Para quando o Benfica na China? E para quando os charteres de chineses em Portugal?

É claro o impacto que grandes eventos internacionais de âmbito cultural ou desportivo podem ter na economia real de um país. Mas por vezes surprende observar como pequenas presenças em eventos desportivos ou a realização de um simples filme podem gerar novas e importantes tendências.

Segundo exemplo (o primeiro, sobre Bollywood e o mundo lusófono, tinha sido publicado na semana passada).

O patrocínio de equipas europeias de futebol por marcas chinesas é a ponta do icebergue do interesse crescente daquele país no desporto rei.

Na Espanha, a Huawei, que, apesar de apenas ter sido criada em 1987, ultrapassou em agosto a Ericsson como a maior produtora de equipamento de telecomunicações do mundo, começou por patrocinar em abril deste ano apenas um jogo do Atlético de Madrid. Precisamente o derbi madrileno com o eterno rival, o Real Madrid.

O impacte positivo daquela transmissão gerou um novo acordo, que incluia os dois primeiros jogos do campeonato e o jogo da Supertaça da Europa com o Chelsea. De acordo com aquela firma chinesa, o seu objectivo é o de “alargar o seu público-alvo e mostrar o seu compromisso com o mercado espanhol”. Na verdade, o objectivo é o de impressionar os próprios chineses aquém fronteiras, e na própria China, tendo em vista o efeito reputacional de marcar presença em grandes eventos desportivos mundiais.

E os patrocínios das empresas chinesas não devem ficar por ai. O Valência CF começou em janeiro deste ano a mostrar nas suas camisolas publicidade da empresa chinesa de energias renovàveis, JinKO Solar, constituída em 2006. E o Vilarreal tinha feito o mesmo com o twitter chines “Weibo” nos jogos da época passada com o FC Barcelona, desta vez, e como novidade, em alfabeto chinês.

É nesse contexto que a Liga de Futebol espanhola anunciou que cinco das próximas sete edições anuais da supertaça espanhola irão ser jogadas na China. E que o Real Madrid e o FC Barcelona têm aproveitado as últimas pré-épocas para realizar jogos naquele país.

No Brasil, o Banco Industrial e Comercial da China está a negociar com a equipa de futebol Grémio Esportivo, do estado do Rio Grande do Sul, o patrocínio principal nas camisolas e o nome a atribuir ao novo estádio em construção. Tudo por um montante próximo dos 17 milhões de dólares. É a entrada no mercado brasileiro.

Para quando o Benfica (e o FC Porto e o Sporting) em chinês?

O mercado não pode deixar de ser apetecível. A cor até ajuda.

A porta de entrada: patrocínios na camisola, jogos na China ou incluir no plantel jogadores chineses.

Os poucos jogadores asiáticos a jogar na Europa, apesar de não deterem lugares preponderantes no relvado, são seguidos como estrelas de rock nos seus países. Há dez anos, um jogo sem especial relevância, um Everton-Manchester City, foi seguido na China por cerca de 300 milhões de pessoas, apenas porque, pela primeira vez, havia um chinês a jogar em cada uma das equipas.

Muitos levaram a brincar os famosos “charteres de chineses” que o Paulo Futre queria trazer ao Sporting. Mas alguns passos foram já dados nesse sentido em Portugal. E devem produzir efeitos em breve. Esperamos nós.

O FC Porto acabou de assegurar o empréstimo de Li Shuai, médio chinês de 18 anos que vai jogar nos juniores e que é apresentado como um dos mais talentosos jovens jogadores daquele país. O Benfica recebeu há um ano uma comitiva do Governo chinês tendo em vista o estudo de uma parceria com o objectivo de trazer jovens atletas daquele país para o centro de estágio do Seixal. E já há antecedentes de um chinês a jogar com a camisola do Benfica: Yu Dabao, em 2007 (embora apenas num jogo). Houve também boatos de que investidores chineses teriam tentado lançar uma OPA hostil ao clube em 2008.

A tendência parece clara e inalterável. A pergunta não é “se”, mas antes “quando”.

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Como aditamento recente a este post, sugere-se a leitura da notícia de Ricardo J. Rodrigues publicada a 12 de fevereiro de 2013 pelo Jornal de Negócios sobre a chegada a Portugal de 41 futebolistas chineses de entre 15 e 18 anos para treinar em equipas de escalão inferior. “Primeiro, porque é um país pequeno que está sempre a produzir talentos de nível mundial. Depois, porque tem alguns dos melhores treinadores do planeta. E, por fim, porque a integração é mais fácil do que nos outros países.”. Quem sabe se o futuro Cristiano Ronaldo não é chinês e formado em Portugal.

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5 respostas a Para quando o Benfica na China? E para quando os charteres de chineses em Portugal?

  1. Ruii diz:

    Já agora, sobre Portugal-China-Futebol:
    Adeptos do Beijing Guoan (北京国安) emocionados na despedida a Jaime Pacheco: http://www.youtube.com/watch?v=nHIumbKIX3c

  2. Sou um apaixonado pelos seus artigos, que leio e releio.
    Por motivos profissionais, desloco-me anualmente a China mainland, HK e Macau 3/4 vezes, isto desde 2008 e vejo de facto as potencialidades daquele pais, que são, ainda, muito subestimadas aqui no nosso pais, o que e de facto uma pena.
    Quando viajo, verifico os aviões cheios de europeus, mas portugueses nada.
    Quando nos eventos patrocinados pelos organismos portugueses, falamos sobre os nossos negócios individuais, verifico que há uma grande apetência para fazer negocio na China e, negócios da China, o que me aflige.
    Verificar que muitas das empresas portuguesas nao tem conhecimento do mercado, nao tem estratégia para uma abordagem consistente e seria aqueles mercados, aflige-me.
    A maior preocupação, pelo que tenho verificado, e a apetência pelo One shot business, nao e o criar condições para o long term business, sedimentando através de parcerias estáveis a integralizacao dos produtos e marcas portuguesesas.
    Aqui fica o meu contributo, esperando que o Enrique continue a escrever os seus belos artigos, que muito me tem ajudado a perceber melhor o negocio naquelas paragens.
    Cumprimentos
    Hélder Luz

    • Enrique Galán diz:

      Servem sem dúvida de motivação para continuar a contribuir com mais um grão de areia para a visibilidade e o conhecimento da Ásia em Portugal. Desafio-te a escreveres uma peça de uma página com o teu testemunho pessoal sobre os desafios e oportunidades que encontraste na tua tentativa de entrar no mercado chinês. De certeza que será útil para outros potenciais interessados. E somos mais do que parece. O meu colega Luís Mah foi reconhecido há uns tempos pelo caixa de um supermercado quando estava a fazer as compras do dia-a-dia. Tinha acabado de falar sobre a China num programa de televisão. O mais incrível é que o caixa tinha um plano detalhado para criar um negócio de pastéis de Belém na China, e queria conselhos do Luís sobre aquele país. Uma jóia de empreendedor. Precisamos de mais como ele, e como o Hélder.

  3. Rui diz:

    O início das relações futebolísticas luso-chinesas:
    ‘Sporting venceu seleção chinesa em Pequim há 32 anos’: http://expresso.sapo.pt/sporting-venceu-selecao-chinesa-em-pequim-ha-32-anos=f568488
    O artigo é de 2010, por isso foi já há 34 anos … quando o Sporting ainda sabia jogar à bola :). Foi mesmo anterior ao reatamento das relações diplomáticas.

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado por partilhar, Rui! Mas duvido que tenha acontecido 🙂 Mudos? E sem faltas? Em que planeta viviam? 🙂 O Sporting devia era apostar nos charteres de chineses. De certeza que nao jogavam pior e ainda se fartavam de vender camisolas na China!

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