O que é que os Norte-americanos sabem que os Europeus não sabem sobre as empresas de telecomunicação chinesas Huawei e ZTE?

No seu 12º Plano Quinquenal (2011-2015) de desenvolvimento do país, a China indicou o sector das telecomunicações como um dos sete sectores estratégicos para o futuro da economia nacional e a alcançarem sucesso a nível internacional.

Mas esta semana, os norte-americanos decidiram dar uma “machadada” no sector. A Comissão de Inteligência da Câmara dos Representantes norte-americana veio recomendar ao governo e empresas do país que não recorressem aos serviços das duas principais empresas chinesas de telecomunicações e que têm vindo a aumentar a sua presença a nível mundial: a Huawei e ZTE.

O relatório, fruto de uma investigação de um ano, inclui 5 recomendações (tradução simplificada do autor do post):

1) O governo norte-americano e, em particular, aqueles sectores que trabalham com sistemas informáticos sensíveis devem excluir qualquer equipamento ou componente com origem na Huawei ou na ZTE. Em simultâneo, o Comité dos Investimentos Estrangeiros dos Estados Unidos deve bloquear quaisquer aquisições ou fusões lideradas pela Huawei ou pela ZTE, devido à ameaça que representam aos interesses de segurança do país;

2)  As empresas de telecomunicações ou de sistemas informáticos do país são altamente encorajadas a procurar outros fornecedores para os seus projectos;

3) As práticas comerciais injustas do sector chinês de telecomunicações devem ser investigadas pelo Congresso e pelo governo norte-americanos, sendo que uma atenção particular deve ser prestada ao apoio financeiro que a China concede a empresas-chave;

4) As empresas chinesas devem-se tornar-se, rapidamente, mais abertas e transparentes. A Huawei, em particular, deve responder às obrigações legais impostas pelos Estados Unidos;

5) O Congresso norte-americano deve considerar possíveis leis para se melhor lidar com os riscos que colocam empresas de telecomunicações com laços aos seus governos ou que não sejam claramente de confiança para construir infra-estruturas cruciais para o país.

A Huawei, que se tornou na primeira metade deste ano, ultrapassando a sueca Ericsson, na maior empresa mundial no sector das telecomunicações em termos de vendas, já tinha sido proibida pelo governo australiano de construir uma rede nacional de banda larga no valor de 42 mil milhões de dólares australianos. A justificação: o perigo da espionagem chinesa e do aumento de crimes informáticos com origem na China.

É difícil dizer se os receios dos norte-americanos, e australianos, são mais fruto de um proteccionismo comercial ou se a questão é mesmo de segurança nacional. A principal objecção reside na dificuldade em se perceber quem é quem nas duas empresas (privadas e não estatais) pela opacidade das suas organizações e possíveis ligações da sua liderança aos militares chineses.

Esta posição de Washington e Canberra contrasta, por seu lado, com a dos Europeus.

A União Europeia decidiu em Setembro adiar a abertura de um processo contra a Huawei e a ZTE por receberem subsídios do governo chinês, evitando assim um potencial conflito comercial com a China. Uma decisão anunciada na véspera da chegada do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, a Bruxelas. Em Maio, tudo apontava que o caso seguiria em frente depois de Karel de Guch, o comissário europeu para o comércio, ter dito que havia “uma evidência muito sólida” de que as empresas chinesas estavam a beneficiar de apoios estatais, permitindo-lhes vender produtos abaixo do custo (dumping) na União Europeia. A Huawei e a ZTE negaram esta acusação. Pelos vistos, as empresas europeias do sector, como a Ericsson, Siemens-Nokia e Alcatel-Lucent não quiseram cooperar na investigação. Todas elas têm negócios importantes na China.

Ainda em Setembro, David Cameron deu as boas vindas ao investimento anunciado pela Huawei no Reino Unido. Cerca de 1,2 mil milhões de libras e a criação de 700 empregos.

Quer se goste ou não, as empresas chinesas estão aí. E o desafio é mútuo, porque as próprias têm ainda que aprender que as regras do mercado fora da China nem sempre são as mesmas.

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Sobre Luis Mah

Investigador no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Lisboa. Sou também professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
Esta entrada foi publicada em Austrália, China, EUA, União Europeia. ligação permanente.

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