As duas maiores potências do mundo escolhem a sua liderança em menos de duas semanas. E agora?

Não podia deixar de partilhar convosco uma adaptação do recente texto de Philip Stephens no Financial Times sobre um momento chave da história mundial recente, a escolha, em menos de duas semanas, da nova liderança das duas maiores potências do mundo, que juntas representam um terço do PIB mundial.

O momento é tão sensível que o Governo chinês censurou o acesso à página de internet do The New York Times em resposta à publicação de uma notícia que apontava para a família de Wen Jiabao, primeiro-ministro chinês, ter acumulado cerca de $2,7 mil milhões de dólares desde a chegada de Wen ao poder. Apesar de a versão chinesa da notícia tem circulado amplamente no país, o Weibo (análogo ao Twitter na China) rapidamente apaga qualquer referência a esta polémica nas suas páginas.

Uma dica apenas. As apostas apontam para a redução do comité central do partido comunista da China de nove para sete elementos e, em particular, para a nomeação de Xi Jinping, atual vice-presidente, e Li Keqiang, atual vice-primeiro-ministro, como Presidente e Primeiro-Ministro respectivamente.

Boa leitura!

 

Deve ser uma coincidência o fato de a China exibir os seus novos dirigentes apenas alguns dias após os EUA optarem a 6 de novembro entre Barack Obama e Mitt Romney. Meados de outubro tinha parecido um período mais provável para a realização do 18º Congresso do Partido Comunista chinês. Mas houve a imposição de limites a Bo Xilai, caído em desgraça. Depois houve o misterioso sumiço de Xi Jinping, o presumível herdeiro presidencial.

Coincidência ou não, a escolha do momento é um lembrete de que as relações entre as duas potências vão determinar a configuração da ordem internacional durante várias das próximas décadas. A possibilidade dos EUA e a China continuarem ou não amigos poderá fazer a diferença, de maneira literal, entre guerra e paz. Será que serão rivais ou inimigos? Os antecedentes históricos dos embates entre potências consagradas e emergentes são desanimadores.

Sempre que converso com autoridades ocidentais com longa experiência na China, sou lembrado do quão pouco se sabe sobre seu funcionamento interno. A China abriu a sua economia para o mundo, mas as personalidades e a dinâmica de sua política continuam impenetráveis. Quanto a Xi Jinping, seus embates, bastante numerosos, com estrangeiros constituíram até o momento a definição perfeita de inescrutabilidade.

Os poucos que passaram muitas horas em discussões com o sucessor de Hu Jintao confessam ter uma ideia superficial do rumo que ele quer dar à China. Ele sente-se confiante. Acha que os conhecidos como principezinhos – descendentes dos heróis revolucionários do partido – merecem o lugar especial que ocupam no governo do país.

Se perguntar aos especialistas na China onde Xi Jinping gostaria que o país estivesse quando deixar o poder, em 2023, verá que as conjecturas se transformam num jogo de adivinhação. O facto constituído pela ascensão da China tornou sua geração mais confiante que a de seus predecessores. Mas será que a confiança não se transformará em arrogância? Será que a assertividade não se transformará em expansionismo?

Em Washington, as autoridades falam em três tendências da política externa chinesa. A primeira – a advertência de Deng Xiaoping de que a China deveria esperar o momento propício – criou uma solução de compromisso magistral entre pombos e falcões. Os primeiros obtiveram a garantia de que as confusões externas não interfeririam no desenvolvimento interno; os últimos, de que sua vez chegará quando a China estiver suficientemente forte. A sabedoria de Deng ainda encontra seguidores.

A segunda tendência diz que mesmo uma China poderosa tem pouco a ganhar de um conflito com os EUA; que a dependência mútua é um facto da vida política e económica. O respaldo a essa posição tem se enfraquecido. A terceira diz que a China sofreu afrontas suficientes – chegou a hora de o país reivindicar o status e a posição que lhe cabem nos assuntos mundiais. Essa visão tem seus defensores no Exército de Libertação do Povo.

A qual dessas correntes Xi pertence é informação criticamente importante. Suas poucas manifestações públicas o situam mais próximo do extremo do espectro dominado pelos falcões. O nacionalismo corre nas veias do partido, de modo que ele não será de trato fácil quando a questão for disputas territoriais na parte oriental do Mar da China e no Mar do Sul da China. Mas, se isso chega ou não a constituir um desejo de confronto com os EUA, resta conferir.

As autoridades chinesas deram grande importância aos problemas económicos dos EUA na esteira do colapso financeiro. Alguns veem o início de uma queda inexorável. Outros não têm tanta certeza. Os EUA têm muitas vantagens, desde a demográfica até o dinamismo da economia, desde a geográfica até a destreza tecnológica.

Seja como for, Xi vai herdar seus próprios desafios. A defenestração de Bo pode ter instaurado a luta pelo poder na cúpula, mas a China não pode mais contar com uma expansão econômica de dois dígitos. Sua população está envelhecendo. Os salários sobem e os trabalhadores não são mais dóceis.

Não há grande clamor por uma democracia à moda ocidental, mas a comunicação social digital chinesa fervilha com apelos por uma governação transparente e pelo fim da corrupção que alimenta o consumo exibicionista dos super-ricos. A primeira, a segunda e a terceira prioridade de Xi será sustentar a autoridade do partido diante dessa rápida e imprevisível convulsão social.

Em todo relacionamento há dois lados. Se é justo dizer que uma China mais assertiva sinaliza perigos pela frente, será que os EUA farão algo para impedir Beijing de adotar o enfoque do “um só ganha quando o outro perde” para com a política de grande potência?

A retórica da campanha presidencial é de pouca ajuda para levantar os ânimos. Obama promete restringir as importações chinesas; Romney quer declarar Pequim um manipulador da moeda. Paul Ryan, o candidato a vice-presidente republicano, acha que é hora de os EUA “lutarem até o fim” com a China, seja lá o que isso quer dizer.

A recente visita de Obama à Ásia desencadeou uma contrarreação em Beijing. Mas a China não está cometendo falta nas mais recentes irrupções marítimas. O retorno dos EUA deu novo fôlego a alguns dos vizinhos da China. O que é necessário é um novo status quo para evitar o efeito do caminho sem volta. Uma corrida armamentista no leste da Ásia não é do interesse de ninguém. Há muito mais em jogo que uma mão cheia de ilhas desabitadas.

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