Na campanha eleitoral ninguém leva a mal

Os eleitores americanos vão eleger a 6 de novembro o Presidente dos Estados Unidos para os próximos quatro anos. A campanha eleitoral americana está ao rubro. E parece que, como no amor e na guerra, na campanha eleitoral também vale tudo.

As relações com a China passaram a ocupar um lugar de destaque no debate. Injustamente, a meu ver. A administração Obama acaba de apresentar uma segunda queixa comercial sobre a China junto da Organização Mundial do Comércio, relativa a subsídios ilegais à exportação de automóveis e componentes por um montante de mil milhões entre 2009 e 2011. A justificação é que estes subsídios prejudicam a indústria automóvel americana, que se vê obrigada a deslocalizar a sua produção para fora do país e, desta forma, deslocaliza emprego e, simultaneamente, votos. Curiosamente, as duas queixas comerciais ocorreram na véspera de deslocações em campanha eleitoral de Obama ao Estado de Ohio, um Estado crucial para a eleição final e o segundo maior Estado do país em produção automóvel.

Sobre este assunto  Obama referiu na passada segunda-feira 17 de setembro durante um discurso proferido em Cincinnati que: “my experience has been waking up every single day doing everything I can to give American workers a fair shot in the global economy”. Esta afirmação surge no contexto das graves acusações proferidas por Mitt Romney poucos dias antes. O candidato republicano afirmou que iria declarar Beijing como um regime manipulador cambial no seu primeiro dia como Presidente, de forma a poder tomar contra-medidas que protejam o trabalhador americano. Nem sequer George W. Bush foi tão longe.

Até à data, a posição tomada pelos EUA foi a de pressionar a China no sentido de permitir a apreciação da sua moeda. E tem funcionado relativamente bem. Os resultados estão à vista. O renminbi tem apreciado 19% nos últimos cinco anos (8% desde o início da Presidência Obama, em 2009). Mais ainda: produtores americanos como GM ou Ford têm observado um crescimento exponencial das suas vendas na China na última década, tendoestas já ultrapassado as vendas nos EUA.

Mas todos sabemos, e esperamos, que a radicalização das posições protecionistas assumidas por ambos os candidatos à Presidência irá desaparecer no dia 7 de novembro. Pelo bem do comércio internacional e da recuperação da economia mundial. Comércio mais livre significa mais mercados para os produtos e para o emprego americanos, mesmo no caso das importações.

Vejamos, para efeitos ilustrativos, o caso dos produtos da Apple, que são produzidos na China. Xeng e Detert publicaram em 2010 o artigo “How the iPhone Widens the United States’ Trade Deficit with the People’s Republic of China” nas publicações do Instituto do Banco Asiático de Desenvolvimento. Este estudo demonstra que cada Iphone que a China exporta para os EUA contabiliza o preço de fábrica de US$ 179 na balança comercial bilateral dos dois países. No entanto, se contabilizarmos todas as componentes utilizadas na produção do Iphone, menos de 4% desse montante é acrescentado na China (34% no Japão, 17% na Alemanha, 13% na Coreia do Sul e 6% nos próprios EUA). E este número nem sequer entra em linha de conta com o diferencial entre o preço de fábrica e os cerca de US$ 600 que o consumidor americano paga pelo Iphone cobrindo custos com investigação, design, marketing e venda a retalho que a Apple, empresa americana, retém em conceito de royalties pela venda do Iphone nas suas lojas.

A China atua assim como mera cadeia de montagem do produto. Deste estudo pode-se concluir que apesar do Iphone contribuir todos os anos com US$ 2 mil milhões para o défice comercial dos EUA com a China, o verdadeiro défice comercial é um espantoso excedente comercial de $50 milhões!!

Pascal Lamy, Diretor-Geral da Organização Mundial do Comércio, tem vindo a publico afirmar que se as estatísticas de comércio internacional passassem a contabilizar apenas o valor acrescentado em cada país, o défice comercial dos EUA com a China, na atualidade próximo dos US$ 227 mil milhões, se veria reduzido para cerca de metade.

Estes dados não são novidade para os responsáveis das campanhas eleitorais republicanas e democratas. A solução é maior abertura no comércio e uma maior inserção da economia e das empresas americanas nas cadeias globais de produção.

Mas torna-se muito difícil explicar estes factos aos eleitores por serem contrários ao senso comum. Assim sendo, a demagogia continua. Muito embora todos os intervenientes (os eleitores, os dois candidatos, os responsáveis por ambas as campanhas e também a própria China) saibam que este tipo de discurso irá ser esquecido rapidamente no dia 7 de novembro. Tal como no Carnaval, nas campanhas eleitorais ninguém leva a mal. Pelo menos enquanto 30% das reservas cambiais mundiais estiverem na China.

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2 respostas a Na campanha eleitoral ninguém leva a mal

  1. Enrique Galán diz:

    E hoje 29 de setembro, numa peça adicional desta encenação orquestrada. Presidente Obama acaba de vetar uma tentativa da empresa privada chinesa Ralls Corp. de adquirir uma fábrica americana de turbinas eólicas situada relativamente próxima de um quartel da marinha americana no Oregão. “There is credible evidence that leads me to believe might take action that threatens to impair the national security of the United States” nas palavras do Presidente. Curiosamente, a última vez que um Presidente Americano vetou um acordo empresarial com base no argumento da defesa da segurança nacional, quando George Bush pai bloqueou um processo de aquisição de uma empresa aeronáutica americana por parte de uma empresa chinesa, foi em 1990!

  2. Pingback: OS BRICS estão ai para ficar. E inspirados pelo sudeste asiático. | O Retorno da Ásia

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