Tailândia e Mianmar: Amizades perigosas

Amizades perigosas

Segundo o Instituto de Estatística tailandês, a economia tailandesa registou no quarto trimestre de 2012 a maior taxa de crescimento year on year (18,9%) desde que o país começou a compilar estes dados em 1993. Muito embora este valor se deva em grande medida ao efeito de base advindo das cheias catastróficas que inundaram Bangkok e as suas extensas indústrias automóvel e de componentes eletrónicos doze meses antes, a verdade é que a sua economia encerrou 2012 com uma taxa de crescimento do seu PIB de 6,4%, significativamente além dos 5,4% projetados pelo Dow Jones Newswires.

Fabrica da Ford na Tailandia

O país está a renascer, após meia década de crise política e económica. O plano extensivo de desenvolvimento, com uma forte componente de infra-estruturas, que o antigo primeiro-ministro Thaksin Shinawatra estava a preparar antes de golpe de Estado monarquista de 2006 está a ser sabiamente retomado pela sua irmã, a atual primeira-ministra, Yingluck Shinawatra (curiosamente, Thaksin continua a ser um fugitivo internacional em Dubai, acusado de corrupção no seu país). Ponhamos o exemplo das negociações que decorriam em 2006 com o Laos e a China sobre a ligação ferroviária que iria ligar esta última a Laem Chabang, o porto de mercadorias de Bangkok. A Tailândia tenciona investir cerca 77 mil milhões de dólares até 2020 em 55 novos projetos que situem o país como centro logístico do Sudeste Asiático, beneficiando da comunidade económica dos dez países da ASEAN que deverá entrar em vigor já em 2015 (e da qual falaremos num futuro posting).

Rede ferroviaria do Sudeste Asiatico continental

Contudo, o ponto fraco da estratégia de desenvolvimento da Tailândia, para além da construção de infra-estruturas de proteção face a futuras cheias em Bangkok (a primeira fase da construção, por um montante de 11,7 mil milhões de dólares, teve início em janeiro), é, sem dúvida, a sua política energética.

A dependência mútua entre a Tailândia e o Mianmar pelo gás natural deste último é supreendente e sem dúvida insustentável.

70% da geração energética doméstica da Tailândia tem origem em gás natural. E 25% deste gás natural tem como origem o Mianmar. O normal encerramento para manutenção do jazigo offshore de gás que a francesa Total tem em Yadana, no Mianmar, previsto que decorra entre 5 e 14 de abril próximos, irá reduzir em cerca de 25% o fornecimento de gás natural na Tailândia. Em consequência, a capacidade de geração de energia da Tailândia ver-se-á reduzida nesse período de 33.400 MW a 27,000 MW, ligeriamente acima apenas da procura projetada. A primeira-ministro tailandês tem vindo à comunicação social solicitar aos seus cidadãos que maximizem a poupança de energia nesses dias. Caso contrário, e sendo abril o mês mais quente do ano e onde os aparelhos de ar condicionado operam na sua máxima velocidade, as cidades tailandesas poderão vir a sofrer apagões pontuais generalizados. Pelo sim, pelo não, a autoridade de geração elétrica tailandesa já solicitou um aumento da oferta energética com origem na Malásia e um aumento de produção aos operadores domesticos privados. A manutenção da planta de Yadana até foi atrasada um dia face ao calendário previsto para coincidir com as celebrações do Chakri Memorial Day (com o menor consumo energético associado).

Chakri Memorial Day

Mesmo se a Tailândia conseguir ultrapassar este problema no curto prazo, as necessidades de aumentar a oferta energética no longo prazo são também impressionantes. Os especialistas projetam uma procura energética de 70.000 MW em 2030 (mais do dobro da atualmente existente). Algo assustador se acrescentarmos que as reservas de gás no Golfo da Tailândia devem esgotar nos próximos 12 a 15 anos. O país passará assim a importar todo o gás natural necessário para alimentar um energy mix que o plano de desenvolvimento energético prevê que dependa ainda em 46% de centrais de ciclo combinado.

Pipeline de gas natural

Refira-se que, do lado de Mianmar, os dados não são menos impactantes.

Muito embora o país esteja a sair de várias décadas de isolamento internacional, com uma agricultura pouco mais do que de subsistência e um tecido manufactureiro quase inexistente, a verdade é que entre 2006 e 2010, metade das exportações do Mianmar tiveram como destino a Tailândia (14 mil milhões de dólares num total de 28 mil milhões). E destas, cerca de 92% eram gás natural. A CIA estima que Mianmar tenha umas reservas de 50 milhões de barris de petróleo e 283 mil milhões metros cúbicos de gás natural. Para dar uma ideia da magnitude, a Tailândia importa de Mianmar cerca de 27 milhões de metros cúbicos por dia, pelo que este último, por si só, poderia alimentar a Tailândia durante os próximos trinta anos.

Em definitivo, se o plano tailandês de desenvolvimento de infra-estruturas avançar, este poderá servir de base a uma estratégia económica e de negócios estrangeiros que coloque a Tailândia à frente da comunidade económica ASEAN, simplesmente o terceiro maior mercado mundial.

Bandeiras ASEAN

Até à data, pouco se fez para garantir a segurança energética do país. Apenas algum avanço em energias renováveis. Os planos são de acrescentar 5.600 MW com origem energias em renováveis entre 2017 e 2022 (3.700 MW em biomassa, 800 MW em energia eólica, 500 MW em energia solar, 300 MW em hidroelétrica e outros 300 MW em waste-to-energy e hidrogénio) e que, em 2021, 25% da geração energética tenha origem em energias renováveis. Só a energia solar deverá ser responsável nesse mesmo ano por 2.000 MW, apesar de o país ter uma das feed-in tariffs mais reduzidas da região.  Como exemplo, a Tailândia acaba de inaugurar o maior parque eólico da ASEAN, West Huay Bong 2 e 3, que irá gerar 180 mil kilowatts de eletricidade, inaugurado há duas semanas pela primeira-ministra.

A primeira-ministra Yingluck Shinawatra

Pode ser que uma série de apagões em abril, numa época festiva, obrigue os políticos tailandesas a atacar o problema.

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