A viagem secreta do primeiro-ministro chinês a Portugal

A 27 de junho último, o avião que transportava Wen Jiabao, o primeiro ministro chinês, fez uma “escala técnica” na ilha da Terceira, nos Açores. Este foi recebido pelo Secretário Regional do Ambiente e do Mar daquele arquipélago, Álamo Meneses, que acompanhou Wen Jiabao num roteiro de quatro horas pela ilha, enquanto esperava pelo reabastecimento do avião.

Até aqui tudo normal. É estranho no entanto que o primeiro ministro chinês, de regresso de um periplo por quatro países da América do Sul que teve como última escala Santiago de Chile, decida regressar a Beijing … por Portugal!

Parece sem dúvida mais óbvio escolher a rota do Oceano Pacífico para se deslocar da capital do Chile a Beijing. No entanto, o avião do primeiro-ministro chinês preferiu seguir uma rota alternativa, para oriente, pelo Oceano Atlântico, e com escala nos Açores…

Nenhuma referência foi feita na comunicação social.

A não ser poucos meses depois, a 5 de novembro, numa revista norte-americana. A notícia, pela interpretação que é feita, é sem dúvida uma bomba (obrigado Ilídio Serôdio, vice-Presidente da Câmara de Comércio Portugal China, por partilhar).

Raramente os aviões que fazem escala nos Açores escolhem a ilha da Terceira. No entanto, a National Review argumenta que aquela ilha tem uma grande atração para a China: a base das Lajes, operada conjuntamente pelas forças aéreas portuguesa e norte-americana.

A eventual presença da força aérea chinesa permitiria a Beijing patrulhar a totalidade do Atlântico Norte e Central, bem como controlar o trâfego aéreo entre a Europa e a América do Norte. Mais ainda. Teria capacidade de vetar o acesso directo da força aérea norte-americana ao Mediterrâneo e, sobretudo, estaria em condições ótimas para atacar os Estados Unidos no seu território. Nova Iorque está a apenas 2.300 milhas das Lajes.

A eventual saída dos EUA daquela base, em consideração, teria consequências muito elevadas para a economia regional (cerca de 15% do PIB, segundo estimativas). O Governo português teria de considerar, em alternativa, arrendar a base a outra força aérea. A este respeito, o artigo refere que Lisboa teria sugerido a Washington que, caso os EUA abandonassem a base, não teriam outra solução se não arrendá-la à China.

De facto, este fim-de-semana ficamos a saber pelo semanário Expresso que os EUA vão reduzir drasticamente a sua presença na base militar das Lajes. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, afirmou de seguida que Portugal vai tomar “em breve” uma posição sobre a redução da presença militar dos Estados Unidos na Base das Lajes e que esta terá consequências no acordo militar entre Washington e Lisboa.

O próprio artigo da National Review sugere como solução mais adequada a transferência da base de Kelley Barracks, perto de Estugarda, na Alemanha, e que comanda as operações norte-americanas em África, bem como dos seus cerca de 1.500 militares, à base das Lajes.

Mesmo que não tenha sido essa a razão da escala do primeiro-ministro em Portugal (a National Review é uma das revistas norte-americanas mais conservadoras, e muito dada a alertar sobre ameças, mais ou menos reais, à supremacia norte-americana no mundo), o artigo muito nos diz sobre a preocupação com a qual os americanos olham para a ascensão da China a potência mundial.

A novidade é que, desta vez, o palco é Portugal.

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8 respostas a A viagem secreta do primeiro-ministro chinês a Portugal

  1. Penso que esta situação seja fumo sem fogo.
    Hipóteses e vontades hão de haver, mas cada vez e menos liquido que esta paz podre entre Oriente e Ocidente esteja para durar.
    Por outro lado, esta conjunção política e económica que se vive centralizada na Europa central e nos USA nao vai durar o tempo suficiente que permita uma sino globalização.

  2. Enrique Galán diz:

    Eu pessoalmente também acho que não faz sentido que Portugal, como membro da NATO, alugue e partilhe instalações militares com países não associados a esta organização, e muito menos com a China. De qualquer forma, e como referi, a noticia muito nos diz de como os sectores mais conservadores dos EUA vêem o mundo e como auto-reforçam a sua mensagem interna de exigência de mais recursos para proteger a supremacia mundial norte-americana.

  3. Enrique Galán diz:

    A não perder a sátira do Inimigo Público sobre esta notícia, que tem sido muito comentada na comunicação social nos últimos dias: “Chineses interessados na Base das Lajes porque pensam quem na ilha terceira se fala Mandarim” em http://inimigo.publico.pt/Noticia/Detail/1575164

  4. Mário diz:

    A mim não me faz confusão nenhuma.Portugal não pode estra só dependente dos seus amigos de sempre que quando podem nos lixam….. Temos que ter novos horizontes e nada melhor que gfazer alianças com outras nações que nos trazem mais valias no futuro.
    Bem negociado e por valores aliciantes, vamos lá alugar a base das lajes a Chinese, Russos, Japoneses ou * Arabia saudita…… assim pode ser que nos comecem a respeitar um bocadinho melhor.
    Até porque a NATO é uma fantochada….. assim se vê na Siria e se viu no Libano…..

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado pelo comentário, Mário. Também pelo interesse no blogue. Concordo sem dúvida com que devemos começar a preocupar-nos com aumentar a presença, visibilidade e relacionamento de Portugal com os países emergentes. É a única aposta de futuro possível.

  5. flavio dombe diz:

    este e apenas mais um acto de austeridade a que os portugueses estao sendo sujeitos, estranho o governo fingiir inquietar se com o plano americano na base de lajes quando nos ultimos anos o proprio governo portugues foi um dos campeoes mundiais na contecao de custos para reanimar a economia como sempre advogaram. Portugal sabe que se eventualmente disponibilisar a base de lajes para china teria mais consequencias nefastas que aquelas devido a decisao americana sobre a base.

  6. É mais provável uma invasão miitar americana dos Açores do que um aluguel da Base de Lajes para a China. Nem Donald Trump cederia um território estratégico desses aos chineses. Isso é impossível no campo real.

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