O tigre fora da jaula

Emergendo de cinco décadas de isolamento político e económico, Mianmar tem todas as condições para constituir um novo tigre asiático, o penúltimo eldorado na arena do desenvolvimento, das oportunidades de negócio e da tabuleiro geoestratégico do continente asiático para o século XXI.

O potencial pode ser sintetizado nos seguintes aspetos:

  • Um mercado próximo dos 55 milhões de habitantes e uma mão-de-obra jovem (um quarto da população com idade inferior a 30 anos) e com um custo muito atrativo para o investimento direto estrangeiro,
  • Rico em recursos naturais (amplo potencial em energias renováveis, em particular hidroelétrica, 37. país do mundo com maiores reservas de gás e 75. país do mundo com maiores reservas petrolíferas, setores estes responsáveis por 99% dos USD 20 mil milhões de investimento direto no estrangeiro recebido por Mianmar em 2011-2012, amplas florestas virgens e pedras preciosas raras) e também em potencial agrícola (potencial para se transformar num dos maiores exportadores de arroz e de marisco do continente),
  • Oportunidades de investimento diversificadas, em particular nas telecomunicações  e no setor turístico (praias maravilhosas e pagodas e templos com cerca de 900 anos, que em nada têm a invejar aos seus análogos tailandeses, mas que receberam apenas um milhão de visitas em 2011, muito aquém dos quinze milhões de turistas que visitaram a Tailândia nesse mesmo ano), e
  • Localização geográfica estratégica entre os dois gigantes emergentes da região (a índia e a China, com cerca de 2,5 mil milhões de habitantes no seu conjunto), membro activo da ASEAN e com ligações profundas à Tailândia.

Segundo uma análise conduzida pelo Banco Asiático de Desenvolvimento, Mianmar tem potencial para crescer em média cerca de 7%-8% ao ano durante as próximas décadas se continuar e consolidar as reformas iniciadas este ano. Esse crescimento triplicará o seu rendimento per capita até 2030 e tornará Mianmar num país de rendimento médio nessa altura.

Apesar do potencial inexplorado ser enorme, o país é neste momento o mais pobre do sudeste asiático, com um PIB per capita estimado em USD 857 em 2011 e cerca de um quarto da população abaixo do limiar da pobreza e sem acesso a electricidade. Segundo Transparency International, apenas dois países apresentavam em 2011 setores públicos mais corruptos: a Coreia do Norte e a Somália. O clima de negócios é também apontado como sendo opaco, corrupto, altamente ineficiente e com ausência de um estado de direito digno dessa designação. Os desequilíbrios macroeconómicos são graves, com múltiplas taxas de câmbio oficiais do kyat, inexistência de um mercado formal de crédito comercial, inflação inestável e dados macroeconómicos duvidosos. Na ausência do básico, as incertezas são muitas. Em particular, para os investidores. A título exemplificativo, poderão os estrangeiros possuir propriedade?

De facto, Mianmar tem sido um dos maiores desapontamentos do continente. De uma das nações mais ricas da região no final da Segunda Guerra Mundial, a antiga Birmânia passou a ser um dos países mais pobres na atualidade. Os responsáveis por esta situação têm nome e apelido: uma gestão económica desastrosa e uma ditadura militar que, como tantas outras, marginalizou e isolou o país. Enquanto os seus vizinhos cunhavam o conceito de tigre asiático (Tailândia, Malásia, Singapura, Indonésia), Mianmar afundava-se na pobreza, penalizada por sanções internacionais e constrangida pela ausência de reformas, quer políticas, quer económicas.

Os passos dados em 2011 são no entanto encorajadores. O processo eleitoral para as eleições parlamentares parciais de abril foi descrito como satisfatório aos olhos da comunidade internacional, e a prémio nobel da paz, Aung San Suu Kyi, pôde desta vez ocupar o seu lugar no parlamento. Os elevado impostos às exportações foram reduzidos e algumas restrições no sistema financeiro foram levantadas. No seguimento do perdão em abril por parte do Japão de USD 3,7 mil milhões em dívida bilateral, o Governo afirmou a sua decisão de retomar o relacionamento com as organizações internacionais, com especial relevo para o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento. As visitas de mandatários internacionais ao país sucedem-se sem cessar, concorrendo por quartos de hotel de topo em Yangon com um desfile incessante de empresários e turistas. À espera do necessário financiamento, a criação de uma zona económica especial, na forma de maior complexo industrial do Sudeste asiático, e com um investimento próximo dos USD 50 mil milhões, está a ser amplamente publicitada para a região de Dawei, no sul do país, provista de modernas conexões rodoviárias, ferroviárias e de um porto de profundidade novinho em folha.

O potencial existe, e muito, para estarmos na presença de um novo tigre. Para já, nada mais é que um tigre adolescente que fugiu do cativeiro. Terá de aprender a encontrar o seu lugar no mundo, entre outros tigres, a caçar por si só e a satisfazer as suas necessidades básicas. Mas o certo é que já se encontra fora da jaula. E tem fome.

Para mais informação, consulte o relatório especial do Banco Asiático de Desenvolvimento sobre as oportunidades e desafios de Mianmar.

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4 respostas a O tigre fora da jaula

  1. Enrique Galán diz:

    Curiosamente, ficamos a saber pela macauhub.com que a empresa estatal Myanma Airways, a companhia aérea nacional de Myanmar, adquiriu dois aviões a jacto Embraer 190 três semanas depois de termos publicado este artigo. De acordo com a Embraer, os dois aviões a jacto, com 100 lugares cada, são os primeiros da empresa a serem adquiridos por uma empresa aérea daquele país asiático, indo ser entregues até ao final do ano. Com um alcance máximo de 4.400 quilómetros, os Embraer 190, que fazem parte do plano de modernização da frota da Myanma Airways, permitirão a realização de voos para novos destinos na Ásia. Estabelecida em 1948, a Myanma Airways é única companhia aérea estatal de Myanmar, servindo actualmente a grande maioria dos destinos domésticos a partir de sua principal base operacional, o Aeroporto Internacional de Yangon. A Myanmar Airways deverá iniciar ainda este ano ligações internacionais.

  2. Pingback: Um momento histórico | O Retorno da Ásia

  3. carol diz:

    esa imagem e do filme 2 irmãos tigres e super legal

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