Marca Portugal à conquista da China

Há quatro anos, em 2008, um membro do anterior Governo, João Gomes Cravinho, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, publicou um artigo de opinião a defender que Portugal deveria deixar de ser acionista do Banco Asiático de Desenvolvimento (BAD) caso não fosse desenvolvida uma estratégia coerente e interinstitucional, de apoio às nossas empresas e aos nossos consultores para trabalhar na Ásia, que envolvesse a aicep, a cooperação portuguesa e o Ministério das Finanças.

Foi preciso esperar dois anos para ser criado, em fevereiro de 2010 e por iniciativa da aicep e do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI) do Ministério das Finanças, um mecanismo envolvendo ministérios e associações empresariais para o aproveitamento das oportunidades de negócio existentes nos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento, e entre eles, o BAD.

E foram necessários outros dois anos para se começar a ver resultados. Nos últimos dezoito meses, oito empresas nacionais foram selecionadas para apresentar propostas técnicas ao Banco, mais oito do que nos sete anos anteriores em que Portugal foi acionista do BAD. Ao mesmo tempo, o número de consultores nacionais inscritos na base de dados aumentou de 39 para 151. E pela primeira vez, uma empresa portuguesa obteve um contrato junto desta instituição, no montante de três milhões de dólares e no setor das águas em Timor-Leste.

É difícil estabelecer uma relação de causa e efeito entre os esforços deste mecanismo e as alterações verificadas em termos da presença das empresas e consultores nacionais no continente asiático. Mas a sua criação coincide no tempo com o aumento exponencial das exportações portuguesas para a China, em 183% no primeiro semestre deste ano, transformando aquele país no décimo maior cliente de Portugal, à frente do Brasil e de Marrocos, e nove posições acima do lugar ocupado um ano antes. O referido mecanismo tem o potencial para dar um contributo importante no reforço dessa tendência.

Este mês será escolhida uma nova liderança chinesa e as análises sobre a natureza dessa liderança continuam a suscitar debates acesos sobre o que se pode esperar para a China. Muitos analistas económicos consideram que o modelo de desenvolvimento que permitiu à China ser a segunda maior potência económica mundial já não está a dar resultado. O país não pode continuar dependente dos mercados mais desenvolvidos dos EUA e da Europa para exportar os seus produtos. Está na altura da China desenvolver o potencial do seu mercado doméstico e da sua classe média emergente e consumista. O BAD estima a este respeito que a o número de chineses considerados classe média passe de cerca de 150 milhões em 2010 para 600 milhões em 2015. As empresas portuguesas não deverão perder de vista esta oportunidade.

Por um lado, os chineses são potenciais grandes  consumidores de produtos portugueses. Veja-se o exemplo da AutoEuropa, da qual a China se tornou em pouco tempo o seu segundo maior mercado, sendo responsável por 20% das vendas totais até abril, contra menos de 5% de um ano antes.

Harvard Business Review Press acaba de publicar a este respeito um estudo de Silverstein, Singhi, Liao e Michael, tendo por base inquéritos a mais de 24.000 consumidores e empresários, que prevê que o consumo privado na China e na Índia vá triplicar entre 2010 e 2020, até representar no seu conjunto cerca de USD 10 biliões, com uma classe média que irá alcançar mil milhões de pessoas e que passará de representar 28% a 45% da população nesse mesmo período.

As empresas mundiais (e entre elas as portuguesas) devem aprender a conquistar esta nova classe média, fazendo uso de estratégias de longo prazo adaptadas à evolução dos seus hábitos de consumo.

Por outro lado, o potencial turístico deverá assumir um papel particularmente relevante. Espera-se que, em 2014, a China ultrapasse a Alemanha e os EUA como o principal consumidor de turismo do mundo por volume de despesa. Em 2011, o número de chineses que viajaram para o exterior chegou aos 70 milhões, contra apenas 5 milhões quinze anos antes. No entanto, desses 70 milhões de turistas contabilizados em 2011, apenas 50 mil visitaram Portugal.

Em 2013, celebram-se os 500 anos da chegada dos portugueses à China. Seria importante aproveitar este momento histórico para inaugurar finalmente as ligações directas entre Lisboa e uma importante cidade chinesa. Este seria um contributo essencial para que Portugal não tivesse outra desculpa se não começar a usar seriamente o seu charme junto da sociedade chinesa e tornar conhecida a “Marca Portugal”.

Esta entrada foi publicada em China, Internacionalização e oportunidades de negócio, Portugal. ligação permanente.

2 respostas a Marca Portugal à conquista da China

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