Empresas japonesas de novo ao “ataque”

Nas últimas duas décadas, temos vindo a assistir â progressiva erosão económica e empresarial da que já chegou a ser a segunda maior economia mundial (agora a terceira): o Japão. Se nos anos 1980s era comum falar-se da ascensão crescente das empresas do país do Sol Nascente que beneficiando de um iene forte na altura estavam prontas a adquirir propriedades de referência como o Rockfeller Center em Nova Iorque ou empresas como a Universal Pictures, nas últimas décadas a estória tem sido outra.

Desde os anos 1990s, o pobre crescimento económico do país tem estado na base de um período de introspecção nacional, mais conhecido de forma popular como uchi-muki (que se pode traduzir como “olhar para dentro”) e que tem levado as empresas japonesas a assumirem um papel mais modesto a nível global e a repensarem as suas estratégias. Até ao colapso da bolha económica dos anos 1980s, as empresas japonesas procuravam, acima de tudo, aumentar a sua quota de mercado, diversificar as suas linhas de negócio e manter o emprego em vez de apostar único e exclusivamente na obtenção de lucros. Em consequência chegaram ao final destes anos com os chamados “3 excessos”: demasiado equipamento, demasiados empregados e demasiada dívida. Com o mercado doméstico ainda a sofrer as consequências dos anos 1980s, as empresas japonesas, entretanto, cada vez mais reestruturadas e ajustadas à nova situação nacional, apostam no boom do comércio internacional no início do século XXI e dedicam-se à exportação (com sucesso) e a fortalecerem-se em termos financeiros.

E nos últimos anos, o segredo mais bem guardado tem vindo a emergir nas principais publicações económico-financeiras (Wall Street Journal e Financial Times): o retorno das empresas japonesas às aquisições no estrangeiro. A Jetro (instituição governamental japonesa responsável pelo comércio externo) indica no seu White Paper de 2012 que o investimento directo japonês no exterior chegou quase aos 116 mil milhões de dólares em 2011, um aumento de mais de 100% face ao ano anterior e o primeiro aumento ao final de três anos. Este crescimento resultou, acima de tudo, das 424 fusões e aquisições que totalizaram 66.5 mil milhões de dólares, próximo do recorde de 427 em 1990.

Novamente, beneficiando de uma moeda forte, mas também perante um mercado doméstico estagnado e com pouco potencial de crescimento (face às crescentes oportunidades em mercados emergentes) e pelas transformações nas políticas nacionais energéticas (redução do papel da energia nuclear e aposta nas energias renováveis), as empresas japonesas estão aí de novo.

Mas se comprar até parece estar a ser fácil, a grande questão reside na capacidade das empresas japonesas gerirem as suas novas aquisições porque nem sempre o resultado tem sido o melhor como bem explicita este estudo recente da McKinsey. Se esta nova onda de aquisições terá ou não sucesso ainda é cedo para o dizer. Mas a verdade é que o futuro das empresas japonesas parece passar cada vez menos pelo mercado doméstico.

Sobre Luis Mah

Investigador no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Lisboa. Sou também professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
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