Abenomics? Não, não é um filme de terror

Não. É a alcunha que foi dada à política económica do novo primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. E é talvez o princípio de uma nova guerra cambial mundial.

Guerra cambial

No dia da sua tomada de posse no cargo, a 26 de dezembro passado, Abe foi muito claro. A sua política económica teria como objetivo principal acabar radicalmente com duas décadas de estagnação e deflação na economia japonesa, em resultado, em terminologia de economista, de uma armadilha de liquidez clássica. E no primeiro mês de mandato, Abe tem demonstrado amplamente que vai perseguir objetivos de crescimento e de alguma inflação sem medir esforços. Os pilares da política mudaram.

Primeiro-ministro Abe

O termo Abenomics passou a ser utilizado como uma mistura de uma política monetária ousada e de uma política orçamental flexível, concentrada numa forte expansão do investimento pública e, claro, por uma marcada desvalorização do iene, resultado de uma política monetária também ela marcadamente expansionista.

No primeiro dos casos, a política orçamental, Abe já anunciou, no encerramento da primeira reunião do novo Conselho para a revitalização da economia, um amplo pacote de emergência de estímulo à economia, por um montante próximo dos 165 mil milhões de euros (algo assim como o PIB anual português). A estimativa do primeiro-ministro é que este representará um incremento de dois pontos percentuais sobre o PIB japonês (sem a especificação do período em que isso ocorrerá) e a criação de cerca de 600 mil empregos. O Banco de Investimento japonês Namura prevê que o impacto na economia em 2013 seja de 0,8 pontos percentuais no crescimento do PIB. Deste pacote, 10,3 biliões de ienes (cerca de 90 mil milhões de euros) ocorrerão em despesa pública adicional para estimular a atividade industrial, a inovação e o investimento em energias renováveis, reconstruir as áreas devastadas pelo tsunami de 2011 e obras de prevenção de desastres, além de investimentos em segurança social e educação. Outros 2,8 biliões de ienes (23 mil milhões de euros) terão por destino o fundo estatal de pensões. A expansão do orçamento público será financiada pela emissão de novos títulos soberanos e por fundos e reservas do governo.

Peso intergeracional da dívida públicaNo entanto, a julgar pelo enorme défice da conta corrente japonesa observado em novembro, ainda falta muito para recuperar a necessária competitividade da economia e, através dela, a rota do crescimento. Refira-se que a dívida soberana japonesa representa mais de 230% do seu PIB, sendo o país mais endividado do mundo.

No segundo dos casos, a política monetária, a mudança é mais radical. E põe em causa a própria independência do Banco Central do Japão (BdJ), pela primeira vez desde que esta se tornasse operacional em 1998. Abe fez referência na sua tomada de posse ao facto de que o BdJ deveria aumentar o seu objetivo de inflação de 1% para 2%. E foi na forma de ultimato. Caso esta decisão não fosse tomada na reunião do Conselho do Banco a 22 de janeiro, Abe mostrou o seu compromisso em retirar dos próprios estatutos da instituição essa independência. O recado foi para o Governador do BdJ, Masaaki Shirakawa, conservador e que abandonará o seu cargo em abril, no início do novo ano fiscal japonês, mas também para o seu sucessor.

Banco Central do Japão

Quatro são os candidatos mencionados na imprensa local como aqueles em melhor posição para esta nomeação: (i) Kazumasa Iwata, académico e antigo vicegovernador do Banco Central; (ii) Takatoshi Ito, professor da Universidade de Tóquio; (iii) Haruhiko Kuroda, Presidente do Banco Asiático de Desenvolvimento; e (iv) Toshiro Muto, do Ministério das Finanças e também ele antigo vicegovernador do Banco Central. A respeito desta escoha, o primeiro-ministro japonês apenas tem referido que não existem pre-condições quanto ao background do futuro Governador do BdJ, mas que este deverá respeitar o objetivo de inflação de 2% e ter uma forte capacidade de comunicação (inclusive internacional).

Namura classificava o perfil destes quatro candidatos no seu boletim diário de 29 de janeiro.

A corrida ao cargo de Governador do Banco Central do Japão

Em definitivo, parece que os próximos anos vão ser uma boa altura para viajar ao Japão. Tradicionalmente um país caro para o turista, vamos ter de agradecer ao primeiro-ministro japonês que as visitas ao país do sol nascente fiquem mais em conta para os nossos bolsos. Sobretudo se o candidato escolhido for Iwata ou Ito.

Para já, o iene desvalorizou para o dólar americano em cerca de 16% em pouco mais quatro meses, tendo passado de 78 ienes em outubro para 91 ontem (como referência històrica, refira-se que a moeda nipónica cotava a cerca de 250 ienes por dólar em meados da década de 80).

Depreciação do iene desde a eleição de Abe

Refira-se que as políticas monetárias expansionistas dos Bancos Centrais do Japão e da Inglaterra, bem como da Reserva Federal norte-americana tem gerado muitas e fortes críticas dos denominados países emergentes, que vêem a competitividade das suas economias prejudicada pela valorização relativa das suas moedas. E já se fala numa guerra cambial mundial. Mas isso será objeto de um outro post.

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4 respostas a Abenomics? Não, não é um filme de terror

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