A união monetária e económica asiática: como os asiáticos aprendem dos erros europeus

A Ásia mostra-se determinada em não se transformar numa zona monetária única. Mas os contornos de uma economia mais integrada e uma zona monetária asiática começam a ser mais aparentes. E os bancos centrais asiáticos mostram algum nervossismo no meio da chuvada de dólares e euros nas suas economias.

Excesso de dólares

Quando o euro foi criado, há catorze anos, muitos bancos centrais asiáticos, não apenas o chinês, olharam para esta nova moeda como a sua salvação, monetária e económica. Os agentes detentores de reservas cambiais internacionais e outros gestores institucionais de ativos nunca mais teriam de confiar apenas no dólar norte-americano como única unidade de reserva, com todas as desvantagens associadas. No entanto, o tempo tem mostrado que um euro como contrapeso e com efeitos estabilizadores no papel do dólar como unidade de troca, de valor e de reserva internacional não era mais do que uma utopia.

Neste contexto, a Ásia está agora a tentar desenvolver alternativas políticas de longo prazo para reduzir a sua dependência das duas principais moedas de reserva internacionais, o iene em menor medida e, sobretudo, o dólar.

Muitas têm sido as vozes críticas na China, Coreia do Sul, ou nas economias do sudeste asiático (e também no Brasil) das várias quantitative easing da Reserva Federal norte-americana, do Banco Central Europeu, do Banco do Japão e do Banco da Inglaterra. O apelo tem sido forte para reduzir a dependência monetária da Ásia e, com ela, as externalidades negativas importadas pelas suas economias (ver artigo que publicamos recentemente a este respeito). Chen Yulu, conselheiro do Banco Popular da China, referia há umas semanas num seminário em Beijing que a região necessita de uma “moeda núclear regional” (regional core currency) para reduzir a sua dependência do dólar norte-americano.

Dólar preocupado por perder a hegemonia

Os asiáticos têm tentando durante anos aumentar o espaço comum em áreas como a integração dos mercados financeiros, a supervisão bancária e mecanismos mútuos de crédito e de swaps. Estas tentativas têm sido amplamente dinamizadas pela atual conjuntura na área do euro (a própria iniciativa Chiang Mai duplicou os seus recursos de 120 para 240 mil milhões de dólares no passado mês de maio, em Manila, à margem da assembleia anual de Governadores do Banco Asiático de Desenvolvimento).

Por muitos anos, desde a década de 50, a Ásia olhava para a Europa como um modelo de integração. Hoje, eles não têm tanta certeza. Nas palavras de um alto funcionário anónimo de um banco central da Ásia referido pelo Official Monetary and Financial Institutions Forum (OMFIF): “Nós sempre pensamos que os europeus tinham sistemas melhores e pessoas melhores. Agora temos dúvidas se isso é assim.”

Os perigos do euro

Prasarn Trairatvorakul, o Governador do Banco da Tailândia, resumiu de forma muito educada esse pensamento numa palestra OMFIF em Londres, a 12 de Setembro. Os países do Sudeste Asiático recuperaram de forma relativamente rápida após a crise financeira asiática de 1997-98, recuperando a sua competitividade através da rápida depreciação das suas moedas e de uma maior flexibilidade económica. “No entanto, esta flexibilidade não é aplicável na Europa, dada a sua configuração de moeda única e entrando em linha de conta com as suas complexidades políticas”.

Todas essas considerações generalistas se tornam concretas quando olhamos para as enormes perdas de reservas cambiais de muitos bancos centrais asiáticos naquela crise que, após a sua recuperação pós-1998, se tornaram, de longe, os maiores detentores de reservas cambiais do mundo (os países asiáticos ocupam dez de entre os vinte primeiros lugares nesta classificação, com cerca de metade das reservas cambiais mundiais).

Reservas cambiais na Ásia

Do lados dos Bancos Centrais, a preocupação é evidente, e não apenas pela perda de poder na implementação da sua política monetária, com a entrada em massa de capitais nas suas economias, como também pelo desencontro no seu balanço entre ativo (títulos soberanos com taxas de juro reduzidas, denominados em dólares e euros, e que sofrem a perda de valor causada pela apreciação das moedas locais) e passivo (denominados em moeda local e com objeto de taxas de juro mais elevadas). A conciliação entre ambos os lados da equação tem obrigado a muitos governadores de bancos centrais da região a solicitar injeções substanciais de capital por parte do governo para fazer face às perdas patrimoniais associadas. E estes pedidos são políticamente muito sensíveis. Dificilmente gozam da simpatia da opinião pública e põem em causa a independência dos Bancos Centrais.

No longo prazo, só existem duas formas de sair deste dilema. Uma redução acentuada das reservas cambiais, que só pode ocorrer em consequência de um maior equilíbrio na economia mundial e que só pode ser alcançada a médio e longo prazo, ou o crescimento de ativos alternativos, essencialmente através da detenção de reservas cambiais em moedas asiáticas. Os bancos centrais de países como a China, Indonésia, Malásia, Coréia do Sul e Tailândia já estão a implementar a posse mútua de reservas nas moedas dos seus vizinhos asiáticos.

Reservas cambiais asiáticas

Embora estes mercados sejam pequenos e relativamente ilíquidos, a tendência é o seu crescimento. E muito embora a sua concretização possa tomar entre cinco a dez anos, a conclusão a retirar é a de que, na Ásia, as alternativas reais ao dólar e ao euro estão a começar a percorrer o seu caminho à superfície. E por razões de peso económico e político, o renminbi deverá desempenhar um papel central neste tabuleiro. A rapidez da sua ascensão depende em grande medida da decisão política da China em liberalizar a sua moeda.

A questão é apenas, e mais uma vez, “quando”.

Não se mas quando

Esta entrada foi publicada em China, Coreia do Sul, EUA, Finanças, Indonésia, Malásia, Tailândia, União Europeia. ligação permanente.

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