Nova coluna de opinião dos autores de “o Retorno da Ásia”, Enrique Martínez Galán e Luís Mah, publicada este fim-de-semana no Semanário Expresso

É com muito gosto que partilhamos com todos os nossos leitores que “o Retorno da Ásia” publicou este fim-de-semana mais uma coluna de opinião no caderno de economia do Semanário Expresso.

Capa do Caderno de Economia do Semanário Expresso

O texto, intitulado “A Ásia à luz das velas“, constitui uma nova colaboração com o semanário que pretende sensibilizar e familiarizar o leitor com as mudanças e desafios do continente asiático.

Estes, pelas suas consequências nos equilíbrios económicos, políticos e militares globais, assumem sem dúvida uma especial importância para Portugal, e em particular para os seus agentes económicos.

Nesta edição abordamos os desafios geoestratégicos na região da Ásia e do Pacífico associados ao sector da energia.

Eis o texto:

A Ásia à luz das velas

Numa altura de calor extremo devido à chegada tardia das monções, a Índia experimentou em finais de julho, e em dois dias consecutivos, os dois maiores apagões da história. A quebra no fornecimento de energia afetou vinte Estados e cerca de 620 milhões de pessoas, metade da população indiana e cerca de 10% da população mundial.

Apagão na Índia

A explicação mais plausível para o apagão aponta para uma procura de energia excecionalmente alta, devida à conjunção de dias anormalmente calorosos e à chegada tardia dos monções. Mas o problema é estrutural. A infraestrutura elétrica indiana é altamente ineficiente. Estima-se que cerca de 27% da energia gerada é perdida na transmissão. Os apagões localizados são norma. A oferta máxima é superada pela procura em cerca de 9%. E a situação tem tendência a piorar, uma vez que um quarto da população, cerca de 300 milhões de pessoas, ainda não tem acesso a eletricidade.

O caso foi aproveitado tanto pelos Estados como pelo Governo central, que se acusaram mutuamente de terem sobrecarregado a rede acima das quotas acordadas. A razão é simples: na maior democracia do mundo, nenhum Governo, estatal ou central, pode dar aos seus eleitores uma solução a curto ou médio prazo. Simplesmente porque ela não existe. Eventuais medidas de eficiência energética, embora necessárias e mitigadoras, não são suficientes. São necessários investimentos maciços que permitam satisfazer o apetite voraz indiano por eletricidade.

Mas no que toca a energia, o tabuleiro geoestratégico do continente ultrapassa amplamente as fronteiras indianas.

Asia de noite

O consumo energético concentra-se no Paquistão, na Índia e no litoral chinês. Já os maiores produtores de energia situam-se no Médio Oriente, Ásia Central e Rússia, todas elas regiões limítrofes. Só o Oriente Médio, incluído o Irão, e a Rússia representam 60% e 64% das reservas mundiais de petróleo e de gás, respetivamente. A complementaridade parece óbvia. E a necessidade de integrar energeticamente as Ásias Central, de Leste e do Sul também. Esta integração, inadiável, muito terá a dizer quanto à integração e à geopolítica do continente asiático. Especialmente com um Japão pós-Fukushima, sem centrais nucleares, que precisará assumir um papel mais importante como dinamizador das grandes redes energéticas transasiáticas, tanto de forma bilateral como através do Banco Asiático de Desenvolvimento.

EDP Asia

Neste contexto, Portugal vê-se, curiosamente, favorecido pelo timing da entrada da China Three Gorges Corporation (CTG) no capital da EDP. Como primeiros sinais: a constituição da EDP Ásia, o interesse referido por António Mexia em assumir a liderança na Companhia de Eletricidade de Macau, o forte empenho da CTG em contar com a ampla experiência da EDP Renováveis na dinamização do seu portfólio de energias limpas na Ásia e, ainda, a firme estratégia da EDP em promover a participação dos seus fornecedores nacionais nas oportunidades de negócio associadas à sua internacionalização, em particular na China. Mas também se vê favorecido por outras associações menos divulgadas na comunicação social mas igualmente relevantes, como a parceria que está a ser constituida pela Martifer Solar e um grande conglomerado japonês para explorar o mercado da energia solar naquele país.

CECANão esqueçamos que o processo de construção europeia arrancou com uma tal Comunidade Europeia do Carvão e do Aço liderada pela Alemanha e pela França para lidar com as reservas da Alsácia que, como principal efeito, pôs um ponto final às habituais duas guerras por século no coração do continente europeu. Os recentes conflitos territoriais entre vários países asiáticos no Mar do Sul da China, motivados por vastos reservatórios de petróleo e de gás natural, são mais um sinal da necessidade imperiosa de se avançar para uma integração energética no continente. A ver vamos.

Enrique Martínez Galán é o representante de Portugal no Conselho de Administração do Banco Asiático de Desenvolvimento e Luis Mah é investigador no CESA-ISEG.

Refira-se que a primeira colaboração com o Semanário Expresso aconteceu a 8 de setembro de 2012, com o título “Internacionalizar não deve negar as leis da física”.

Esta entrada foi publicada em Alemanha, Índia, China, Energia, França, Irão, Japão, Paquistão, Rússia. ligação permanente.

4 respostas a Nova coluna de opinião dos autores de “o Retorno da Ásia”, Enrique Martínez Galán e Luís Mah, publicada este fim-de-semana no Semanário Expresso

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