Pedras portuguesas “rolam” para a China

Não podiamos deixar de partilhar convosco a história que António Larguesa publicou este fim-de-semana no macauhub.com sobre o crescimento exponencial da indústria extrativa de rochas ornamentais portuguesas na China. Mais um caso de sucesso do potencial de internacionalização económica para a Ásia, mas também dos seus desafios.

“Com a Europa em crise, os empresários portugueses do sector das rochas ornamentais viram-se para as grandes economias emergentes. As pedras portuguesas ganham adeptos um pouco por todo o mundo, com a China a liderar a procura (mais de 54 milhões de euros em 2011).

SINOPEC

Em Beijing, a sede da China Petrochemical Corporation (Sinopec), a maior petrolífera chinesa e sexta empresa com mais receitas a nível mundial, exibe o mármore “rosa aurora” extraído da pedreira da Dimpomar, em Vila Viçosa. É um dos melhores cartões de visita para toda a fileira da pedra ornamental portuguesa, que em breve terá no mercado chinês o melhor destino para as exportações – no ano passado as vendas ao exterior ascenderam a 437 milhões de euros.

Com o mercado interno em dificuldades e alguns dos tradicionais parceiros europeus, como Espanha, a absorverem cada vez menos materiais para a construção, a China é encarada pelas empresas portuguesas do sector – são sobretudo firmas familiares  de pequena e média dimensão -, como a plataforma de salvação para a venda destes produtos com características únicas à escala global.

A China é actualmente o maior produtor, mas também consumidor de rochas ornamentais, pelo que é um mercado a fidelizar. Nos próximos 15 anos vai construir mais de uma dezena de cidades de pequena dimensão, mas maiores do que Lisboa. Outro reflexo dessa preponderância é o facto da feira chinesa do sector – a Xiamen Stone Fair – estar prestes a destronar a italiana Marmomacc, em Verona.

Xiamen Stone Fair

As vendas à China têm “composto o nível de facturação da empresa” e crescido uma média de 10 a 15 por cento ao ano desde que Luís de Sousa viajou na comitiva do então presidente da República, Jorge Sampaio, numa visita à China e se apercebeu da potencialidade do mercado. O CEO da firma alentejana, que emprega 90 pessoas e exporta 90 por cento da produção para mais de 40 países, afirma que as transacções para a China, que arrancaram no ano 2000, são “fundamentais nesta altura em que o mercado nacional tem pouco trabalho” e que aqueles “importadores muito regulares” fazem parte dos contactos mensais da equipa comercial.

No entanto, a China compra sobretudo matéria-prima, ou seja, a pedra em bloco em grandes volumes, que depois é transformada no destino com mão-de-obra mais barata. À semelhança das restantes exportadoras portuguesas, só cinco por cento do que a Dimpomar vende à China é produto acabado, que incorpora valor acrescentado e maior lucro. Um dos maiores desígnios do sector é dotar de mais-valia a matéria-prima, incorporando mais tecnologia. É que o preço por tonelada do material em bruto é quatro a cinco vezes inferior ao que segue já transformado. Os dados do INE mostram que mais de 90 por cento da pedra exportada para o mercado chinês no ano passado seguiu em bruto.

mármore português em chinês

Apesar disso, sublinha Manuela Martins, “não é um inconveniente maior porque, mesmo em bloco, os preços de venda à China têm subido imenso”. O calcário da zona Centro de Portugal, por exemplo, é o mais valorizado do mundo e o preço de venda ao mercado chinês aumentou cerca de 800 por cento nos últimos cinco anos. Ainda assim, a ANIET aconselha a indústria a “acautelar-se” na definição inflacionada dos preços, sob pena dos parceiros chineses “qualquer dia virarem-se para outros mercados”.

O dragão que voa

Brota um pouco mais de admiração pelos clientes chineses a cada tonelada de rocha ornamental produzida em Portugal – e eram 2,9 milhões de toneladas, segundo os dados mais recentes, de 2010, da Direcção Geral de Energia e Geologia. Luís de Sousa, da Dimpomar, não poupa nos elogios: “É assustador porque eles são excelentes profissionais, são pessoas de palavra que cumprem o que dizem, são muito rápidos e definitivos a tomar uma decisão e, apesar da distância, conseguem planear grandes obras com os nossos materiais”.

Outros agentes do sector acrescentam na lista de elogios o pagamento “a horas”, o pragmatismo e a facilidade no trato. O sentimento é recíproco, como atesta o director comercial da Mocamar, uma empresa familiar de Alcanede que está há 30 anos no mercado e exporta 98 por cento do que produz para 30 mercados. A China é o maior desde 2008 e no ano passado representou mais de 50 por cento da facturação. “A forma de trabalhar dos portugueses é do agrado dos chineses, que gostam que as coisas sejam muitos claras. Não há truques. Somos um país pequeno, famílias a trabalhar e aqui nada fica por dizer. E isso é muito apreciado pela comunidade chinesa”, explica Miguel Antunes.

O grande obstáculo ainda é burocrático, pela demora na obtenção de visto para os inspectores das empresas chinesas, que não prescindem de uma visita à pedreira antes da compra. O interesse pela matéria-prima portuguesa é tão grande que uma empresa chinesa – a Feilong (que significa “o dragão que voa”) – decidiu em meados de 1990 abrir “portas” em Santo Tirso e Pêro Pinheiro. Pequim, Xangai, Qingdao, Guangzhou ou Hong Kong estão entre os destinos da pedra portuguesa.

Dragão que voa

Mas é Xiamen, onde está concentrada a indústria de transformação, que absorve 80 por cento da mercadoria despachada nos portos de Leixões, Lisboa e Sines. Salvo raras excepções, todas as semanas há navios com destino ao Oriente. Perto de 800 contentores anuais são da Mocamar, que começou a vender para Taiwan em 1998 e três anos depois para o interior da China, que cresce 10 a 15 por cento ao ano. No entanto, foi quando os calcários da empresa começaram a entrar em Xiamen (província de Fujian) que se deu “a grande expansão porque é lá que estão as grandes fábricas”, lembra Miguel Antunes.

Os números fornecidos pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) respeitantes ao primeiro quadrimestre de 2012 indiciam que a China está muito próxima de se tornar o maior cliente da rocha ornamental portuguesa (ver gráfico). Já ultrapassou Espanha, em perda nos últimos dois anos devido à crise soberana na Europa, e nas vendas até Abril detinha uma quota de mercado próxima da França (18 por cento contra 20,2 por cento). As luxuosas lojas francesas Hermès são feitas por uma empresa portuguesa.

Loja Hermes em Nova Iorque

Sem surpresa, muitas empresas lusas apresentam já uma grande dependência do mercado chinês, sobretudo na actual conjuntura. É o caso da Bentos, uma pequena empresa com sete trabalhadores, que vende neste país asiático 80 por cento dos blocos de calcário moca creme “arrancados” na Mendiga, um vale de planalto entre a Serra de Aire e dos Candeeiros, no concelho de Porto de Mós. Sem capacidade para ir às feiras do sector ou fazer prospecção de mercado na China, o sócio-gerente, Luís Bento, conta que os clientes chineses “começaram a aparecer cá na pedreira”. E são uma visita regular, dado que “não levam pedras nenhumas sem as ver, mesmo que seja uma segunda encomenda”.

A Airemarmores, com sede no pólo extractivo da Serra de Aire, coração dos calcários portugueses, foi fundada em 1983 por Arlindo Anastácio Cordeiro e é hoje gerida por Acácio e Licínio Cordeiro. Esta empresa familiar vendeu no ano passado 3,4 milhões de euros de calcários e mármores nacionais. Metade seguiu para a China. Em termos logísticos, resume Licínio, a principal dificuldade é a distância, pois a mercadoria demora 40 a 50 dias a chegar ao destino, por mar. Além disso, nem todas as agências trabalham com blocos de pedra e houve ainda uma subida recente do preço de transporte devido à redução das importações em Portugal. Acaba por retirar competitividade ao produto, mesmo sendo bom para o saldo da balança comercial portuguesa.

Transporte maritimo para a ChinaE o sector das rochas ornamentais, com a exportação, tem feito o seu “trabalho de casa” no esforço colectivo de ajustamento da economia portuguesa.”

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2 respostas a Pedras portuguesas “rolam” para a China

  1. Rui diz:

    Rolling stones …

  2. Pingback: A falta de profissionalismo na leitura do aumento nas exportações portuguesas para a China | O Retorno da Ásia

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