O que pode a Índia esperar da nova liderança chinesa em termos de política externa?

Hoje temos outro convidado. Jabin Jacob do Instituto de Estudos Chineses em Nova Deli e autor do blogue (com um nome nada politicamente correcto mas que tem uma razão de ser…é ler a introdução) CHINAMAN. Neste texto, com quase dois meses de atraso, mas que só agora consegui traduzir (de forma muito livre), fala-nos do que pode esperar a Índia da nova liderança chinesa. O texto foi originalmente publicado no Business Bhaskar de 27 de Novembro de 2012 e está disponível aqui:

A China presenciou uma grande transição de liderança com a ascensão de Xi Jinping, após Hu Jintao, ao cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista da China no 18º Congresso Nacional. Xi passa também a presidir à Comissão Militar Central, uma posição importante que o coloca à frente do Exército de Libertação Popular, e assumirá em Março de 2013 a sua terceira posição formal como Presidente da China.

Como é que poderá ser a política externa chinesa com esta nova liderança? Logo à partida, devemos ter em mente que para os líderes chineses os seus maiores desafios serão domésticos e que por isso a política externa não poderá nunca receber uma grande atenção e de forma completa.

E mesmo nesta questão de política externa, Pequim estará muito mais preocupada com as relações que tem com os Estados Unidos do que com qualquer outro país. Um possível e renovado interesse Americano pela Ásia Oriental já tinha sido assinalado na primeira administração Obama com a sua apelidada estratégia de reequilíbrio. Muitos analistas chineses estão agora preocupados com a possibilidade de Washington tomar uma posição mais dura contra a China na Ásia após a reeleição de Obama.

Neste contexto, enquanto a Índia não receberá tanta atenção quanto os Estados Unidos, irá certamente receber maior atenção nos próximos dez anos do que até agora. Para os analistas e decisores políticos chineses, a ascensão política e económica da Índia já é amplamente reconhecida e a China gostará também de poder beneficiar o mais possível com esta ascensão.

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Se por um lado, a China gostaria de ganhar com o crescimento económico da Índia aumentando as suas próprias relações comerciais e investimentos com este país, por outro lado, Pequim gostaria de prevenir qualquer esforço Indo-Americano de conter a China. Entretanto, é possível que o descontentamento social massivo criado pelos problemas domésticos chineses como a corrupção, desigualdade de rendimento, e disparidades regionais possa tentar os novos líderes chineses a usar as disputas em termos de política externa como forma de virarem as atenções dos problemas internos.

Notícias recentes de que a China tinha começado a emitir passaportes electrónicos contendo um mapa da China incluindo os territórios em disputa no Sul e Sudeste da Ásia não devem ser vistas domo surpreendentes. Enquanto a Índia respondeu emitindo vistos a cidadãos chineses com um mapa da Índia incluindo Arunachal e Aksai Chin como seus territórios, existem outros assuntos mais sérios com os quais os dois países têm de lidar no futuro.

Primeiro, dada a instabilidade recorrente no Tibete, os líderes chineses serão obrigados a prestar atenção às actividades do Dalai Lama e ao governo no exílio na Índia. Entretanto, os programas massivos de desenvolvimento de infra-estruturas no Tibete provavelmente continuarão por razões económicas e militares. Isto é capaz de ser correspondido pela melhoria das suas próprias infra-estruturas de defesa na fronteira. Juntos, estes dois factores podem aumentar as tensões na relação bilateral.

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Segundo, os americanos retiram-se do Afeganistão em 2014. Esta é uma situação que poderá muito bem levar a maior instabilidade na região Afeganistão-Paquistão. Como é que a China decidirá agir nesta situação será crucial. Será que a China tentará gerir a situação através de uma aliança mais próxima com o Paquistão ou reconhecerá que o aparato de segurança paquistanês é parte do problema? Lembre-se que alguns dos problemas da China na província de Xinjiang tem as suas origens no Paquistão. Muitos dos separatistas islâmicos de Xinjiang foram treinados em madrassas e campos terroristas  no  Paquistão. Finalmente, Pequim deve reconhecer que a cooperação com a Índia será necessária para qualquer solução de longo prazo e sustentabilidade na região Afeganistão-Paquistão.

Terceiro, é inevitável que a influência da China no Sul da Ásia crescerá. Países mais pequenos como o Nepal, Bangladesh e Sri Lanka irão, claramente, aumentar as interacções políticas, económicas e sociais com a China. O Butão também poderá estabelecer formalmente relações com a China na próxima década. Não é necessariamente um jogo do tudo ou nada para a Índia ou China ou qualquer outro país envolvido. Se a Índia não tem conhecido ajudar ao rápido desenvolvimento económico no resto do Sul da Ásia, provavelmente poderá alcançar isto em conjunto com a China.

Quarto, a China tem ambições em expandir a sua presença marítima no Oceano Índico nos próximos anos. A China já é uma das maiores construtoras de navios mas a sua marinha continua a ser fraca em comparação com a marinha Indiana. Na próxima década, no entanto, a diferença poderá esbater-se à medida que a marinha chinesa crescer com a ajuda de cada vez mais elevados orçamentos para a Defesa. Nova Deli poderá, no entanto, usar a oportunidade oferecida pela actual diferença em capacidades para desenvolver uma parceria cooperativa com a marinha chinesa através da qual as duas marinhas poderão realizar exercícios conjuntos ou mesmo acções de emergências humanitárias.

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Enquanto a Índia deve continuar a sua própria modernização militar e sentir-se livre para desenvolver parcerias e laços de cooperação com os Estados Unidos e com os muitos vizinhos da China, também deve em simultâneo revelar uma vontade de trabalhar com a liderança chinesa no conjunto vasto de questões políticas, económicas, militares e sociais.

Só uma China estável e próspera será uma China pacífica e amiga. A Índia só pode ganhar com tal China.

Sobre Luis Mah

Investigador no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Lisboa. Sou também professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
Esta entrada foi publicada em Afeganistão, Índia, Bangladesh, Butão, China, EUA, Nepal, Paquistão, Sri Lanka. ligação permanente.

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