O Eldorado do século XXI

Em meados de janeiro decorreu, em Madrid, a apresentação do anuário do Instituto Cervantes na qual participu o Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação espanhol, José Manuel García-Margallo. Teria sido um evento institucional como outro qualquer, se não fosse pela intervenção particularmente eloquente do Ministro.

José Manuel García-Margallo

No discurso, Margallo descreve a região da Ásia e do Pacífico (uma região na qual a Espanha não tem passado colonial a não ser nas Filipinas, e onde desse passado pouco mais resta do que algumas igrejas, uma fortaleza em Manila e os apelidos herdados) como o Eldorado do século XXI, numa referência ao lugar mítico da América que fomentou as fantasias de enriquecimento dos colonizadores espanhóis no século XVI.

Road to El Dorado

Segundo o Ministro, aquela região acolhe os países mais prometedores e que mais oportunidades apresentam em termos de crescimento económico . A título exemplificativo, o Reino Unido demorou mais de cem anos a duplicar o seu produto interno bruto (PIB), enquanto que a Alemanha e os EUA demoraram 60 anos a fazê-lo. Já a China e a Índia vão alcançar esse feito em apenas dez anos. Para não falar nos dez países do Sudeste asiático que, com 600 milhões de habitantes, representariam hoje em dia a nona economia mundial se considerados no seu conjunto. O protagonismo da região irá acelerar ainda mais no futuro, tendo por base o crescimento da sua classe média e a redução da pobreza. Como corolário, os problemas da Ásia serão os problemas do mundo.

Margallo referiu que a Espanha chega relativamente tarde a uma região onde existe já uma forte concorrência, razão pela qual deve duplicar o seu esforço, para recuperar o tempo perdido.

Chegar tarde

Neste sentido, o Ministro afirmou categoricamente o seu propósito de encerrar as embaixadas e representações comerciais espanholas menos rentáveis para aumentar significativamente a sua presença na Ásia. E afirmou também que a Espanha está a desempenhar um papel de liderança na União Europeia no que toca à redefinição dos acordos comerciais euro-asiáticos.

Foi no entanto com a referência à futura lei de acção exterior, que tem por objetivo diminuir a atomização dos agentes institucionais Foco em Asiaespanhóis no exterior, que exercem tarefas diplomáticas, de internacionalização económica e de projecção da imagem da Espanha, que o Ministro mencionou e explanou a constituição de um Conselho de Política Externa. Este, sob a presidência do Primeiro-Ministro, reunirá todos estes agentes para elaborar e implementar uma estratégia de internacionalização com um horizonte temporal de quatro anos, e que colocará um especial ênfase na Ásia.

Paulo Portas na ChinaÉ bom ver que Portugal se antecipou à Espanha na aprovação deste tipo de medidas, nomeadamente com a constituição do Conselho Estratégico de Internacionalização da Economia (CEIE), aprovado em Outubro de 2011. E é igualmente bom constatar que as deslocações de membros do Governo à Ásia em atividades de promoção do nosso país têm aumentado de forma significativa nos últimos meses, e todas elas acompanhadas de comitivas empresariais. Às recentes visitas do Ministro dos Negócios Estrangeiros à China e ao Azerbaijão, acrescidas de uma visita relâmpago ao Cazaquistão, e do Presidente da República à Indonésia, Timor-Leste e Singapura, são de acrescentar aquelas que Paulo Portas vai realizar em março à Índia (4 a 8 de março, designadamente 4 e 5 em Deli, 6 em Bombaim e 7 em Goa) e ao Japão (27 a 29 de março), bem como à Coreia do Sul no futuro próximo.

Devemos no entanto ser igualmente visionários na definição de uma estratégia coerente e eficaz, de políticas públicas e iniciativas privadas devidamente articuladas, que evite que Portugal marque passo nesta competitiva corrida internacional ao novo Eldorado. Apesar de termos estados na origem da primeira globalização, as nove embaixadas portuguesas na Ásia (Banguecoque, Beijing, Dili, Islamabade, Jacarta, Nova Deli, Seul, Singapura e Tóquio) representam apenas 10% do total das embaixadas portuguesas. Quase as mesmas que Portugal possui no Médio Oriente: seis.

O nosso atraso nesta corrida é significativo.

No entanto, é de louvar a aposta relativa da aicep Portugal Global na Ásia nos últimos anos. As delegações daquela agência na Ásia representam cerca de 15% do total, sendo que a sua presença na região tem vindo a aumentar progressivamente: de quatro em 2004 (Beijing, Macau, Xangai e Tóquio) têm passado a sete em 2013 (tendo sido acrescentadas Kuala Lumpur, Jacarta e Nova Deli).

Rede aicep Portugal Global

A meu ver, deveria ser considerada e analisada uma maior presença (de preferência sem embaixada, apenas com escritório da aicep Portugal Global, com um custo de instalação muito inferior, como no caso de Kuala Lumpur) no Cáucaso, na Ásia Central, em Seul, nas Filipinas e no Vietnam. Parecem sem dúvida opções mais óbvias do que Embaixadas no Chipre, Uruguai, Irão, República Democrática do Congo ou Zimbabué.

Esta entrada foi publicada em Alemanha, Azerbaijão, Índia, Cazaquistão, China, Chipre, Coreia do Sul, Espanha, Filipinas, Indonésia, Japão, Malásia, Reino Unido, República Democrática do Congo, Singapura, Timor-Leste, Uruguai, Zimbabué com as etiquetas , . ligação permanente.

3 respostas a O Eldorado do século XXI

  1. Rui diz:

    Duas questões:
    – O PIB da China tem crescido nas últimas 3 décadas em média 10% por ano, o q significa q tem duplicado cada 7.3 anos. No últimos 10 anos, durante a presidência de Hu Jintao, li q quadruplicou. Então porquê “a China e a Índia vão alcançar esse feito [duplicar o PIB] em apenas dez anos”? A China já não o tem feito, e em menos de 10 anos?
    – A AICEP não tem tb uma delegação em Xangai?

  2. Enrique Galán diz:

    Muito obrigado, Rui, pelo teu comentário. Estatisticamente, se um determinado país parte de uma base 100 e cresce 10% ao ano de forma constante ao longo de trinta anos, demora, ceteris paribus, como bem referes, 7,3 anos a duplicar o seu produto. No final dos trinta anos, terá um produto cerca de 17,5 vezes superior ao inicialmente observado. No caso da China, como nos casos do Reino Unido e da Alemanha, o número de anos depende do ponto de partida da análise. Eu estimei-o de forma retroativa com início em 2011. Quanto ao segundo comentário, em muito agradeço a deteção dessa gralha, que foi entretanto corrigida. Queria fazer referência a Xangai e não Seul. Espero que o Filipe Costa saiba perdoar-me essa gralha. Um abraço

  3. Pingback: 260 mil chineses em Angola | O Retorno da Ásia

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