Os BRICS estão ai para ficar. E inspirados pelo sudeste asiático.

Os denominados BRICS – Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul – tentam acelerar a negociação de um fundo comum de reservas internacionais que deverá variar entre 50 e 240 mil milhões de dólares, dependendo da proposta que prevalecer no grupo.

Juntos, os BRICS têm reservas de cerca de 4,8 biliões de dólares (40% do total mundial) e este ano contribuiram significativamente para o reforço dos recursos do FMI.

Chefes de Estado dos BRIC

O plano de pool de reservas dos bancos centrais foi lançado à margem da cimeira de verão em Los Cabos, no México. É considerado importante no atual cenário de persistente incerteza na economia global, mas também politicamente.

Negociadores das cinco grandes economias emergentes agendaram uma teleconferência nos próximos dias para avançar na discussão e reforçar a sua proteção contra choques externos, num contexto de crescente incerteza na economia mundial. Isto apesar de a negociação ocorrer num momento em que o Brasil e a China se encontram enfrentados na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a constituição de um mecanismo de correção dos desalinhamentos cambiais que afetam o comércio.

Brasil contra a China

A ideia é preparar o terreno para um anúncio formal dos Chefes de Estado ou de Governo na cimeira dos BRICS que irá ter lugar em março na África do Sul. Nessa cimeira, deverá ser apresentado também o primeiro esboço do Banco de Desenvolvimento dos BRICS. As negociações estão a acelerar. Parece que o mínimo comum denominador foi estabelecido pela proposta da Índia de dotar a instituição com um capital inicial de 50 mil milhões (um quarto do capital do Banco Asiático de Desenvolvimento, a título exemplificativo). Falta decidir, porém, a repartição do capital, a sede e se outros países serão aceitos pelos membros. Certo é o objetivo de financiar projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável. O plano no grupo é retomas as negociações técnicas em janeiro, em preparação da avaliação dos ministros de finanças e presidentes de bancos centrais em fevereiro, na Rússia, para apresentar um proposta final aos chefes de Estado e de Governo em março na cimeira de março na África do Sul. Se assim for, como parece ser o caso, os países começarão então a negociar o texto constitutivo do banco, com enorme simbolismo político, ao reunir os principais emergentes.

Banco dos BRICS

A proposta mais ambiciosa é a da China, país com as maiores reservas internacionais do planeta. Beijing defende um fundo comum de 240 mil milhões de dólares, o mesmo montante da Iniciativa Chiang Mai, que reúne os países do sudeste asiático e que foi criada na tentativa de poder evitar ter de recorrer às instituições de Bretton Woods em caso de ajustamento macroeconómico. A experiência destas economias com as prescrições de políticas por parte do Fundo Monetário Internacional (FMI) no seguimento da crise financeira asiática de finais da década de 90 tiveram muitos custos sociais e políticos (não soa familiar à atual situação em alguns países da Europa?). A posição do Brasil está a meio caminho, defendendo que o fundo de reservas, em dólares, apenas deve ser suficientemente forte para ter credibilidade.

A Iniciativa Chiang Mai deverá inspirar fortemente a arquitetura do fundo de reservas dos BRICS. Ela permite aos seus membros, países do sudeste asiático, ter acesso a 30% dos seus respectivos limites de crédito sem as fortes condições de ajustamento requeridas num programa formal do FMI.

Iniciativa Chiang Mai - ASEAN+3

Também é considerado interessante nos meios financeiros um eventual alargamento do àmbito de atuação do papel de fundo de resposta a uma crise (como o caso da iniciativa Chiang Mai) para um fundo de prevenção, que também incluiria uma linha de crédito com este fim. Seria um desenho parecido ao da resposta da Reserva Federal norte-americana à crise de 2008, quando foram oferecidas operações de troca (swap) de moedas a vários países (no caso do Brasil, a Reserva Federal criou uma linha de crédito de 30 mil milhões de dólares, que não chegou a ser usada. Mas irá mais além, salvaguardando em toda situação a estabilidade financeira dos BRICS, especialmente num contexto em que não é claro qual a disposição e limites da Reserva Federal norte-americana para eventualmente garantir linhas de swap a economias emergentes no futuro (ver a viva discussão sobre a China na recente campanha eleitoral norte-americana).

Ambos os instrumentos (o fundo comum de reservas e o banco de desenvolvimento) deverão constituir uma parte importante da agenda do encontro bilateral entre a presidente Dilma Rousseff e o seu colega russo Vladimir Putin, em meados de dezembro em Moscovo.

Recente cimeira Rússia-Brasil

Muitas são as incertezas sobre a base técnica que justifique estas iniciativas. Mas todos nós sabemos que a vontade política se sobrepõe muitas vezes ao racional técnico (ver o caso do euro). E muitos são os comentadores que dão como nado-morto os BRICS, quer pela heterogeneidade e diferentes prioridades dos seus elementos, quer pelo recente abrandamento no seu crescimento. Mas eles estão para ficar. Por uma simples razão. São o contraparte perfeito ao qual recorrer sempre que a atual arquitetura multilateral não responda as suas necessidades (políticas e financeiras).

BRICS

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2 respostas a Os BRICS estão ai para ficar. E inspirados pelo sudeste asiático.

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