Como a Austrália é engolida pela força da gravidade

O governo australiano divulgou a 28 de outubro passado um “Livro Branco” intitulado “A Austrália no Século Asiático” . A apresentação foi merecedora da maior atenção por parte da comunicação social australiana. Até ao ponto que esta foi liderada pela própria Primeira-Ministra.

Julia Gillard

Julia Gillard, que outrora teria caraterizado os negócios estrangeiros com algo “menos interessante”, referiu aos presentes frases tão categoricas como “adapting to Asia’s unstoppable rise is “the next chapter in our nation’s story”. De facto, e num momento em que o centro de gravidade global se traslada para a região da Ásia, a até agora sensação de distância está a ser substituída por uma perspetiva de proximidade.

Parodia da nova politica australianaO documento enumera 25 objetivos que a Austrália deve cumprir em 2025. Dentre estes, são de destacar três: (i) todas e cada uma das escolas australianas devem estar associadas/geminadas a uma outra escola asiática (e os seus estudantes encorajados a aprender uma outra lingua asiática, com destaque para o mandarin, hindi, bahasa ou japonês), (ii) facilitar a obtenção de vistos para visitar a Austrália, e (iii) pelo menos um terço dos funcionários públicos de topo e dos membros dos Conselhos de Administração de empresas públicas serem peritos em assuntos asiáticos.

A reação da comunidade empresarial tem sido muito positiva. Outro tipo de reação seria uma surpresa num contexto em que a Austrália deve em grande medida a sua resistência à desaceleração económica global, sem recessão, à procura das suas matérias-primas por parte da China. As exportações da Austrália para a China aumentaram o seu valor em 33 vezes nos últimos vinte anos. Em 2012, a China representava cerca de 28% das exportações australianas (fortemente concentrada em minério de ferro e carvão). De uma forma geral, a exploração mineira absorve cerca de dois terços das exportações da Austrália para a Ásia. Como consequência, observamos como o dólar australiano valorizou em cerca de 40% entre 2008 e 2012.

A economia australiana

Precisamente quanto à China, o documento refere explicitamente (!) que a ascensão da China e o seu crescimento militar são um “natural, legitimate outcome of its growing economy and broadening interests”. De facto, um estudo recente do Lowy Institute concluiu que a maior parte dos australianos não considera a China uma ameaça militar.

O objetivo de fundo da estratégia é o de tornar a Austrália mais competitiva na produção de bens de consumo e serviços para satisfazer a crescente classe média asiática, designadamente em setores como alimentação, educação e serviços financeiros.

O polvo australianoMas o documento deve ser interpretado não apenas como o traçar de uma estratégia de futuro em resposta à previsão que aponta para que a região da Ásia e do Pacífico acolha metade da classe média do mundo já em 2030, mas também como um resultado das alterações observadas na sociedade australiana. Não é novidade que 27% da população australiana tenha nascido fora da Austrália. É novidade no entanto que o lugar preponderante da Europa em matéria de imigração tenha vindo a diminuir significativamente. Sete dos dez maiores países origem dos imigrantes australianos em 2011 e 2012 eram asiáticos (Índia em primeiro lugar, China em segundo). Nesse período, o mandarim ultrapassou o italiano e o grego como a língua mais falada depois do inglês.

A Austrália está de facto localizada no lugar certo, no momento certo, isto é, na região da Ásia e do Pacífico no século da Ásia.

Australia and the Asian Century

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Uma resposta a Como a Austrália é engolida pela força da gravidade

  1. Enrique Galán diz:

    A Austrália anunciou posteriormente, a 24 de abril de 2013, a intenção do seu Banco Central em investir 5% das suas reservas cambiais em dívida soberana chinesa, como sinal de aproximação entre ambos os países: http://www.ft.com/intl/cms/s/0/f679dad8-aca0-11e2-9454-00144feabdc0.html#axzz2RMLQlXO3

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