O Banco BRICS: um relações públicas brasileiro, um diretor operacional chinês, um diretor financeiro sul-africano, um diretor informático indiano e um diretor de recursos humanos russo

Chefes de Estado ou de Governo BRICSDecorre em Durban na África do Sul a 26 e 27 de março próximo a quinta cimeira anual de Chefes de Estado ou de Governo dos BRICS.

 

Um dos pontos mais importantes na mesa será o acordo político oficial para a constituição do denominado Banco de Desenvolvimento dos BRICS. Muitas irão ser as notícias que irão sendo publicadas nos próximos dias com os detalhes da nova instituição.

ReputaçãoOs desafios virão depois. Em primeiro lugar, a sua concretização. Em segundo lugar, a construção de credibilidade e de uma boa reputação.

Quanto à sua concretização, questões basilares como a sua sede, o seu capital, a sua estrutura governativa, a sua visão, a sua missão, quais os países beneficiários, quais as nacionalidades elegíveis para o seu staff, permanecem em aberto. E não parecem facilmente resolúveis. Um alto fucionário rússo sugeria há umas semanas como solução de compromisso quanto à sede a cidade de Istambul. A única certeza é que o acordo irá permitir à Índia, àvida de recursos financeiros dos quais não dispõe, aceder à ampla poupança e reservas cambiais chinesas. E que a proposta  resulta do cansaço destas cinco potências emergentes quanto à falta de reformas na governação das instituições económicas internacionais, atribuindo-lhes maior voz e voto.

Reforma voz e voto no FMI e BM

O sucesso desta instituição vai depender de muitos fatores. O principal será sem dúvida o segundo desafio: a sua credibilidade. Não é suficiente representar 26% da superfície terrestre, 42% da população, 20% do PIB, 15% das trocas comerciais e 50% do crescimento económico mundial. Ou que a economia dos cinco países vá duplicar a dos EUA, França e Alemanha em 2017. Os cinco países partilham muitos interesses económicos e comerciais, mas têm sistemas políticos, sociais e culturais muito diferentes.

Chefes de Estado russo e chines

Standard Bank escrevia há umas semanas que “the BRICS bank’s relevance will depend on its effectiveness and specialisation. Rather than posture as a common denominator or create overlapping agendas with other development finance institutions and BRICS state policy banks, including Brazil Development Bank (BNDES), China Development Bank (CDB), the Vnesheconombank (Banco de Desenvolvimento e Atividade Económica Exterior da Rússia), and Export-Import Bank of India, the Bank will need flesh on its bones before we shift from cautious optimism.”

Centrais nuclearesCom certeza o Banco BRICS vai financiar quase exclusivamente infra-estruturas (e respetivos estudos de viabilidade). Com certeza o Banco BRICS vai ocupar aqueles nichos de mercado que não são financiados pela Banca Multilateral de Desenvolvimento tradicional. Quais? Biocombustíveis, energia nuclear, centrais elétricas a carvão, determinadas centrais hidroelétricas…

Com um capital esperado de 50 mil milhões de dólares, partilhado a partes iguais pelos cinco países, e sendo esse capital realizado (pago e não apenas comprometido), o Banco BRICS ocuparia o quinto lugar em termos de capital subscrito entre os principais Bancos Multilaterais de Desenvolvimento mundial. Ocuparia no entanto o segundo lugar em termos de capital realizado, que determina a sua capacidade de alavancagem de capitais nos mercados (logo a sua capacidade de empréstimo dado o risco associado).

Analise comparativa dos principais Bancos Multilaterais de Desenvolvimento

Apesar d meu ver, as consequências são potencialmente catastróficas para o Banco Mundial e para o Fundo Monetário Internacional. Este novo concorrente directo no mercado, com uma capacidade de empréstimo significativa e sem as condicionalidades próprias do BM, FMI e dos outros principais bancos multilaterais de desenvolvimento, tem o potencial para alterar o curso das atuais reformas em curso nos países emergentes e em desenvolvimento.

Como tem vindo a ser observado no caso do relacionamento entre o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) e o Banco Inter-americano de Desenvolvimento (BID), os países beneficiários estão dispostos a pagar um mais para ter acesso a financiamento de forma mais rápida e com menos condicionalidades e cláusulas de salvaguarda. Sobretudo no caso de infra-estruturas chave para os seus processos de desenvolvimento. [preço mais elevado porque o Banco BRICS, como a CAF, dados os seus acionistas, não deverá receber a classificação máxima de AAA por parte das agências de notação.]

Analise comparativa dos principais Bancos Multilaterais de Desenvolvimento

Como nota cómica, poderiamos também concluir que o sucesso do Banco BRICS vai depender unicamente da repartição das responsabilidades na governação da instituição: sucesso garantido se houver um relações públicas brasileiro, um diretor operacional chinês, um diretor financeiro sul-africano, um diretor informático indiano e um diretor de recursos humanos russo. Fracasso garantido se houver um diretor financeiro brasileiro, um diretor de recursos humanos chinês, um diretor informático sul-africano, um diretor operacional indiano e um relações públicas russo.

Banda desenhada dos BRICS

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2 respostas a O Banco BRICS: um relações públicas brasileiro, um diretor operacional chinês, um diretor financeiro sul-africano, um diretor informático indiano e um diretor de recursos humanos russo

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