Um mercado pan-asiático da energia em 2030

Referiamos num artigo no Semanário Expresso em janeiro que, na nossa opinião, a Ásia enfrenta na energia o maior desafio à concretização do denominado século asiático.

Segurança energética na Ásia

E recomendavamos que este desafio asiático fosse enfrentado através de um processo de integração energético semelhante ao europeu: 

O consumo energético concentra-se no Paquistão, na Índia e no litoral chinês. Já os maiores produtores de energia situam-se no Médio Oriente, Ásia Central e Rússia, todas elas regiões limítrofes. Só o Oriente Médio, incluído o Irão, e a Rússia representam 60% e 64% das reservas mundiais de petróleo e de gás, respetivamente. A complementaridade parece óbvia. E a necessidade de integrar energeticamente as Ásias Central, de Leste e do Sul também. Esta integração, inadiável, muito terá a dizer quanto à integração e à geopolítica do continente asiático. (…) Não esqueçamos que o processo de construção europeia arrancou com uma tal Comunidade Europeia do Carvão e do Aço liderada pela Alemanha e pela França para lidar com as reservas da Alsácia que, como principal efeito, pôs um ponto final às habituais duas guerras por século no coração do continente europeu. (…) A ver vamos.”

Três meses depois (coincidência), a edição mais recente do Asian Development Outlook  apresenta uma monografia muito interessante sobre o desafio energético da Ásia. E as suas recomendações finais vão ao encontro da nossa percepção do fenómeno.

Asian Development Outlook 2013

Uma recomendação se destaca dentre as outras: o estabelecimento de um mercado energético pan-asiático em 2030. O documento refere ainda que o ponto de partida para o estabelecimento desse mercado deveria ser a constituição de uma task force de nível ministerial para analisar a experiência europeia.

É sabido que a escolha da temática em análise e das recomendações do Asian Development Outlook tem um impacto muito forte na região. Podemos esperar que a proposta se venha a concretizar a curto prazo.

Banco Asiatico de Desenvolvimento

O raciocínio é o seguinte: Em 2010, metade das pessoas que viviam sem acesso a eletricidade no mundo ainda residiam na Ásia. Se a Ásia continua a crescer e a retirar milhões de asiáticos da pobreza ao mesmo ritmo, a procura por energia irá aumentar de forma massiva. Dada a falta de alternativas, esta procura irá ser satisfeita por combustíveis fósseis, com consequências nefastas para a concretização de um desastre ambiental (e global) no continente.

Poluição

Em 2035, o Banco Asiático de Desenvolvimento estima que a Ásia representará 44% do PIB mundial (28% em 2010), mas será responsável por entre 51% e 56% do consumo mundial de energia (34% em 2010). A denominada Ásia em desenvolvimento possui apenas 25% das reservas mundiais de carvão, 16% das reservas mundiais de gás e 15% da reservas mundiais de petróleo e gàs natural líquido tecnicamente explorável.

Em 2010, a dependência energética da Ásia em combustíveis fósseis era de 79%. Se nada for feito, a dependência do combustíveis fósseis irá disparar. Ceteris paribus, o consumo de carvão irá aumentar no período em causa em 81%, o consumo de petróleo irá duplicar e o de gás natural mais que triplicar.

A dependência dos combustíveis fósseis na Ásia vai aumentar

Se nada for feito, as importações de petróleo na Ásia irão triplicar em 2035 (de 10 milhões de barris por dia em 2007 para 30 milhões de barris em 2035) e a dependência do Médio Oriente irá aumentar significativamente e colocar em causa a própria segurança energética do continente.

Ceteris paribus, as importações de petróleo na Ásia vão triplicar em 2035

Em 2035, as emissões de carbono apenas da Ásia irão superar os limites estabelecidos nos acordos internacionais. Estas irão duplicar para mais de 20 mil milhões de toneladas em 2030.

Em 2035, apenas as emissões de carbono da Ásia vão superar o limite acordado internacionalmente para o globo

Em resposta a estes números, e para além da referida proposta de um mercado energético pan-asiático em 2035, o documento também recomenda apostar na eficiência energética, com particular ênfase em acabar com os subsídios as combustíveis fósseis representam. Criados na teoria para beneficiar as camadas mais pobres da população, o documento mostra como a percentagem dos subsídios recebidos pelo percentil 20 mais pobre da população fica-se entre os 5% do gás natural líquido e os 15% do queroseno. Por outro lado, estes subsídios atuam como um forte constrangimento ao desenvolvimento dos países, dado o seu peso nas finanças públicas dos países da região (2% do PIB na Índia, Indonésia ou Vietname, e 4% no Bangladesh ou no Paquistão).

Uma terceira recomendação diz respeito a uma maior aposta nas energias renováveis. A capacidade instalada na região tem crescido de negligenciável a cerca de 82 GW de energia eólica e 20 GW de energia solar. O potencial de crescimento é enorme. O custo de ambas as tecnologias é muito competitivo em zonas rurais e ilhas remotas. Alguns países asiáticos (Índia, China) são líderes mundiais na produção de equipamento solar. A energia hidroelétrica, apesar de bem-estabelecida, apenas desenvolveu 20% do seu potencial (ver o caso no Nepal, aqui referido a 6 de fevereiro).

As energias renováveis não são no entanto suficiente para dar resposta ao aumento esperado da procura, quer em termos de capacidade, quer em termos de custo.

As energias renováveis só não são suficientes

O segredo para não obstaculizar a concretização do século asiático é tornar a energia convencional mais limpa e eficiente. O potencial do shale gas na China é enorme (iremos falar desta questão num próximo post). A energia nuclear, apesar dos acontecimentos de Fukushima, não pode ser posta de lado. Estima-se que o phasing-out da energia nuclear na Ásia tenha como consequência o aumento das emissões de carbono entre 8% e 13% em 2035.

O potencial da energia nuclear em reduzir as emissões de carbono

E, claro, o potencial das economias de escala em eficiência energética por via da integração regional não pode ser menosprezada. A título de exemplo, estima-se que a rede integrada de transmissão na sub-região do Grande Mekong tenha representado poupanças de cerca de 14 mil milhões de dólares nos últimos 20 anos, em resultado da substituição de combustíveis fósseis por energia hidroelétrica, e numa redução das emissões de carbono em 14 milhões de toneladas por ano em 2020.

Uma outra proposta, não referida no documento, mas que tem vindo a ser discutida nos corredores do Banco diz respeito ao lançamento no terceiro trimestre de 2013 do Asian Energy Outlook (AEO). Indo ao encontro da primeira recomendação, o AEO servirá como ferramenta essencial para monitorizar as fragilidades e o caminho a ser percorrido para alcançar o referido objetivo de termos um mercado energético pan-asiático em 2030.

Uma última nota. Em 2010, a dependência energética da Ásia em combustíveis fósseis era de 79%. Os efeitos catastróficos de manter esse energy mix no continente, num contexto de aumento exponencial da procura por energia, devem sem dúvida motivar uma aposta em energias renováveis. Esta aposta deve ser acompanhada de perto pelas empresas de um país, Portugal, onde 70% da energia gerada no primeiro trimestre de 2013 era energia renovável.

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O Banco Asiático de Desenvolvimento está no bom caminho. A Ásia também, se fizer eco das propostas do Banco. Estarão as empresas portuguesas no bom caminho?

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