A aventura da “globalização à chinesa”

No dia 20 de Agosto, a EDP-Energias de Portugal S.A., formalizou um acordo com o China Development Bank (CDB) para um empréstimo de 1.000 milhões de euros. No entanto, os media portugueses pouco nos deram a conhecer sobre este banco e o papel que representa no que já se pode chamar da aventura da “globalização à chinesa”.

Em 2011, o impacto dessa aventura começava a ser conhecida. O Financial Times declarava que em 2009 e 2010 a China, através do CDB e do China Export-Import Bank  (nas suas denominações em inglês), já tinha ultrapassado o Banco Mundial nos empréstimos a países em desenvolvimento, numa clara afirmação do crescente poder financeiro do país e na sua incessante necessidade de garantir o acesso a recursos minerais para alimentar a economia nacional. O CDB e o China Export-Import Bank tinham acordado empréstimos no valor de 110 mil milhões de dólares contra os 100.3 mil milhões de dólares do Banco Mundial (via Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento e Sociedade Financeira Internacional)

O CDB é um dos chamados policy banks ou seja bancos cujos empréstimos são explicitamente destinados a apoiar as políticas públicas definidas pelo governo chinês nos Planos Estratégicos de Desenvolvimento Nacionais e que abrangem as seguintes áreas prioritárias: energia, construção de estradas, desenvolvimento ferroviário, indústria do petróleo e petroquímica, carvão, correios e telecomunicações, agricultura, florestas e água, e infra-estrutura pública (aeroportos, etc). Não só é o maior banco de desenvolvimento doméstico mas também é considerado o maior banco de desenvolvimento a nível mundial em termos de activos. O seu papel tem sido crucial no financiamento a projectos de infra-estruturas e de exploração de recursos naturais a nível internacional liderados por empresas chinesas. Se para o governo chinês esta é a estratégia para ajudar as empresas chinesas (principalmente estatais) a se tornarem competitivas no mercado global e a obterem os recursos minerais necessários para a economia nacional, nos Estados Unidos e na Europa esta situação começa a ser vista como um desafio sério para as empresas exportadoras norte-americanas e europeias. A China não é membro da OCDE e por isso não tem que respeitar as boas práticas definidas pelos membros desta organização para o crédito à exportação.

Ao mesmo tempo, e à medida que se torna mais visível a sua presença a nível internacional, os impactos ambientais e sociais dos empréstimos do CDB começam a ser sujeitos a um maior escrutínio pela sociedade civil.

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Sobre Luis Mah

Investigador no Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CESA) no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Lisboa. Sou também professor auxiliar convidado no Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
Esta entrada foi publicada em China, Internacionalização e oportunidades de negócio. ligação permanente.

Uma resposta a A aventura da “globalização à chinesa”

  1. enriquegalan diz:

    Em Portugal, para além do empréstimo de mil milhões de euros à EDP-Energias de Portugal, que representa o maior empréstimo entre um Banco e uma empresa portuguesa, e ainda o maior empréstimo do China Development Bank fora da China em 2012, o CBD tinha já emprestado há um ano 300 milhões de dólares ao Banco Espírito Santo, embora este empréstimo não tenha sido tão publicitado na comunicação social. Mas o interesse nos países lusófonos não se fica por Portugal. Em 2009, o CBD assinou um contrato de financiamento com a brasileira Petrobrás no valor de 10 mil milhões de dólares. Em Angola, e desde 2002, três bancos estatais (China Development Bank, China Export Import Bank e o Commercial and Industrial Bank of China) têm concedido no seu conjunto cerca de 15 mil milhões de dólares em empréstimos. Este facto não é surpreendente se considerarmos que Angola é o segundo maior fornecedor de petróleo da China, apenas superado pela Arábia Saudita.

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