 5,4 e de biomassa em 2,7 vezes.

A intensidade do consumo de matérias-primas por dólar de Produto Interno do Bruto é três vezes superior na região da Ásia e do Pacífico ao consumo do resto do mundo. E mais preocupante ainda, tem vindo constantemente a aumentar.

Aumentar

Não é surprendente no entanto o papel desempenhado pela China. 60% do consumo total de matérias-primas na região ocorre na China.

A Ana Serra e o Carlos Esteves publicavam no Semanario Expresso a 10 de abril a este respeito um artigo muito elucidativo denominado “a corrida chinesa aos recursos naturais mundiais”.

A Índia fica-se pelos 14%, mas o ritmo de crescimento tem sido superior ao da China nos últimos anos. O relatório da UNEP refere ainda que o rápido aumento do consumo de metais e minerais industriais na Índia é indicador da fase de rápida aceleração no seu processo de industrialização em que o país está a entrar.

Contentores indianos

O cenário fica ainda mais dantesco quando é referido que em 2035 a procura global por metais será entre três e nove vezes superior a atual.

Especial atenção merecem os metais raros, utilizados em produtos tecnologicamente sofisticados, como painéis solares, ímanes de turbinas eólicas e telemóveis. Estima-se que a China seja responsável por cerca de 87% da produção mundial de metais raros.

Produção mundial de metais raros

Finalmente, o documento recomenda que os produtores destes produtos garantam a reciclagem destas matérias-primas no fim do ciclo de vida do produto. A título de exemplo, um telemóvel pode conter mais de quarenta metais diferentes.

As consequências do consumo incessante asiático são imprevisíveis. A região é um price maker absoluto. Determina completamente o mercado e o posicionamento geo-estratégico mundial, como temos vindo a constatar em todas as regiões do mundo, com particular relevo em África. Deverá no entanto ter muito cuidado na forma como os explora no futuro. Aumentar a eficiência na sua utilização. Investir na produção e comercialização de bens substitutos. Mitigar e minimizar as externalidades negativas delas resultantes, no mínimo tão poderosas como o consumo que as alimenta. Caso contrário, a construção do século asiático ficará irremediavelmente condenada.

O sonho de Gandhi

Esta entrada foi publicada em África, Índia, China com as etiquetas , . ligação permanente.

2 respostas a O insustentável ritmo de consumo de matérias-primas na Ásia

  1. Rui diz:

    Se olharmos para esta questão de um ponto de vista talvez mais democrático, em termos de consumo de recursos per capita, ficamos com outra ideia de onde, entre a Ásia e o mundo ocidental, o consumo será mais insustentável.
    Mais ainda, uma boa parte do consumo de recursos atribuído à Ásia é transformado nas industrias asiáticas e na realidade consumido no ocidente.

  2. Isso é verdade, Rui. Parece um pouco hipócrita que os ocidentais defendam que o consumo na Ásia ameaça o futuro. Mas acho que o artigo do Enrique vai no sentido de que, com o acelerado ritmo de crescimento dos padrões de consumo na Ásia, rapidamente eles passarão a consumir como os ocidentais e, obviamente, isso não é sustentável.
    Só a China possui 21% da população mundial. A Índia, outros 19%. Se o consumo de recursos por indianos e chineses (e por latino-americanos, e por africanos, e pelos demais asiáticos…) se equiparar ao de um europeu, o impacto no planeta terá grandes proporções.
    O ideal é que o mundo TODO racionalize o uso dos recursos naturais e procure produzir e consumir de forma mais sustentável. Mas também acho que enquanto isso não acontecer no ocidente, não há como um ocidental questionar os padrões de produção, consumo e uso dos recursos nas economias emergentes.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s