Os efeitos em África de um eventual abrandamento da China

Apesar das altas taxas de crescimento observadas e do bom momento financeiro no continente africano, os riscos face ao futuro são evidentes.

De todas as regiões do mundo, África tem-se mostrado como a região menos afetada pela atual conjuntura económica e financeira mundial, isto é, aquela onde o crescimento do PIB menos tem decrescido entre 2011 e 2012. E isto apesar da instabilidade provocada no norte do continente pela primavera árabe. As previsões de outubro do World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional apontam para um crescimento na África subsariana de 5% em 2012 e de 5,7% para 2013 (5,1% em 2011).

Financeiramente, é muito interessante observar como os mercados atribuem um menor grau de risco à primeira emissão de sempre de obrigações a dez anos por parte do tesouro da Zâmbia do que a uma emissão análoga do tesouro espanhol. Aliás, vários países da África subsariana apresentam spreads de credit default swaps (infelizmente um conceito muito conhecido por nós de há uns anos para cá) inferiores ao de vários países da área do euro.

E no entanto, existem riscos, vários e variados, às perspectivas de crescimento do continente. Entre eles, um que merece especial atenção é o da situação económica da China.

Mthuli Ncube, economista chefe do Banco Africano de Desenvolvimento, reconheceu recentemente à comunicação social alguma preocupação com o abrandamento do ritmo de crescimento na China. E, em consequência, da eventual diminuição da procura chinesa por matérias-primas em África, que é, neste momento, uma das maiores forças de crescimento do continente.

O efeito potencial ao nível dos preços internacionais das matérias-primas que África exporta seria significativo e os números são claros. A China consume cerca de 20% da energia não renovável produzida no mundo, 23% dos cereais e culturas agrícolas e 40% dos metais.

Mas não só.

Em meados de julho, Beijing acolheu o quinto fórum da cooperação China-África, no qual o Governo chinês comprometeu-se a emprestar vinte mil milhões de dólares aos países africanos nos próximos três anos. Nem mais nem menos do que o dobro do que a China se tinha comprometido a emprestar no quarto fórum, em 2009. No total, a China propôs ou comprometeu desde 2010 cerca de 101 mil milhões de dólares em projetos no continente africano. Destes, 90% dizem respeito a construção em troca de recursos naturais.

De facto, a China tem sido fortemente criticada em vários fóruns pela natureza extrativa do seu relacionamento com o continente africano, mas também pela fraca qualidade dos seus trabalhos de construção. E não apenas em África. Também aquém fronteiras. O colapso de uma das maiores pontes da China em agosto, nove meses após a sua inauguração, é apenas mais um caso de entre os vários acontecimentos deste género nos últimos anos. O balanço é de seis grandes pontes e cerca de 150 mortos desde julho de 2011.

No entanto, num contexto de inexistência quer do capital, quer do conhecimento de engenharia necessário para construir projetos de infra-estruturas de larga escala, os Governos africanos com recursos limitados viram as costas às instituições financeiras multilaterais (Banco Mundial e Banco Africano de Desenvolvimento, entre outros), muito mais exigentes em salvaguardas, e encorajam o investimento chinês. Não é por acaso que o investimento da China no continente ultrapassa amplamente o do Banco Mundial. Como exemplo, as palavras do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Uganda, Okello Oryem, que referia aquando do referido quinto fórum de cooperação China-África que “a ajuda da China é preferível, e cada vez mais, pois respeita as necessidades do país beenficiário sem anexar condicionalismos rigorosos ou salvaguardas”. E o que ganha a China? Em primeiro lugar, acesso a fontes de recursos naturais que evitam o constrangimento do seu processo de industrialização e desenvolvimento. Em segundo lugar, escoamento de mão-de-obra excessiva.

Mas nem tudo se reduz a empréstimos.

O comércio entre a China e África alcançou em 2011 cerca de 166 mil milhões de dólares, três vezes mais do que o observado em 2006. O fluxo inverso, de exportações da África para a China, alcançou os 93 mil milhões de dólares em 2011 (39% acima do observado no ano anterior). Não esqueçamos que todos os trinta países menos desenvolvidos de África com relações diplomáticas formais com a China beneficiam de uma taxa alfandegâria zero em 60% das suas exportações para a China.

Por outro lado, o investimento direto da China em África ultrapassou os 15 mil milhões de dólares, com investimentos em 50 países do continente. A este respeito, a Stratford Global Intelligence (obrigado José Santos por partilhar) publicava em Agosto um mapa interativo com as propostas e compromissos de investimento da China em África. O mapa aparece cheio de pontos, apesar de apenas apresentar dados a partir de 2010.

E não só. A agência noticiosa chinesa Xinhua enumerava num recente artigo muitas outras vertentes da presença chinesa em África. Entre elas, transferências de tecnologia e inovação (o próprio Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, referia recentemente que “Africa looks to China not only as a source of funds and trade, but also as a source of technology and innovation”), em particular no setor agrícola, mas também assistência em sectores sociais como o da saúde. A China também anunciou, no já referido quinto fórum, que iria acrescentar ao longo dos três próximos anos 1.500 médicos aos 1.067 já existentes no continente. Estes já efetuaram, de forma gratuita, cerca de 1.000 operações cirúrgicas oftalmológicas a pacientes africanos.

O desequilíbrio do relacionamento entre a África e a China, em favor desta última, tem gerado um receio de excessiva vulnerabilidade do continente face às decisões de Beijing. De forma fundamentada. É o alastrar do dutch desease pelo continente. Este receio é particularmente sentido naqueles países mais especializados na exportação de matérias-primas A Zâmbia, a Nigéria e a República Democrática do Congo, enquanto os maiores produtores de cobre, petróleo e madeira do continente, têm as maiores dores de cabeça. Alguma tensão começa a ser visível. Em meados de outubro, a China registou uma queixa diplomática formal junto do Gana, em resposta ao assassínio de um cidadão chinês de 16 anos que exercia práticas de extração ilegal do minério no país. O acontecimento, que se junta à expulsão de 38 outros mineiros chineses do país pelas mesmas práticas, mereceu ampla e atenção não habitual na comunicação social chinesa.

Angola merece a este respeito uma atenção especial. O Macauhub.com, agência noticiosa que muito acompanhamos neste blogue e da qual divulgamos notícias sobre as relações comerciais entre a China e os países de língua oficial portuguesa, acaba de fazer referência ao relatório de outubro do BPI sobre a economia angolana. Este refere como o peso da China nas exportações angolanas disparou. No primeiro semestre de 2011, o peso da China rondava os 35%. Um ano mais tarde, este representava 49%. A quase totalidade destes fluxos são produtos petrolíferos. Angola ocupa há já algum tempo o lugar de segundo maior fornecedor de petróleo da China, a seguir à Arabia Saudita, com cerca de 25% do total das importações.

A mesma fonte, o Macauhub.com, refere como o director do Gabinete de Estudos e Investigação do Ministério angolano das Relações Exteriores, Francisco José da Cruz, descrevia esta semana num colóquio económico na capital chinesa como “a aposta na cooperação com a China ocorreu no momento certo e tem ajudado a transformar Angola num país mais moderno”. A primeira linha de crédito chinesa para a Angola, no valor de 2.000 milhões de dólares, foi aberta em 2004 e desde então, já terá atingindo quase 15.000 milhões de dólares.

Para os países africanos conseguirem mitigar os efeitos potenciais desta excessiva concentração chinesa, este momento de ligeiro abrandamento e de focalização aquém-fronteiras da China deverá ser aproveitado para diversificar gradualmente a sua carteria de clientes e de produtos.

Até porque, do lado da China, alguns sinais avançados apontam para uma rápida aceleração da economia chinesa, após a referida fase de algum abrandamento. Apesar da China apresentar no terceiro trimestre de 2011 a menor taxa de crescimento dos últimos três anos, com cerca de 7,4% (taxa anualizada), os dados avançados mais recentemente no que toca à produção de manufaturas e às vendas a retalho têm mostrado uma recuperação. Os resultados de um estudo realizado pela Bloomberg revelam que o crescimento deverá passar para 7,7% este trimestre e 7,9% no primeiro trimestre de 2013. E desta vez o motor da recuperação chinesa é doméstico.

Antes de que o ajustamento aconteça de forma abrupta e incontrolada.

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