A melhor toalha para a festa

Rita Colaço, jornalista da RTP-Antena 1 e autora do blogue Coreia do Norte, é hoje nossa convidada com este post sobre a recente visita privada à Coreia do Norte de duas conhecidas personalidades norte-americanas:

O departamento do Estado norte-americano terá revelado algum incómodo após a anunciada visita de dois amigos americanos à Coreia do Norte: Bill Richardson, ex-governador do Novo México, e Eric Schmidt, o patrão da Google.

Em Washington diz-se que dialogar com Pyongyang sem exigir compromissos em troca é perpetuar um regime com uma perigosa política nuclear.

Richardson, perito em relações diplomáticas com a elite norte-coreana, convidou Schmidt – “um amigo” – para uma “visita humanitária privada” à Coreia do Norte. Objectivos: libertar Pae Jun-Ho, um americano de origem coreana, detido desde Novembro do ano passado em Pyongyang, acusado de um delito que ainda não se sabe qual é; e pressionar o regime de Kim Jong-un a abandonar a sua política nuclear e de armamento.

Façamos uma breve contextualização. Em 2008, Bill Richardson foi um dos quase 200 nomeados para o Nobel da Paz, pela eficaz diplomacia em terrenos difíceis, como a Coreia do Norte e o Sudão.

Há quase 20 anos, em 1994, o exército norte-coreano abateu um helicóptero norte-americano que terá entrado, por engano, no espaço aéreo da Coreia do Norte, e escusou-se a dar explicações sobre o destino dos dois pilotos americanos que seguiam a bordo do aparelho. A pedido de Bill Clinton, então presidente dos Estados Unidos, Richardson serviu de mediador neste incidente diplomático e deslocou-se a Pyongyang. Soube, pouco depois, que um dos pilotos tinha morrido e conseguiu que o outro fosse colocado em liberdade.

Ninguém melhor, portanto, para trazer agora mais “um dos seus” de volta.

eric-schmidt-em-Pyongyang

O que ainda ninguém percebe muito bem é o que foi lá fazer Eric Schmidt. O próprio não se descoseu. Os analistas da geografia mais imprevisível do mundo especulam que poderá ter sido uma viagem com vista à expansão do negócio da Google. Porém, apenas a elite norte-coreana tem acesso, de forma controlada, à Internet. Os restantes cidadãos, ou nunca ouviram falar do world wide web ou então acedem a uma espécie de Intranet, com ligação às principais bibliotecas do país e às obras “literárias” da família Kim.

Que lucro dá um negócio que vive do acesso livre à informação? Porventura, a Google quer melhorar, pro-bono, a Intranet do país, Ou, então, a Google aceita as regras do jogo e cria um motor de busca mais condicionado. Ou, quase no campo da fantasia, a Google quer preparar e fidelizar 24 milhões de habitantes para o dia reunificação já que, ali ao lado, na Coreia do Sul, pouco pode fazer perante o famoso e, aparentemente, imbatível, motor de busca Naver.

À beira de um moderno computador, na Grande Casa do Estudo, com vista para o rio Taedong, em Pyongyang, Eric Schmidt e Bill Richardson ficaram espantados quando um estudante abriu a página principal da Google em busca da “cidade de Nova Iorque” ou da “wikipédia”. E assim, sem mais nada, acreditar-se-ia que a Coreia do Norte é, de repente, um país digitalmente democrático. Que aquele e cada um dos estudantes norte-coreanos é livre de pesquisar informação sobre uma das cidades mais emblemáticas do país que sempre tomaram como seu principal inimigo. Que podem saber que ali, em Nova Iorque, existe uma Estátua da Liberdade. Que a frase-chavão da Wikipedia também tem liberdade: Wikipedia, the free encyclopedia that anyone can edit. Que, a páginas tantas da Wikipédia, alguém editou, livremente, que a Coreia do Norte era um regime totalitário com um elaborado culto da personalidade.

eric-schmidt-em-pyongyang2

Convidar alguém para jantar em casa é estender-lhe a melhor toalha, o melhor serviço de mesa, os melhores guardanapos, a comida que melhor se sabe fazer. Mesmo que as prateleiras estejam vazias.

Schmidt ficou espantado mas não iludido e exortou a Coreia do Norte a abrir-se mais ao  mundo. Uma exortação, porém, já fora das “portas abertas” norte-coreanas.

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Sobre Luis Mah

Investigador no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Lisboa. Sou também professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
Esta entrada foi publicada em Coreia do Norte, Coreia do Sul, Cultura, EUA. ligação permanente.

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