A filha de Salazar

Imaginemos a seguinte história.

Imaginemos por um momento que Salazar tinha casado e tinha tido uma filha. Imaginemos também que a esposa de Salazar tinha sido assassinada a tiro por um espanhol que simpatizava com a luta das ex-colónias na guerra colonial. Por engano, pois o tiro tinha como destinatário o próprio Salazar.

Imaginemos ainda que a filha, com 22 anos, vê-se obrigada a desempenhar o papel de primeira-dama a tempo inteiro. Mas apenas durante cinco anos, pois o Salazar é assassinado, também a tiro, mas desta vez pelo Diretor da PIDE, numa discussão num jantar privado, na qual o Salazar acusa este último de ser benevolente com os detractores do regime.

Imaginemos que, após um desaparecimento da vida pública de onze anos, a filha de Salazar dá início a uma ascensão meteórica no PSD. Resultado do aumento da sua visibilidade, um louco tenta assassiná-la com uma faca durante uma campanha eleitoral para Presidente da Câmara de Setúbal, deixando-lhe como recordação sessenta pontos de sutura, horas de cirurgia e uma cicatriz de onze centimetros no seu pescoço. Este incidente, para além de lhe proporcionar uma ampla vitória nas eleições autárquicas, aumenta a sua popularidade até ao ponto de ser nomeada, com 84% dos votos, candidata às próximas eleições presidenciais pelo partido vencedor das recentes eleições legislativas. Imaginemos ainda que a filha de Salazar, com um discurso fortemente nacionalista, lidera amplamente as sondagens para as eleições presidenciais. Imaginemos que Portugal apresenta um sistema político semi-presidencialista, onde o Presidente goza de um poder executivo considerável.

Imaginemos que Portugal, em resultado da segunda guerra mundial, foi dividido em dois, Portugal do Norte acima do Mondego, um regime ditatorial, autoritário e fortemente nacionalista, e Portugal do Sul, onde a filha do Salazar pretende governar. Imaginemos por último que ambos os países se encontram oficialmente em guerra.

Pois bem, esta história rocambolesca está a acontecer na Coreia do Sul, onde Park Geun-Hye, principal candidata ao lugar de Presidente nas próximas eleições de dezembro, é a filha de Park Chung-Hee, líder que alcançou o poder em 1961 através de um golpe de Estado e que, até o seu assassínio em 1979, misturou reformas económicas de sucesso com violações dos direitos humanos e torturas.

Nesta situação hipotética, tal sucesso eleitoral não seria de espantar em Portugal, se tivermos em conta o resultado do programa da RTP Os Grandes Portugueses.

No entanto, no caso da Coreia do Sul, identificando-se Park Geun-Hye a si própria como uma tatcherista convicta, e tendo sido batizada como a dama de gelo pela comunicação social local, a sua postura não parece indicar predisposição a conviver com as habituais provocações do irmão do norte. A principal questão por responder neste momento é saber como a eventual subida de Park Geun-Hye ao poder poderá endurecer o relacionamento com o irmão do norte, numa altura em que este começava a mostra alguns sinais de abertura.

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3 respostas a A filha de Salazar

  1. Pablo Martinez diz:

    Muy interesante y muy imaginativo

  2. Luis diz:

    Park Chung-hee na verdade continua, apesar dos atropelos à democracia e direitos humanos durante os seus mandatos, a ser o presidente sul-coreano mais admirado do país…Provavelmente porque, ao contrário de Salazar, a distribuição da riqueza, derivada do desenvolvimento agrícola e industrial do país, foi mais bem conseguida do que em Portugal. Claro que a estória é um pouco mais complexa porque houve (e há) desigualdades regionais e entre cidade e campo e existem outras variáveis que são importantes para perceber o desenvolvimento sul-coreano….Quanto a Park Geun-hye é uma verdadeira sobrevivente no sistema político sul-coreano (ser filha de quem contribui) e veremos se o seu ascendente actual se irá manter nos próximos tempos…tudo depende de quem será o adversário da oposição…e se conseguirá fazer um discurso que responda aos anseios da população mais jovem tendencialmente mais progressista nos valores, preocupada com as crescentes desigualdades no país e pró-Estado Providência…..

  3. Enrique Galán diz:

    Reblogged this on O Retorno da Ásia and commented:

    Com a divulgação dos resultados das eleições presidenciais de ontem na Coreia do Sul, Park Geun-hye tornou-se a primeira mulher a ocupar a presidência do país. Mas não só. A este respeito, decidimos voltar a publicar o artigo que publicamos a 21 de agosto acerca da agora nova Presidente do país.

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