A geoestratégia do século XXI: o papel do China, do Brasil, da Rússia e da Índia em África e uma nova ordem internacional

Todos estamos habituados hoje em dia ao termo BRICS, mas o S final apenas foi acrescido, em 2010, com a inclusão da África do Sul no grupo batizado inicialmente como BRIC, dez anos antes, em 2001, por Jim O´Neill, da Goldman Sachs.

De BRIC a BRICS

O convite do Brasil, Rússia, China e Índia à África do Sul foi um sinal muito importante em vários sentidos.

De facto, se o objectivo do grupo era reunir os principais países emergentes do mundo, teria feito muito mais sentido convidar o México (uma economia de 1,15 biliões de dólares), a Indonésia (850 mil milhões), a Turquia (775 mil milhões), ou até a Polónia (515 mil milhões), antes do que a África do Sul (410 mil milhões). Não seria necessário apresentar mais argumentos do que referir que a economia do México são três Áfricas do Sul. Apesar de poder soar estranho, uma análise da estrutura produtiva e de exportação da África do Sul mostra como a sua economia continua a estar hoje em dia amplamente baseada em recursos naturais, e não em indústria ou serviços com alto valor acrescentado. Não é óbvio que a África do Sul possa ser caracterizada como uma típica economia emergente, com sucesso na rapidez da transição de uma economia de baixo para uma ecomomia de alto rendimento. E, no entanto, os BRIC passaram a BRICS.

África do Sul, o sócio anão dos BRICS

O convite era um toque de atenção, em primeiro lugar, contra o Washington consensus e as estruturas de governação dos organismos internacionais, pouco representativas dos países emergentes e dos países de rendimento médio e baixo. Os BRICS contam com uma representação mais abrangente, que inclui um representante do continente africano, apesar de a África do Sul ser uma anão quando comparado com o peso económico da China (7,2 biliões de dólares, isto é, dezoito Áfricas do Sul), do Brasil (seis Áfricas do Sul), ou da Índia e da Rússia (em ambos casos, cinco Áfricas do Sul).

Em segundo lugar, o convite foi um sinal da extrema importância que os quatro BRIC atribuem ao continente africano.

África indiana, África chinesa, África brasileira, Africa russa

Muito se tem falado nos últimos meses do papel da China no continente africano. Algo menos do papel desempenhado pela Índia, pela Rússia ou pelo Brasil. Todos eles igualmente importantes.

O papel destes quatro gigantes no continente pode ser percebido com detalhe na obra “The BRICS summit 2013 – Is the road from Durban leading into Africa?, do Centro de Estudos Chineses da Universidade Stellebosch, na própria África do Sul. Uma leitura a não perder para qualquer interessado na geoestratégia do século XXI.

The BRICS summit 2013 - Is the road from Durban leading into Africa?”, do Centro de Estudos Chineses da Universidade Stellebosch, na própria África do Sul

Em ambos os casos, o papel dos quatro gigantes como no continente africano, mas também no mundo, como contrapeso aos países OCDE, sai amplamente reforçado da Cimeira de Durban, que finalizou hoje. Para além do acordo quanto à constituição do Banco de Desenvolvimento dos BRICS (avançada há vários meses no nosso blogue, aqui e aqui), estes acordaram também o estabelecimento de um fundo de reservas de divisas de contingência com um valor inicial de 100 mil milhões de dólares, que daria aos países do grupo estabilidade financeira. Na prática, um novo Banco Mundial e um novo Fundo Monetário Internacional, de dimensão menor a estes, mas com um amplo potencial para os substituir. Sobretudo porque não irão exigir aos seus clientes as contrapartidas e sacrifícios que o Banco Mundial e o FMI exigem. Os chefes de Estado do grupo apresentaram acordos assinados para fomentar os investimentos nas infraestruturas em África e para a cooperação em matéria de economia sustentável. O bloco acordou ainda a formação de um conselho de negócios dos BRICS e de um centro de estudos próprios.

Protestos contra Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional

Hoje observamos o nascimento de uma nova ordem internacional.

Chefes de Estado ou de Governo dos BRICS em Durban

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