A terceira descolonização de Timor-Leste

Após a saída dos portugueses em 1975 e a dos indonésios em 2002, está a ocorrer nestas semanas uma nova descolonização em Timor-Leste.

O contigente das Nações Unidas tem vindo a retirar de um país com pouco mais de dez anos de idade, ainda na infância, mas com potencial para se tornar num novo tigre.

Quem já lá estive sabe que o potencial turístico é enorme. A recente transição democrática, louvada internacionalmente, ajuda à atração de investimento. Por não falar nos mais de dez mil milhões de dólares de receitas petrolíferas que os vários Governos têm sabido sabiamente colocar num fundo soberano, à espera de decidir o que fazer com ele.

Jaco

Mas os desafios também. Ausência quase total de infra-estruturas, mão-de-obra muito pouco qualificada, cerca de metade da população em pobreza extrema e talvez demasiada natalidade para transformar o crescimento da economia em crescimento do rendimento per capita.

Retrato timorense

Apesar de mais pacífica do que as anteriores descolonizações, a saída do contingente das Nações Unidas emerge no entanto como potencialmente traumática para a economia timorense, pelo menos para alguns.

Vários amigos e conhecidos têm vindo a abandonar o país nas últimas semanas. E com eles cerca de 1.200 colegas.

as nacoes unidas de saida

Os bares e restaurantes da avenida de Dili em nada se assemelham aos locais que fervilhavam de gente há poucos meses. O diretor do Dili Beach Hotel referia na semana passada que o seu volume de negócios tem reduzido em 75%, para cerca de quinhentos dólares por dia.

Dezasséis trabalhadores das Nações Unidas ocupavam os quartos mais caros do melhor hotel da cidade, com um custo diário que rondava entre os 1.500 e os 700 dólares por noite. Na semana passada, apenas cinco se encontravam ocupados.

Na semana passada, também Portugal retirou a maior parte do seu contingente de apoio policial.

GNR em Timor

As próprias Nações Unidas estimam que 850 trabalhadores locais, timorenses, bem como cerca de 1,200 seguranças, ficarão desempregados. Isto sem contar nos motoristas e empregadas do staff internacional que abandona o país. Para os primeiros, o futuro parece algo mais risonho, dada a capacitação adquirida e a formação de que beneficiaram por parte das Nações Unidas. Para os segundos, nem tanto. Um relatório da agência de cooperação australiana apontava para um desemprego jovem próximo dos 40%.

E, no entanto, os timorenses, olham com satisfação e com muito orgulho para este momento da sua história. De facto, as Nações Unidas estimam que o seu contingente apenas acrescentava 40 milhões de dólares a um PIB próximo dos mil milhões. 4% em termos relativos.

Francisco Moniz, motorista para as Nações Unidas desde 2000, referia num artigo de jornal na semana passada que não tinha esperanças de encontrar um salário mensal semelhante aos 570 dólares aos que já se tinha habituado. Esse dinheiro apenas chegava para as necessidades diárias, incluíndo a escola dos filhos. Normal num país com a segunda maior natalidade do mundo, com cerca de sete filhos por mulher em idade fértil. No entanto, mostrava-se muito contento com a saída das Nações Unidas, sinal da maioria de idade de Timor-Leste, e com o que o futuro lhe espera.

Nas suas palavras, “queremos mostrar ao mundo que somos capazes de nos governar”.

orgulho timorense

Esta entrada foi publicada em Timor-Leste. ligação permanente.

3 respostas a A terceira descolonização de Timor-Leste

  1. Fernando Vale diz:

    40 milhões de dólares da ONU são 4% de 1.000 milhões de PIB, não 0,4%….isto é, DEZ VEZES MAIS…..Quanto ao futuro de Timor Leste, desejo que tudo corra bem, embora seja uma democracia ainda muito jovem…10 mil milhões de dólares de receitas do petróleo num Fundo Soberano, OK, mas não podia ser gerido de modo a criar riqueza num país onde “metade da população vive em pobreza extrema” ???

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado, Fernando, por detetar o referido lapso, que entretanto foi corrigido. Muito obrigado também pelo interesse demonstrado no blogue. O facto de estar a armazenar as receitas petrolíferas num fundo soberano parece-me algo muito sábio. Timor-Leste é um país com muitos recursos financeiros, mas com pouca capacidade de absorção, isto é, de utilização dos recursos financeiros disponíveis (recordo-me a esse respeito de uma visita que fiz ao Ministério das Finanças de Timor há três anos, na qual foi-me possível constatar com a execução do Orçamento de Estado era em novembro de cerca de 25% do montante orçamentado). Perante essa limitação, parece mais adequado alimentar um fundo soberano, com regras de utilização muito rígidas e monitorizadas, que evita a má e apressada utilização (incompetente, eleitoralista ou até mesmo corrupta) de recursos que irão ser necessários mais à frente, quando a capacidade de absorção for mais elevada. Na prática, quando a capacitação da administração pública for mais elevada (em todas as experiências de take-off dos processos de desenvolvimento, o agente despoletador foi o Estado, com a única excepção do primeiro, o Reino Unido). Quanto à luta contra a pobreza extrema, eu sou um grande defensor dos programas de transferências condicionais (cash conditional transfers), como o caso do bolsa família no Brasil. Penso que cria os incentivos adequados.

  2. Ricardo Nunes diz:

    http://entronkamentu.blogspot.pt
    FRIDAY, OCTOBER 26, 2012
    A futura estrada de 118 kms entre Dili e Baucau, construida com endividamento externo, por mão de obra estrangeira, com materiais importados, não tem nem a dimensão, nem o propósito, nem o impacto estruturante da ferrovia arterial. Não cria as centralidades urbanas que são absolutamente necessárias, não forma pessoas, não estimula a criação de tecido económico moderno, não transporta pessoas e mercadorias se não houver a importação de uma dispendiosa frota de viaturas automóveis com pesada pegada ambiental. Não move o leito do rio. Não muda o curso da história. A ferrovia faz.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s