O olimpismo nascente

Mais rapido, mais alto, mais forte. A carta olímpica define os jogos olímpicos como um momento de desafio e de conquista individual do ser humano.

No entanto, a agregação dessas medalhas permite obter ilações muito interessantes sobre a capacidade dos países que os atletas representam para gerar talento desportivo.

Não é por acaso que todos os meios de comunicação e o próprio Comité Olímpico Internacional dão tão amplo destaque ao medalheiro, devidamente atualizado. E não é também por acaso que, aquando dos Jogos Olímpicos de Beijing quatro anos atrás, os jornais americanos de maior influência passaram a publicar o medalheiro dos jogos seguindo o número total de medalhas obtidas por cada país, abandonando o critério tradicional de número total de medalhas de ouro. Evitava-se assim a deshonra de que os EUA não continuassem a ser, como nos dezasseis anos anteriores, a maior potência desportiva mundial. E em particular perante uma China à qual muitos americanos ainda culpam da perda de empregos em alguns sectores da sua economia. Uma espécie de guerra fria de baixa intensidade.

A preponderância da China no desporto mundial está no entanto para ficar. O século do retorno da Ásia não se limita à atividade económica. Também abrange outras esferas como a desportiva.

No medalheiro olímpico histórico, apenas três países asiáticos surgem com alguma relevância. A China, no nono lugar, o Japão e a Coreia do Sul, em decimoquinto e décimo-oitavo lugar, respectivamente. Entre eles, países como a Finlândia, a Noruega e a Hungria. E estamos a considerar apenas os resultados obtidos nos Jogos Olímpicos de Verão. Nada que permita denominar estes países como potências desportivas mundiais.

Contudo, a evolução recente do peso da Ásia no medalheiro olímpico tem alterado completamente o panorama desportivo mundial. Para o demonstrar, uma imagem vale mais que mil palavras.

Mais de um quarto do total de medalhas obtidas em Londres até à data são asiáticas. Este continente apenas representava 6,3% trinta anos antes. E a China continua a ocupar o primeiro lugar do medalheiro, algo que parecia ter acontecido quatro anos antes devido ao conhecido efeito de país organizador. O peso da China nesta evolução é significativo, e tem crescido exponencialmente desde a primeira participação olímpica deste país, em 1984. Mas esta evolução não se reduz apenas à China. O Japão, representante histórico do continente por excelência, apesar de irregular, fornece um contributo importante. A Coreia do Sul tem conseguido manter em Jogos posteriores os resultados excelentes obtidos nas olimpiadas de Seul. Surprendentemente, uma multiplicidade de outros países asiáticos têm avançado lugares no medalheiro e o leque de atletas asiáticos medalhados tem passado a incluir com normalidade a quase totalidade dos países do Cáucaso e da Ásia Central, com particular destaque para os resultados obtidos pelo Casaquistão.

E o potencial inexplorado parece muito mais promissor quando constatamos que a China ainda não conseguiu brilhar em desportos colectivos. Ou que países extremadamente populosos, como a Índia, a Indonésia ou as Filipinas, ou com rápido crescimento económico, como a Tailândia, a Malásia ou o Vietname, raramente aparecem no medalheiro. Ceteris paribus, maior população deve gerar mais talento, e maior riqueza deve gerar mais recursos para desenvolver esse talento.

Consegue-se antecipar sem muito esforço um cenário não muito longínquo em que os atletas asiáticos representem cerca de metade das medalhas de uns Jogos Olímpicos de Verão. Mais um sinal da mudança dos tempos e de como o século do retorno asiático esta a assumir outras muitas esferas para alem da económica.

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2 respostas a O olimpismo nascente

  1. enriquegalan diz:

    Feito o balanço final, as medalhas de atletas asiáticos representaram 23,08% do total de medalhas em Londres 2012 (9,04% para a China, 3,95% para o Japão e 2,91% para a Coreia do Sul). Estes valores encontram-se ligeiramente abaixo das percentagens parciais indicadas neste artigo, dada alguma recuperação dos medalhistas europeus e americanos nos últimos dias de competição. As conclusões apresentadas continuam no entanto válidas na sua totalidade.

  2. enriquegalan diz:

    Referência especial merece o Casaquistão, que consolida o número total de medalhas dos seus atletas em 1,35% do total, valor análogo ao alcançado em Beijing 2008, máximo histórico daquela nação.

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