Como a hegemonia do Japão na Ásia poderia começar a ser contestada

Haruhiko Kuroda anunciou hoje oficialmente ao Conselho de Administração do Banco Asiático de Desenvolvimento, do qual faço parte, que renuncia ao cargo. Ainda hoje, poucas horas antes do seu anúncio, o primeiro-ministro do Japão Shinzo Abe tinha anunciado a sua nomeação como candidato governamental ao posto de Governador do Banco Central do Japão. Os desafios que irá enfrentar no seu novo posto serão muitos (ver o nosso posting de ontem a esse respeito).

Haruhiko Kuroda escuta

Mas também poderiam ser significativos os desafios que enfrentará o Japão para manter a sua hegemonia à frente do leme do Banco Asiático de Desenvolvimento (BAD). Muito embora a carta da instituição apenas refira que o Presidente terá de ser nacional de um país acionista regional do Banco, os oito Presidentes que o Banco tem tido ao longo dos seus quarenta e sete anos de história têm sido sempre de nacionalidade japonesa.

Presidentes do BAD

Cabe aos 67 Governadores do Banco, um por cada país acionista (o Ministro de Estado e das Finanças Vitor Gaspar em representação de Portugal), eleger por votação (maioria simples) o novo Presidente. Aquando da última mudança no lugar mais importante da instituição, foi no mesmo dia em que Tadao Chino apresentou a sua demissão como sétimo Presidente do Banco, a 31 de agosto de 2004, que o Ministro das Finanças do Japão e Governador por aquele país ao BAD enviou uma carta a todos os seus análogos a solicitar o seu apoio à nomeação de Haruhiko Kuroda como novo Presidente do Banco. O objetivo era claro. Evitar ruido e diminuir o tempo disponível para que outros países regionais preparem eventuais manobras para avançar com um candidato alternativo.

Em 2013, o peso económico e a influência na região é muito diferente do que era há quarenta e sete anos. Neste período, é possível observar como o peso relativo do Japão no continente tem vindo a ser reduzido. Vejamos o caso dos últimos dez anos como exemplo no mapa aqui apresentado, bem como a previsão para 2015 em paridade do poder de compra (obrigado João Farinha por partilhar).. E não esqueçamos que a China ultrapassou o Japão como a maior economia da Ásia em 2010.

Comparação entre PIB mundial em 2000 e em 2010

Mapamundi com o peso economico em paridade de poder de compra em 2015

No entanto, o peso relativo dos principais países regionais no capital do BAD não tem sofrido alterações desde a sua entrada no Banco. Japão, EUA, Europa, Canadá, Austrália e Nova Zelândia detêm no seu conjunto quase 60% do capital do Banco. E isso é um forte impedimento para que um não japonês ocupe o posto de Presidente da instituição. Pelo menos até que Washington DC (com 15,65% do capital) deixe de apoiar o candidato de Tóquio.

EUA apoia Japao

Para aspirar a essa posição, a China deveria ainda aumentar significativamente as suas contribuições para o fundo concessional do Banco para os países mais pobres da região, o Fundo Asiático de Desenvolvimento, em consonância com o seu peso económico. No entanto, na última reconstituição de recursos do Fundo, a sua contribuição apenas representou cerca de 0,77% do total, muito aquém dos 35% do Japão, 11% da Austrália ou 2,89% da Coréia do Sul.

A meu ver, é ainda cedo para a China (ou eventualmente a Índia, Coréia do Sul ou Indonésia) contestar a hegemonia japonesa no BAD, pelo que o novo Presidente será sem dúvida japonês. Até o ministro das finanças indonésio tem manifestado o seu apoio a um eventual candidato nipônico. Mantendo a tradição, o candidato melhor colocado para ocupar o cargo é Takehiko Nakao, atual secretário de estado adjunto para as relações internacionais no Ministério das Finanças.

Vitor Gaspar como Governador do BAD

Se se repetir a história, Vitor Gaspar deverá receber ainda hoje uma carta do seu homólogo Tarō Asō a solicitar o seu apoio à nomeação de Nakao como novo Presidente da instituição já na próxima reunião anual do Banco, que irá ter lugar em Nova Deli de 2 a 5 de maio. Aso tinha já posto as cartas na mesa no início desta semana quando disse “We would have to carry out election campaigning in various forms from now so Japan would be able to grab the ADB president’s position.”

De um ponto de vista bilateral, os dois países, a China e o Japão, continuam de costas voltadas. Com a luta dialética e diplomática entre a China e o Japão provocada por disputas territoriais ainda quente, a delegação chinesa optou por não se fazer representar ao mais alto nível nas reuniões anuais do Banco Mundial e do FMI em outubro. Já em fevereiro deste ano, tomou a mesma decisão quanto à participação chinesa numa conferência de doadores para a Palestina, que decorreu no Japão. Do lado japonês, ainda há alguma resistência a prioritizar o G20 sobre o G8 (que exclui a China) e a preferência nas negociações de integração comercial regional vai para a Parceria Transpacífica (que também exclui a China).

China contra o Japao

De um ponto de vista multilateral, a China não tem mostrado de facto especial interesse em equiparar a sua presença em lugares de liderança em organizações internacionais ao seu peso económico. Veja-se o caso da recente eleição do novo Presidente do Grupo do Banco Mundial, no qual não só não avançou com um candidato, numa altura em que muitos países emergentes acreditavam que poderiam contestar pela primeira vez a hegemonia norte-americana na instituição, como nem sequer apoiou um dos candidatos concorrentes, a Ministra das Finaças nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala ou o colombiano José António Ocampo. O mesmo se passou em 2011 aquando da eleição da Diretora Geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. De certa forma, a mesma abordagem tem vindo a ser seguida pela China nos seus investimentos estratégicos em empresas pelo mundo fora. Raramente mudam a equipe gestora da empresa onde investem (veja-se o caso da REN ou da EDP). Apenas tomam posição.

A China mantêm-se para já apenas à espreita.

China espera

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