Brunei: uma história de sucesso… sustentável?

Quem é?

Sultão do Brunei

E assim, melhor?

Sultão do Brunei

Hassanal Bolkiah. O Sultão do Brunei.

Antes de irrupção de Bill Gates na listagem da Forbes, o Sultão do Brunei era o homem mais rico do mundo. Em 1997, a sua fortuna estava estimada em cerca de 38 mil milhões de dólares (20% do PIB de Portugal). Bill Gates aparecia num sofrido segundo lugar, com 36,4 mil milhões.

Como profissão? Uma não chega. Chefe de Estado com funções executivas, primeiro-ministro, ministro da defesa e ministro das finanças do Brunei. Acha mesmo assim que o património é muito elevado? Ainda não acabei. Também é o Inspetor da Polícia.

Sultão do Brunei

Com tantos empregos, não admira que tenha conseguido amealhar toda essa fortuna, que lhe permite ter uma residência oficial com 1.888 quartos e um parque automóvel de 7.000 veículos (600 Rolls Royces, 300 Ferraris….). Eu próprio, tendo ficado há poucas semanas no Empire Hotel, no Brunei, pude constatar que as torneiras da minha casa-de-banho estavam banhadas a ouro (!).

Hotel Empire, Brunei

Hassanal Bolkiah é o 29.º descendente de uma dinastia real com mais de 600 anos. Tem reinado o Brunei, um país da dimensão populacional de Cabo Verde, mas imensamente rico em petróleo e gás natural, desde que o seu pai abdicou em 1967. Apesar da sua fortuna ter decrescido, e muito (em apenas uma década, de 40 mil milhões para menos de 16 mil milhões de dólares em 2006, devido à queda no preço do petróleo, à crise financeira asiática de finais da década de 90 e, sobretudo, aos investimentos financeiros menos acertados do seu irmão Jefri), a verdade é que o trabalho por ele desenvolvido no país é meritório. Com tantas receitas vindas da exploração do petróleo e do gás, também eu! poderão pensar alguns.

Facil como uma manha de domingo

Sendo o país-membro menos populoso da ASEAN, com pouco mais de 400 mil habitantes, o Brunei Darussalam (Brunei Morada da Paz, literalmente) é o 26.º país do mundo com maior PIB capita (40 mil dólares), e o segundo da ASEAN, apenas superado por Singapura (50 mil dólares). Esse PIB per capita coloca o Brunei acima do Reino Unido, e duplica o valor observado em Portugal.

À chegada ao país, os visitantes são recebidos com a seguinte descrição: “Negara Brunei Darussalam is the least populated, least crowded, least polluted, greenest country in the region, and arguably has the loveliest capital city in South-East Asia. Sharing the Island of Borneo with Malaysia and Indonesia, Brunei is free of tropical diseases, is outside the typhoon belt, not prone to earthquakes, and does not have volcanoes. Bruneians are a fortunate lot with all these blessings.

Logo turistico do Brunei

Nenhum dos 400 mil cidadãos do Brunei paga impostos e a educação e a saúde são totalmente gratuitas (inclusive medicamentos para crianças, polícias e militares). A esperança de vida no país é de 76 anos. O Conselho legislativo, espécie de Parlamento, extinguido em 1962, retomou funções em 2004. O país tem-se inserido progressivamente na comunidade internacional (Nações Unidas em 1984, Banco Asiático de Desenvolvimento em 2006). Uma forte campanha publicitária foi lançada para promover o país como destino turístico. O próprio Royal Trophy (Ryder Cup entre a Europa e a Ásia) decorreu há poucos meses no Brunei.

Vitoria da Asia sobre a Europa no playoff do Royal Trophy em Dezembro de 2012

Mas o futuro não é assim tão cor-de-rosa. A palavra chave é sustentabilidade.

O desafio para manter os elevados padrões de vida no país é diversificar a economia. Estima-se que as reservas de petróleo e de gás do Brunei, que atualmente representam uma receita anual de cerca de 6 mil milhões de dólares, deverão esgotar-se em 2040. Algo problemático num país onde 60% da população ativa está empregada pela Royal Dutch/Shell.

Bomba da Shell

Hassanal Bolkiah quer seguir os passos do Xeque Khalifa bin Zayed Al Nahyan, do Abu Dabi, e do Xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, do Dubai, que têm conseguido diversificar a economia daqueles dois Emirados, tendo por base o turismo e os serviços financeiros e de logística de transporte. Embora a economia do Dubai tenha sido construída com base nas receitas do petróleo e do gás, estes sectores representam hoje apenas 6% do PIB do Emirado.

Dubai

O Sultão decidiu recentemente solicitar ao Banco Asiático de Desenvolvimento que o Brunei fosse elegível para assistência técnica e estudos de diversificação da sua economia por parte do Banco, apesar do rendimento per capita do país estar muito acima do patamar de país em desenvolvimento. A razão? Ter um suporte institucional de elevada reputação técnica para as reformas que pretende implementar, e que suavize a contestação social que algumas dessas reformas podem trazer, num país onde os seus cidadãos estão mais habituados a direitos do que a obrigações.

Sultão do Brunei

E o Banco, muito sabiamente a meu ver, aceitou na passada segunda feira. Apesar da extravagância do seu Chefe de Estado, é do interesse de todos ter focos de estabilidade e de prosperidade na região.

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10 respostas a Brunei: uma história de sucesso… sustentável?

  1. este paìs deve ser maravilhoso para viver

    • Enrique Galán diz:

      Caro Edson, muito obrigado em primeiro lugar pelo interesse no blogue. Tendo visitado o país por um tempo, a ideia com a qual fiquei é a de que ser um país muito interessante, musulmano moderado e muito desenvovido, muito embora o peso do petróleo na economia seja excessivo. Deveria ter uma economia mais diversificada, mais resistente a eventuais choques.

  2. Ken Westmoreland diz:

    É um pais estranho – apenas visitei o aeroporto quando estava em tránsito entre Singapura e a Austrália. O aeroporte pareceu-me tão grande como o aeroporto de Changi em Singapura, mas com um fração minúscula do tráfico.

    Durante a ocupação indonésia de Timor Leste, tenha os sonhos que um Timor Leste independente pudesse ser tão rico em recurso petrolíferos como o Brunei, mas com a disponibilidade de alcool e porco. Infelizmente, há um rísico que Timor Leste se tornará num outro Nauru, que se tornou em um dos países mais ricos do mundo graças à sua riquesa dos fosfatos, mas hojé é bancarrota.

    O exercito britânico ainda tem um regimento de Gurkha (mercenários nepaleses) em Brunei, embora seja o Sultão que os paga. Durante a operação militar em Timor Leste em 1999, os gurkhas serviram com distinção – tiveram as vantagens de serem asiáticos (e pois politicamente correctos, não como os brancos australianos), poderem falar o malaio (que é mais o menos a mesma língua como o indonésio, falado pelos soldados indonésios e as milícias pro-indonésios) e terem ‘kukris’ ou machetes.

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado pelo interesse no blogue e pelo muito util comentario, Ken. O Brunei e’ sem duvida um pais do primeiro mundo. Em Timor o ponto de partida ‘e diferente. Tem muito mais caminho para percorrer. O objetivo de se tornar um medium-high income country em 2030 parece muito ousado dado o ponto de partida em infra-estruturas e qualificacao dos recursos humanos.

    • andpinto diz:

      Eu vivi no Brunei, sei do que falo. Não é verdade que o aeroporto seja tão grande como o Changi. Na altura em que escreveu o seu comentário era minúsculo e hoje, apesar das renovações, assim continua. Deve estar a confundir com o aeroporto de Kuala Lumpur, o único na região que pode ser comparado ao Chang em dimensão e tráfico.

      Os Gurkha não são mercenários, são uma força de elite do exército britânico recrutada no Nepal. Logo, são um corpo regular de um exército. Mercenários não têm filiação e servem qualquer nação que lhes pague, sem juras de fidelidade. A língua dos gurkhas não é bahasa melauy ou a variante indonésia. É nepali que apesar de partilhar a raíz sânscrita, é diferente das línguas malaias. É como francês e português.

      • Enrique Galán diz:

        Muito obrigado pelo seu comentário. São de facto considerações fidedignas, que em muito enriquecem a discussão. Um abraço. Enrique

  3. Pingback: A “bondade” dos sultões que mascara ditaduras: Brunei e Omã | CRIAMUNDI

  4. Clarildo menezes diz:

    Gostei muito de tudo, estou ate pensando em ir morar ai, gostaria de saber sobre empregos em Brunei, meu email clarildo@gmail.com

  5. jsilva diz:

    Só se tornaram desenvolvidos por causa da Inglaterra. Todos países que tiveram boas relações com a Inglaterra se desenvolveram, mas aqueles que decidiram bater de frente não são nada hoje.

  6. Ailon diz:

    quero ir morar lá, o que fazer?

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