Os macrodesafios da Ásia

Tive a oportunidade de assistir na semana passada a uma apresentação do Managing Director General do Banco Asiático de Desenvolvimento, na qual Rajat Nag apresentava o lançamento da edição chinesa da monografia do Banco denominada “Asia 2050: Realizing the Asian Century”. A obra pretende delinear a visão e os macrodesafios da concretização do século XXI como o denominado século asiático.

Os argumentos apresentados justificam e renovam a iniciativa de constituição deste blogue como espaço de divulgação e discussão dos desafios e oportunidades que uma nova ordem económica e geoestratégica, com uma Ásia como região mais dinâmica do mundo, colocam aos agentes económicos e sociais lusófonos.

Gostava de partilhar aqui os principais aspetos focados nesse documento:

A grande transformação

Danny Quah, professor da London School of Economics, avançou recentemente com estimativas para a deslocação, nas últimas décadas, da gravidade do centro económico mundial. A ideia é simples: relativizar a distância física entre os países face ao seu peso na economia mundial.

Em 1980, a América do Norte e a Europa Ocidental produziam mais de dois terços da riqueza mundial, fazendo com que o centro económico do mundo fosse um ponto no meio do Oceano Atlântico, 900 milhas a oeste da costa marroquina. Em 2008, esse mesmo centro gravitacional encontrava-se na cidade de Izmir, na costa ocidental da Turquia. Daqui a 40 anos, passará a situar-se entre a Índia e a China, 400 milhas a leste de Katmandu (Nepal).

Em 1970, um em cada dos asiáticos vivia com menos do que um dólar por dia. Em 2010, era apenas um em cada cinco. A Ásia alcançou em 40 anos aquilo que outras regiões do mundo demoraram um século a conseguir. É um feito espantoso em apenas uma geração. Em 2010, a região representava 27% do PIB mundial.

A conclusão é clara. Depois de ter perdido a liderança da economia mundial no princípio do século XIX, a Ásia está de volta e ignorar o seu peso crescente como motor da economia mundial é ignorar a lei da gravidade.

No entanto, dois terços dos pobres do planeta encontram-se na Ásia. Cerca de 950 milhões de pessoas viviam nesse continente com menos de 1,25 dólares por dia. Mais do que a população conjunta da UE e dos EUA. E se aumentarmos o critério para dois dólares, este número aumenta para dois mil milhões.

Neste contexto, a monografia teoriza sobre o futuro da região da Ásia e do Pacífico em 2050 e conclui em apresentar dois cenários alternativos.

Num primeiro cenário, otimista, a região representará 52% do PIB mundial, recuperando a posição de centro económico mundial que já ocupava há 300 anos. Cerca de 3 mil milhões de pessoas terão padrões de vida semelhantes aos observados na Europa hoje em dia. O rendimento per capita médio aumentará seis vezes até representar cerca de 40 mil dólares por ano.

Num segundo cenário, a Ásia não conseguirá concretizar todo o seu potencial. Terá caído no denominado middle income trap e o rendimento per capita médio da região permanecerá próximo dos 20 mil dólares por ano (o nível observado hoje em Portugal ou o dobro daquele observado atualmente no Brasil).

A probabilidade de a realidade observada em 2050 se aproximar em maior medida de um ou de outro cenário depende, segundo o estudo, da resolução de sete grandes desafios:

1. Crescimento inclusivo.

As desigualdades observadas no rendimento e no nível de vida são enormes na região, não apenas entre países, mas sobretudo dentro de cada país. Do início da década de 90 até aos nossos dias, o coeficiente de Gini piorou de 32 para 43 na China, de 33 para 37 na Índia e de 29 para 39 na Indonésia (de 39 para 46 na região como um todo). Estas desigualdades limitam as oportunidades de cada ser humano, como também emergem como uma forte ameaça à estabilidade e coesão social, algo que todos constatamos recentemente nos países árabes do norte de África.

2. Segurança energética.

A China era um exportador líquido de energia no início da década de 90. Hoje em dia, consome cerca de 4 milhões de barris de petróleo por dia. E espera-se que este consumo aumente para 20 milhões de barris por dia em 2050. Nessa altura, a Ásia representará cerca de 40% do consumo global de energia. Os países devem prioritizar a diversificação do energy mix, incluíndo um maior peso das energias renováveis, e promover uma maior eficiência energética, sempre acompanhada de um ajustamento nos preços praticados de forma cobrir os custos associados, descobertas tecnológicas e mudanças nos padrões de consumo. A maior integração energética regional deve ser uma prioridade, num tabuleiro geoestratégico onde o consumo energético se concentra no Paquistão, na Índia e no litoral chinês e os maiores produtores de energia se situam nas suas regiões limítrofes. Só o Oriente Médio, incluído o Irão, e a Rússia representam 60% e 64% das reservas mundiais de petróleo e de gás, respetivamente. A complementaridade parece óbvia. E a necessidade de integrar energeticamente as Ásias Central, de Leste e do Sul também.

3. Rápida urbanização.

Nos próximos 40 anos, a população urbana da região irá quase duplicar, passando de 1,6 a 3,1 mil milhões de pessoas, que se deslocam para as cidades à procura do epicentro da vida económica, mais e melhores empregos, educação superior, inovação e desenvolvimento tecnológico. O congestionamento ao nível do transporte, do abastecimento de energia e água e dos serviços públicos emergerá como um forte constrangimento ao desenvolvimento do potencial da região. O impacto das alterações climáticas colocará significativos desafios adicionais às cidades asiáticas. As projeções que apontam para um aumento da temperatura média do planeta em 4,4 graus centígrados até 2100, e o subsequente aumento do nível do mar em cerca de 46 centímetros, caso se concretizem, terão um impacto especialmente forte nas cidades asiáticas. Se considerarmos a população que iria ser afectada pelo aumento do nível do mar, 15 das 20 (e 9 das 10) cidades do mundo mais afectadas encontram-se na Ásia. As perdas económicas causadas pela concretização desse cenário representariam cerca de 1,2% do seu PIB.

4. Melhores mercados financeiros.

O Banco Asiático de Desenvolvimento estima que as necessidades de financiamento em infra-estruturas alcançam cerca de 8,33 biliões de dólares até 2020. Apesar de a região deter as maiores reservas em moeda estrangeira e os níveis mais elevados de poupança do mundo, os mercados financeiros asiáticos são altamente voláteis e incapazes de canalizar adequadamente a liquidez dos seus agentes. O potencial de crescimento da região não pode concretizar-se se estes mercados não produzem uma intermediação eficiente entre a sua popupança e as suas necessidades, maciças, de financiamento de infra-estruturas, desenvolvimento tecnológico e geração de emprego. Esses serviços financeiros devem ser também inclusivos, acessíveis a todos, numa região em que a percentagem de pessoas não bancarizadas ainda é muito elevada.

5. Maiores oportunidades na educação, empreendedorismo e inovação.

O modelo de crescimento baseado na produção de bens para os mercados ocidentais da UE e dos EUA parece esgotado. Inovação e educação devem passar a ser os motores do desenvolvimento económico na região, caso se pretenda evitar o denominado middle income trap. Como exemplos do constrangimento observado atualmente na região ao nível da educação, três simples factos. Em primeiro lugar, a percentagem de alunos pós-educação primária a beneficiar de programas de formação profissional ou técnica na Ásia era de 13%, valor este significativamente inferior ao observado na Europa (24%). Em segundo lugar, das 100 melhores universidades do mundo em 2012, apenas 19 são asiáticas (nenhuma nos vinte primeiros lugares). Em terceiro lugar, o Bloomberg Ranking Global Innovation Index mostra que em países como a Malásia, as Filipinas, a China ou a Tailândia ainda existe um gap significativo entre a sua pontuação quanto a capacidade de produção de produtos manufaturados e a sua pontuação quanto a produtividade.

6. Boa governação.

A medida que a região procura consolidar várias décadas de crescimento económico, e de forma a concretizar o potencial de crescimento à sua frente, a Ásia terá de fazer face ao fenómeno da corrupção, que tem emergido como a principal causa do amplo défice de governação na região, existente não apenas nas estruturas governamentais, mas também nas empresas e nas restantes instituições. No ranking do índice de percepção da corrupção publicada pela Transparency International para 2011, 5 dos 6 (21 dos 60) países com o pior indicador são asiáticos. As próximas décadas serão críticas na luta contra a corrupção, favorecidas pela evolução demográfica, pelo aumento da urbanização e pelo alargamento da classe média. De uma forma mais geral, no que diz respeito à qualidade das instituições, a imagem, apesar de heterogénea, não é muito favorável (ver os Worlwide Governance Indicators).

7. Aprofundamento da integração regional e do fornecimento conjunto de bens públicos regionais e globais.

Muito embora vários países da região, pela sua dimensão, sejam capazes de gerar economias de escala intrínsecas, sem a necessidade de se integrarem com os seus parceiros regionais, a verdade é que muitos dos desafios e novas responsabilidades enfrentados pela região são comuns. Estes incluem um sistema financeiro global, concorrência tecnológica global, um sistema de comércio também ele global, a luta contra as alterações climáticas, segurança energética e, sobretudo, paz. Aliás, estes mesmos desafios têm estado na origem e na renovação contínua da integração europeia. Os ganhos advindos da prossecução de objetivos comuns e da maximização de sinergias são óbvios. A este respeito, e para ter uma ideia mais aprofundada do grau da integração do continente nas suas várias esferas (integração trans-fronteiriça, bens públicos reginais, mercados monetários e financeiros e fluxos de investimento e comércio), recomenda-se a consulta pormenorizada do Asia Regional Integration Center do Banco Asiático de Desenvolvimento.

Esta entrada foi publicada em Macroeconomia, Visão macro. ligação permanente.

3 respostas a Os macrodesafios da Ásia

  1. Bernardo Rodrigues diz:

    Muito interessante.

    Em relacao `a deslocacao do centro economico para Este, a imagem e’ interessante mas nao sera’ demasiado simplista? Por um lado o Brasil e a America Latina deveriam, de certo modo, travar essa tendencia. E por outro, parece faltar o eixo Norte-Sul para uma imagem mais completa, sobretudo com a emergencia, mais uma vez, do Brasil e de certos paises africanos, estes ultimos devido em grande parte `a influencia asiatica, como se sabe.

    Em relacao ao ponto da urbanizacao: penso que mais do que um desafio, e’ uma oportunidade e uma necessidade. Se bem planeadas, as communidades urbanizadas sao muito mais sustentaveis, produtivas e inovadoras por razoes de concentracao e de escala. Por isso, de certo modo, uma asia com este nivel de crescimento mas sem urbanisacao, nao so’ e’ impossivel como indesejavel. Mas e’ aqui que entra a boa governacao…

    • Enrique Galán diz:

      Muito obrigado pelo teu comentário, Bernardo.

      A estimação do centro económico gravitacional do mundo é simplista no sentido de que se trata apenas de um mero exercício estatístico e não muito relevante. É a tal questão de a estatística mostrar que duas pessoas comeram em média meio frango, quando em verdade uma comeu o frango todo e a outra nada.

      No entanto, o efeito dinâmico da deslocação do centro económico gravitacional do mundo a leste é incontestável e muito relevante. É esse, na minha opinião, o efeito que devemos ter em conta. E ai observamos dois factos interessantes. Em primeiro lugar, não há nenhuma alteração do peso económico relativo dos hemisférios Norte e Sul (como bem referes). Em segundo lugar, o crescimento económico da América Latina é mais que compensado pelo crescimento económico da Ásia. A explicação é muito simples. Ao factor crescimento acresce o factor dimensão. Em termos populacionais, um gigante na América Latina como o Brasil, apenas representaria o quarto lugar na Ásia, com menos 20% de população do que a Indonésia. E o México, outro gigante na região, apareceria no ranking muito aquém de países como o Paquistão ou o Bangladesh, e muito próximo de outros como as Filipinas ou o Vietname.

      Quanto aos comentários sobre urbanizaçao e boa governação, não poderia concordar mais.

      Continuação de boa leitura e até breve!

  2. Rodrigo diz:

    A Coreia do norte toda apagada

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s