Charme Chinês

Agora que o papel da China na política e economia mundial é cada vez mais importante, um dos seus grandes desafios passa precisamente pela forma como projectar, a nível global, a sua imagem e poder crescente. E tem razões suficientes para se preocupar. Pelo menos em relação à Europa e aos Estados Unidos.

No último inquérito da Transatlantic Trends lançado em Setembro de 2012, uma sondagem anual sobre as relações transatlânticas, as respostas das opiniões públicas norte-americana e europeia já nos dizem algo sobre a percepção que têm estes dias sobre a China.

Para 46% dos norte-americanos existem valores comuns com os chineses (contra 45% que discorda). Mas no velho continente, 55% dos Europeus acredita que a China tem valores tão diferentes que é impossível cooperarem entre si. A França (71%), a Alemanha (63%) e a Suécia (62%) são os países onde se destaca de forma mais clara essa diferença de valores;

47% dos norte-americanos dizem que não existem interesses comuns com os chineses na resolução de problemas internacionais (contra 46% que afirmam haver). Uma maioria dos Europeus (52% contra 39%) considera que a União Europeia e a China estão longe de ter esses interesses comuns. Novamente a França (66%) e a Alemanha (59%) encabeçam a lista. Mas aqui é Portugal que se destaca pela diferença: 60% dos Portugueses declararam que os interesses comuns dos dois países eram suficientes para trabalharem juntos;

Para 59% dos norte-americanos, a China é uma ameaça económica contra 30% que a vê como uma oportunidade. Os Europeus mostraram-se mais divididos: 45% olham para a China como uma ameaça económica contra 42% que a vê como uma oportunidade. Na Europa são os holandeses (58%), suecos (58%) e britânicos (56%) os mais optimistas. Em contraste os que mais se aproximam da visão norte-americana são a França (65%), Portugal (54%) e Espanha (51%);

Finalmente, se 51% dos norte-americanos consideram a China uma ameaça militar, uma maioria europeia discorda (53%). A França e o Reino Unido (ambos com 44%) são os países europeus que mais se preocupam com a China como ameaça militar.

É difícil de dizer se estas percepções partem essencialmente de experiências pessoais ou se são fruto da influência dos media (tradicionais ou sociais) mas o facto que estes são os resultados do inquérito.

Com este contexto, é natural que a China se dedique a reflectir sobre estratégias de diplomacia pública como forma de soft power, ou “poder brando”/”poder suave”. E isso que reporta desde Pequim, Fabianno Maisonnave da Folha de São Paulo.

Num artigo na última edição da Global Asia, Zhou Qingan e Mo Jinwei dizem-nos que a diplomacia pública está no centro das relações internacionais da China para o século XXI. O facto da China partilhar fronteiras com 14 países diferentes influencia, mais do que a qualquer outra nação, a sua diplomacia pública. Mas, estes autores, apontam três princípios desta diplomacia. Primeiro, fortalecer relações com países como os Estados Unidos, Rússia e outros países ocidentais para construir uma imagem positiva no sistema político internacional. Segundo, estabilizar as relações com os países vizinhos (tendo em conta as disputas territoriais nos mares da região e terceiro, reforçar a imagem positiva nos países em desenvolvimento na Ásia, África e América Latina.

E como é que a China tem vindo a fazer isso? Por duas grandes estratégicas: expansão do  Instituto Confúcio, similar ao British Council ou Alliance Française, como forma de promover a cultura e língua chinesa e na criação de medias globais. (a ajuda da China a países africanos, latino-americanos ou asiáticos também poderia ser incluída como uma das estratégias mas ficará para outro post). Hoje em dia existem centenas de Institutos Confúcio em mais de 100 países (incluindo Portugal e Brasil) que mobilizam milhares de professores e voluntários chineses.

Mas a aposta mais arriscada está na criação de medias globais com representações em várias partes do mundo e transmissão em várias línguas. É este o caminho que está a ser trilhado pela Xinhua, a principal agência de notícias estatal, a CCTV ou Televisão Central Chinesa ou a CRI (Rádio Internacional da China). Em Washington, onde se instalou recentemente a CCTV ainda é cedo para se avaliar o seu impacto mas Alex Pasternack na Foreign Policy (o site desta revista permite a tradução para português do artigo mas não fiquei muito contente com o resultado) mostra como os desafios jornalísticos não têm sido fáceis para uma cadeia televisiva de um país onde a liberdade de imprensa tem ainda muitas limitações. Mas o caso talvez mais interessante é a forma como os media chineses começam a apostar numa presença mais forte num continente que praticamente está ausente na cobertura noticiosa na China: África (ver aqui e aqui).

Sobre Luis Mah

Investigador no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Lisboa. Sou também professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
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