Pyongyangologia II: Quem tem medo da Coreia do Norte?

NK State of War 2Num momento em que assiste ao endurecimento das ameaças verbais norte-coreanas, da escalada da tensão militar na península coreana, o mundo continua a tentar perceber o que se pode esperar da liderança em Pyongyang.

NK State of War March 2013Para Andrei Lankov, a possibilidade de um confronto militar na península é baixa. Diz Lankov, que não estamos mais do que perante mais uma “ronda de manipulação política” por parte de Pyongyang destinada a audiências estrangeiras e domésticas. Para este professor de origem russa e que estudou em Pyongyang, há pelo menos duas razões que podem explicar este comportamento bélico norte-coreano.

nk state of war 4Primeiro, é uma reacção retórica habitual em resposta às resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas (a mais recente no início deste mês), condenando os ensaios nucleares e de mísseis da Coreia do Norte: “apesar do seu tom está-se perante um gesto diplomático, uma forma de exprimir a insatisfação da Coreia do Norte com a resolução e a sua vontade firme de não ceder a pressões externas”. E finalmente, argumenta Lankov, a população norte-coreana precisa de ser recordada regularmente que o seu país está rodeado de inimigos. Caso contrário, “pode começar a fazer perguntas políticas perigosas – por exemplo, pode começar a questionar porque razão o seu país, antes o país industrialmente mais avançado em toda a Ásia Oriental, está de forma crescente a perder terreno para a China e, especialmente, para a Coreia do Sul”. Nada como uma boa ameaça externa para justificar as dificuldades económicas que parecem não ter fim.

nk state of war 3David Kang e Vitor Cha não estão tão seguros se se deve olhar para a Coreia do Norte como sendo inofensiva, apesar da sua retórica. E mostram porque:

(1) Pyongyang é perigosa; (2) Kim Jong-un não é “insano”; (3) As sanções não estão a funcionar no empobrecimento da Coreia do Norte; (4) A China continuará, por enquanto, a sustentar o regime norte-coreano e; (5) Dar “cenouras” à Coreia do Norte para deixar de ver de desenvolver o seu programa nuclear poderá não ter o efeito esperado.

Nk state of war 5E o blogue New Focus International diz-nos como a intensidade da retórica bélica de Pyongyang acaba por ter efeitos positivos na vida dos soldados norte-coreanos. Lee Gi-chul, citado pelo blogue, e que antes de ter fugido da Coreia do Note, serviu no exército norte-coreano descreve como os seus companheiros na unidade militar olhavam para os exercícios militares conjuntos e anuais entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul: “Nós tínhamos de passar várias noites no campo, marchar longas distâncias à noite e mesmo durante o descanso manter as nossas botas calçadas e dormir apenas por pequenos momentos. No entanto, nós estávamos contentes porque era a única altura em que recebíamos refeições regulares: 800 gramas diárias de ração. Nós chamavámos a estas refeições ´acima da tigela` porque normalmente, havia tão pouco arroz nas nossas tigelas que nós podíamos ver o fundo mesmo antes de começarmos a comer”.

Anúncios

Sobre Luis Mah

Investigador no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Lisboa. Sou também professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
Esta entrada foi publicada em Alemanha, China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, EUA. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s